PUBLICIDADE

Topo

Mapa da mina

O que toda empreendedora precisa saber antes de abrir sua 1º empresa

Michelle Fernandes, que identificou numa dificuldade sua oportunidade de negócio: "Ver um turbante sair da periferia para outro país é muito especial" - Simon Plestenjak/UOL
Michelle Fernandes, que identificou numa dificuldade sua oportunidade de negócio: "Ver um turbante sair da periferia para outro país é muito especial" Imagem: Simon Plestenjak/UOL

Caroline Marino

Colaboração para Universa

26/11/2020 04h00Atualizada em 26/11/2020 09h59

Em meio a uma transição capilar, no fim de 2012, a paulistana Michelle Fernandes resolveu usar turbantes. Os acessórios que ela mesma fazia, e que a ajudavam a passar pelo processo de deixar de alisar os fios, começaram a despertar o interesse das amigas. Foi quando ela perdeu emprego de quatro anos como auxiliar administrativa. E passou a considerar a possibilidade de abrir seu próprio negócio.

A Boutique de Krioula, uma empresa de moda afro que produz hoje, além dos turbantes, joias como brincos e anéis, nasceu não apenas de uma necessidade de Michelle, mas também de uma oportunidade que ela vislumbrou no mercado.

Por causa da pandemia do coronavírus, muitas mulheres como Michelle estão entrando no mundo do empreendedorismo, seja pelo desemprego ou pelo receio de que o setor em que atuam demore muito para voltar ao normal. "A crise tem sido um empurrão para quem já tem vontade de empreender", diz Wilson Poit, diretor superintende do Sebrae-SP.

Segundo estimativas da instituição, só no período da crise, mais de 1 milhão de microempresas foram criadas, sendo cerca de 400 mil apenas em São Paulo. Mas, a exemplo da Boutique de Krioula, para um negócio dar certo é preciso ir além da necessidade e da vontade.

O principal erro de quem empreende

Dados do Sebrae mostram que empreendimentos por necessidade tendem a ter vida mais curta do que quando planejados com base na identificação de oportunidades no mercado. Por isso, noções básicas de planejamento de negócio são fundamentais para que a empresa nascente sobreviva a seus dois primeiros anos de vida.

Segundo Wilson, o que reduz o perigo é contar com um planejamento bem estruturado - não só relacionado ao dinheiro para começar, mas também para se manter durante os primeiros meses -, estudar o mercado, divulgar o negócio para o máximo de pessoas possível, se capacitar e ativar a rede de contatos.

Ter uma boa ideia é essencial, mas não basta. Uma pesquisa feita pela aceleradora Farm mostra que em torno de 74% das startups brasileiras fecham após cinco anos de existência - e 18% delas morrem antes mesmo de completar dois anos. Engana-se quem pensa que o motivo é majoritariamente falta de aporte ou de investimento: uma das principais causas é o desalinhamento entre a proposta de valor e o interesse do mercado.

Ou seja, para uma ideia se firmar como um negócio, ela precisa resolver um problema, algo ligado aos anseios da maioria das pessoas, que seja percebido como falta, dificuldade ou desejo.

Michelle 2 - Simon Plestenjak/UOL - Simon Plestenjak/UOL
"Os feedbacks das clientes mostram que estamos no caminho certo", diz a empreendedora
Imagem: Simon Plestenjak/UOL
Michelle turbante 2 - Simon Plestenjak/UOL - Simon Plestenjak/UOL
Para abrir o negócio, Michelle investiu R$ 150 e fez seus primeiros turbantes para vender
Imagem: Simon Plestenjak/UOL

O pulo do gato da Boutique de Krioula

Hoje, aos 37 anos, Michelle Fernandes conta que seu negócio uniu empreendedorismo e propósito. Ela queria, com seus produtos, oferecer opções a mulheres negras como ela, que não se sentiam representadas pelos produtos que existiam no mercado.

Os passos iniciais foram de muita pesquisa para entender mais sobre tecidos e o mercado, e de capacitação e mentoria. Ela fez cursos de administração e finanças, e seu sócio, de desenho e Photoshop. Com um investimento de R$ 150, ela fez sua primeira coleção de turbantes, que divulgou nas redes sociais. E assim o negócio foi tomando forma.

Em 2018, a empresa passou por uma aceleração pelo Anip (Articuladora de Negócios de Impacto da Periferia), com apoio da Fundação Getulio Vargas (FGV) e da Artemisia, aceleradora de negócios sociais, e recebeu a aporte de R$ 20 mil. O recurso ajudou na compra de equipamentos e giro de caixa. "Mas o grande marco foi quando enviamos mercadorias para outros países, como Angola, França, Portugal e, recentemente, Estados Unidos", diz.

As características de um perfil empreendedor

É importante lembrar que empreender não pode ser uma fuga do emprego, principalmente, se for carregada de ilusões, como não querer mais ter chefe ou buscar mais qualidade de vida. "Nos primeiros anos, é preciso muito empenho e trabalho, e o retorno é incerto, podendo demorar anos para o negócio acontecer de fato", diz Rafael Souto, presidente da Produtive, consultoria de planejamento e transição de carreira.

Ativar o networking e buscar auxílio de aceleradoras e instituições de empreendedorismo é outro conselho de Rafael. "Todos têm um gap. Recorrer ao networking e à mentoria para avançar a ideia faz parte do processo. A jornada não precisa ser solitária", afirma.

Segundo ele, o ideal é começar com um conceito vindo das startups, o Produto Mínimo Viável (MVP, do inglês Minimum Viable Product), no qual o investimento inicial é mais baixo - apenas referente aos recursos necessários para testar o projeto. E assim o produto vai sendo ajustado, de acordo com o feedback dos clientes.

Outro ponto importante é não paralisar no primeiro erro. "O erro não é sinal de fracasso do projeto. O importante é saber ler os sinais e fazer ajustes. Nada surge numa versão definitiva", afirma Rafael. Nesse sentido, duas competências são importantes, segundo Bibiele Teixeira, cofundadora da escola de startups 49 educação: resiliência e resistência.

"Erramos várias vezes, mas todos os erros foram uma oportunidade de acertar na próxima vez. Eles nos ajudaram a melhorar a cada dia", diz Michelle. Segundo ela, a estratégia da Boutique de Krioula está sendo pautada em buscar conhecimento, seja por meio de cursos ou mentorias, seja conversando com outros empreendedores. "Trabalhar em rede é essencial para o sucesso", diz.

Michelle turbante - Simon Plestenjak/UOL - Simon Plestenjak/UOL
Michelle Fernandes e seu turbante: uma questão pessoal fez com que ela identificasse uma oportunidade de negócio
Imagem: Simon Plestenjak/UOL

4 pilares para um negócio de sucesso

Segundo a acadêmica Saras Sarasvathy, indiana radicada nos Estados Unidos que percorreu 17 estados americanos para entender qual o denominador comum entre empreendedores de sucesso, abrir um negócio tem relação com criar oportunidades a partir de quatro pilares:

  1. Quem você é: Em que você acredita, quais suas paixões, do que gosta e ousa realizar, quem conhece? Com isso, é possível definir quais são os primeiros passos;
  2. O quanto você é resiliente: Antes de imaginar as possibilidades de ganho com o negócio, pergunte-se: "O que vou perder caso minha ideia não dê certo?". Se as consequências forem suportáveis, vá em frente;
  3. Quanto está aberta a testar ideias: Caso elas deem errado, é preciso saber se adaptar a partir dos resultados obtidos;
  4. Quanto pode contar com ajuda: Busque parceiros, ative sua rede e junte-se a pessoas com habilidades e conhecimentos complementares aos seus.


Check list

O que é preciso para começar a pensar em empreender

  • Não basta ter uma boa ideia, é preciso estudar bem o mercado para encontrar uma boa oportunidade;
  • Negócios que unem a necessidade à oportunidade têm mais chance de darem certo. Se tiver um propósito, ainda melhor;
  • Escolhida a área de atuação, que precisa ter a ver com você, é importante se capacitar e procurar mentoria;
  • Usar sua rede de contatos para divulgar seu negócio é essencial;
  • Resiliência e resistência são competências necessárias para quem quer empreender.

Mapa da mina