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Me Poupe! Nathalia Arcuri propõe boicote às marcas com taxa rosa

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Imagem: Divulgação

Deborah Bresser

Colaboração para Universa

17/12/2020 04h00Atualizada em 17/12/2020 11h33

Com temas complicados e vídeos engraçados, a ex-jornalista Nathalia Arcuri é muito mais do que uma influencer no universo das finanças pessoais. Criadora do canal Me Poupe!, ela montou um império de entretenimento financeiro e acaba de estrear sua nova temporada de vídeos no YouTube, agora entrevistando grandes executivas.

A empresa abrange o canal Me Poupe! no YouTube, cursos de finanças, os livros "Me Poupe! 10 passos para nunca mais faltar dinheiro no seu bolso" e "Guia Prático Me Poupe! - 33 dias para mudar sua vida financeira", lançado neste mês, além do podcast Poupecast, o programa Me Poupe 89!, na Rádio Rock, e conteúdos gratuitos sobre educação financeira no blog e redes sociais.

O império que ela criou, estima, impacta 21 milhões de pessoas por mês, faturou R$ 22 milhões em 2019 e foi considerado uma das 100 marcas mais lembradas durante a pandemia.

Agora, em cinco novos episódios da série Mulheres que Mudam o Mundo, ela ouve grandes empreendedoras compartilhando suas jornadas e ensinamentos. Nessa conversa com Universa, ela conta o que aprendeu com essas mulheres, o que uma mulher precisa fazer para começar a investir, e propõe um boicote às marcas que cobram preços maiores de produtos femininos similares aos masculinos. "Mulher sabe muito bem mexer com dinheiro, só precisa entender como multiplicar."

UNIVERSA: Nathalia, qual é a relação das mulheres com o dinheiro?

NATHALIA ARCURI: Mulheres sabem muito bem mexer com dinheiro, não é à toa que são as mulheres que estão à frente do orçamento familiar na maior parte das famílias brasileiras. O que a mulher só infelizmente não aprendeu a fazer, e a gente está ensinando no Me Poupe!, onde nosso maior público é majoritariamente feminino, é a multiplicar o dinheiro.

Mulher sempre soube muito bem cuidar do dinheiro, ela só não tinha aprendido a multiplicar, investir, e na medida em que ela aprende a fazer isso, ela faz e com muito capricho, com muito cuidado, inclusive correndo menos riscos do que os homens, porque ela avalia melhor as várias alternativas, diversifica.

Podemos dizer que há características femininas na hora de investir?

Eu sinceramente de tudo o que eu já vi dos meus alunos, não vejo uma grande diferença, a não ser por esse aspecto, de tomada de decisão um pouco mais cautelosa em relação a riscos. As mulheres costumam avaliar melhor os vários cenários e são menos imediatistas. Sabem esperar mais o retorno, são menos gananciosas, o que para quem investe em renda variável é uma excelente qualidade. Ganância e qualquer tipo de investimento nunca combinam.

Você tinha uma situação estável, um bom salário, o que a levou a empreender?

Pois é, menina! Eu tinha uma carreira muito bem-sucedida, apesar de breve. Com 25 anos eu já era repórter de rede [que aparece nas transmissões para todo o país]. Com muito trabalho, muita madrugada, consegui chegar lá um pouquinho mais cedo do que outros colegas e ganhava bem. Mas como cheguei muito cedo naquele lugar onde eu queria, muito cedo também me cansei. Não tinha mais para onde ir. E aí, outra coisa que começou a me chatear no jornalismo era ficar muito passiva em relação ao que acontecia, eu queria poder mudar as histórias.

Cuidar de dinheiro sempre foi um grande prazer pra mim, apesar de não ter tido muito apoio da família. E aí em determinado momento eu me peguei diante de uma reportagem que me chocou bastante, que falava sobre os índices de violência doméstica contra mulher e como isso estava relacionado à dependência financeira. Aquilo pra mim foi a chave que eu precisava para mudar.

Eu já estava muito frustrada, fazia três anos que eu relutava em sair da TV, mas eu vi que só tinha a perder continuando lá, essa coisa de zona de conforto. Eu já tinha montado uma boa reserva de emergência, podia ficar um ano e meio sem trabalhar que tava tudo certo, aí pensei: putz, agora ou nunca, se eu conseguir mudar a vida de uma pessoa já valeu. E me joguei.

Você entrevistou mulheres inspiradoras. Mas que mulheres te inspiraram nessa jornada?

Eu convidei para o projeto mulheres que já me inspiravam e com quem eu realmente gostaria de ter um contato mais próximo, fazer perguntas que ficavam na minha cabeça e cujo ensinamento eu gostaria de compartilhar. Então, todas elas, Luiza Trajano, Carla Sarni, Mariana Vasconcelos, Adriana Barbosa, Cleusa Maria, todas me inspiram demais. Foi praticamente um MBA, foi muito bacana mesmo e vai inspirar muita gente.

Você já afirmou que há pessoas que tem dinheirofobia. O que é isso?

A gente já nasce com isso, pega na infância, dos nossos pais, que é aquele tabu de falar sobre dinheiro antes que ele vire um problema. É falar sim sobre a conta, quem vai rachar, é falar sim sobre ganhar mais dinheiro, é falar sim sobre maneiras de ter mais dinheiro, é não ter pudor ao falar sobre isso, é não ter vergonha de perguntar quanto o outro ganha, não ter vergonha de falar o quanto você ganha, é não ter medo de contar para o seu marido ou para a sua esposa que você está inadimplente ou endividado, é lidar com esse assunto da melhor maneira possível.

O dinheiro é só uma ferramenta, então não deveria ser cercado desse tabu. O Brasil é um país onde o sucesso muitas vezes é mal visto, se o sujeito tem dinheiro alguma coisa de errado fez, se eu ganhar muito dinheiro não vou contar pra ninguém porque minha família vai começar a pedir dinheiro pra mim.

Então, preferem esconder, essa é uma questão muito cultural e comportamental, mas que a gente precisa combater. A dinheirofobia só se combate com informação.

Arcuri - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Nathalia Arcuri entrevista Luiza Trajano, da rede Magazine Luiza, para sua nova série de vídeos no YouTube
Imagem: Reprodução/Instagram

Como você descobriu que falar de finanças pessoais era uma demanda?

Acredito que assim como eu, muitos empreendedores começam por uma dor própria. Eu tinha essa dor, não tinha quem falasse comigo. Quando eu quis aprender sobre investimentos, por exemplo, eu tive que primeiro virar uma tradutora, porque tinha que decodificar toda aquela linguagem. Como sou jornalista, usei minha competência. Mas eu não sabia que existia essa demanda. Fiz por entender como as pessoas próximas de mim estavam todas ferradas pelas mesmas questões, que eram comportamentais e falta de inteligência financeira.

Para mim o dinheiro é meio, quando você entende como usar essa ferramenta a seu favor, você constrói qualquer coisa. Não é algo místico, é lógico. Só que para lidar com essa lógica, você precisa entender até mesmo as suas emoções.

Qual sua opinião sobre a taxa rosa? Por que produtos femininos custam mais que os masculinos?

Sobre essa questão do "pink tax", primeiro que é um fato, já tem pesquisas que mostram essa diferença, não é uma opinião. Talvez seja necessário algum tipo de regulamentação, de cobrança sobre isso, por meio dos órgãos públicos. A única coisa que posso fazer é instruir as mulheres que me seguem a ficarem atentas: se for igual ao masculino, que compremos o masculino.

O negócio é dar boicote. É a única coisa que está ao nosso alcance no momento. Se tem o mesmo produto, feminino e masculino, e o feminino é mais caro só porque é rosa, e tem um detalhezinho ali, não muda nada na usabilidade do produto, não tem por que comprar o feminino.

Nathalia Arcuri - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Nathalia Arcuri durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, no início do ano
Imagem: Reprodução/Instagram

Como foi virar uma celebridade do YouTube?

Até hoje acho que não me vejo como uma celebridade. O YouTube foi só um dos canais que eu encontrei para democratizar o acesso ao entretenimento financeiro, a tudo o que se relaciona a planejamento financeiro pessoal, empreendedorismo, as bases de investimento. Eu sou só um instrumento da minha empresa. Se amanhã eu descobrir que tem um jeito melhor de fazer o que eu faço certamente vou usar, não tenho nenhum apego ao que represento. Para mim é uma baita alegria saber que através do meu trabalho eu consigo fazer aquilo que eu queria lá atrás, que era mudar a vida de uma única pessoa, e esse último ano a gente falou para 20 milhões de pessoas. Pra mim, isso é incrível.

Quais são seus próximos planos?

Eu tenho um plano de transformar o Brasil em um país menos desigual. O propósito da minha empresa é promover uma economia mais igual, combater a desigualdade social através da educação financeira. Quando você pensa nesse propósito, o indivíduo é o melhor instrumento para que isso seja possível no longo prazo. Como eu sempre fui uma investidora de foco no longo prazo, isso não me preocupa. Tenho planos bastante ambiciosos pro Brasil.

Houve parceria com Erico Borgo, seu marido, para formatar o negócio?

Certamente ser casada com o Erico Borgo me ajudou, porque é um homem que sempre acreditou que eu fosse capaz. A estruturação do negócio eu tive de fazer por mim mesma. O Erico era a alma do negócio da empresa que ele ajudou a montar (o site Omelete). Eu aqui sou o conteúdo, a CEO, a gestora, a influenciadora, então eu tive que me virar bastante. Mas, certamente, ter o apoio psicológico dele foi fundamental e vai continuar sendo.

E acho que esse é um recado muito importante para todas as mulheres: não me casei com um mentor, eu me casei com um homem, um homem que está lá para me apoiar, assim como eu estou aqui para apoiá-lo naquilo que for necessário.

Alguém que nas noites que eu volto tarde, de dezenas de viagens, não fica com aquela cobrança ridícula que vários homens têm. Então, se eu pudesse deixar um recado para todas as mulheres, e a mulheres empreendedoras principalmente, é: escolham bem o seu parceiro, porque certamente vai fazer a diferença entre o seu sucesso e a sua frustração.

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