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Joice Hasselmann sobre ataques ao romper com Bolsonaro: "Foi estupro moral"

A deputada federal Joice Hassemann, candidata à prefeitura de SP - Divulgação
A deputada federal Joice Hassemann, candidata à prefeitura de SP Imagem: Divulgação

Camila Brandalise

De Universa

26/10/2020 04h00

Há dois anos, logo após ser eleita deputada federal por São Paulo com 1.078.666 votos, se tornando a mulher com a maior votação para o cargo na história do país, Joice Hasselmann (PSL-SP), 42, concedeu uma entrevista a Universa em que exaltava o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), criticava o feminismo —"Feministas têm comportamento vexaminoso", disse à época— e afirmava que seu maior alvo no Congresso seria a esquerda e, principalmente, o PT.

Foi só após os sucessivos ataques que recebeu desde o final de 2019, quando rompeu com o governo Bolsonaro —como aqueles em que se tornou alvo de montagens com seu rosto comparando-a a uma porca—, que ela diz ter aprendido na pele que machismo e sororidade, um termo do feminismo para se referir à ajuda mútua entre mulheres, existem.

"Eu não percebia que estava sendo tão violentada. Dizia que nunca seria vítima de machismo, que era uma bobagem. Mas realmente existe uma violência de gênero política muito grande com a mulher. Então acabei mordendo a língua. Aprendi da pior forma. O que eu vivi foi um estupro moral", diz, em entrevista a Universa, em que revela que se tornou "melhor amiga de infância" de colega deputada aliada ao PT.

Depois de passar por duas delicadas cirurgias de retirada do útero no começo do ano, Joice se percebeu triste, deprimida e descontando todo o estresse que vivia na comida. Conta, então, que decidiu mudar seu estilo de vida. Criou uma conta no Instagram chamada Bem Estar com Joice, em que dá dicas de alimentação, mesmo sem formação na área. "Não estou operando a cabeça de alguém sem ter entrado na faculdade de medicina. Fui atleta, treinava artes marciais, fiz muita musculação, e tive acompanhamento de profissionais, nutrólogos e educadores físicos por mais de dez anos."

Atualmente candidata à prefeitura de São Paulo, Joice amarga o sétimo lugar entre os 14 concorrentes, com 3% das intenções de voto na pesquisa Datafolha divulgada na última quinta-feira (22). A disputa é liderada por Bruno Covas (PSDB) e Celso Russomano (Republicanos). Também está entre os nomes com maior rejeição, com 33%, atrás somente de Russomanno, com 38%. Mas diz não se abalar. "Se fosse me basear por pesquisa, estava lascada. Todas erraram nas últimas eleições."

A senhora tem falado mais sobre sua vida pessoal nas redes sociais e chegou a criar um perfil em que ensina receitas e dá dicas de saúde. Foi uma tentativa de retomar a popularidade perdida após romper com o governo Bolsonaro?

No meu perfil oficial do Instagram, tem uma concentração de minions [apelido de Bolsominions, como são chamados os seguidores de Bolsonaro por seus opositores], de malucos, muito grande. Eu sei que perdi seguidores depois de romper com o governo, mas não tenho saudade deles. Porque é gente maluca, que não entende o que é democracia. Quis fazer um outro perfil com dicas para fugir dos haters. Quando comecei a emagrecer, decidi dividir o quanto tomar consciência do meu corpo me fez bem. Comecei a cuidar mais de mim depois de adoecer no começo do ano. Somatizei pressões na política, coisas que estava vivendo como líder do governo na Câmara dos Deputados, e a comida virou minha única fonte de prazer. Só trabalhava e comia. Passei por um processo de pressão e depressão. Até que, no Carnaval deste ano, fui internada com hemorragia, passei por cirurgias, tirei o útero e disse: 'Não vou morrer aos 42 anos'.

Falar de emagrecimento e associar a bem-estar não seria reforçar um tipo de opressão?

Se eu estivesse gordinha e feliz, estaria ótimo. Mas não era o caso. Minha cabeça estava doente e eu transferi o problema para o meu corpo. Não quero passar para mulheres a imagem de que tem que ser magrela para ser feliz. Você pode fazer o que quiser, se quiser cuidar da sua saúde, pode. Se quiser ficar mais magra, pode. Ou gostosona, pode também.

Mesmo durante os ataques que sofreu em 2019, quando houve o racha no PSL, a senhora não dizia que o que vivia era machismo, que chegou a chamar de cafona, e atacava de volta quem a ofendia. Ainda pensa que o que enfrentou não foram atitudes machistas?

Eu tinha essa imagem de mim mesma de que nada me abalava. Até essa força extrema que tenho acabou me prejudicando, justamente porque fui aguentando, achando que ia aguentar para sempre. Mesmo no meio das pressões e ataques, fui para a guerra e permaneci em pé até que meu corpo desligou da tomada. Eu não percebia que estava sendo tão violentada. O que vivi foi um estupro moral. Nunca gostei dessa conversa de machismo e feminismo, achava cafonérrimo, mas vi o quanto isso é agressivo, achei que não fosse sentir coisas assim. Eu dizia: 'Nunca vou ser vítima de machismo'. Mas percebi que realmente existe uma violência de gênero política muito grande contra a mulher. Achava que machismo era uma bobagem. Mas acabei mordendo a língua. Aprendi da pior forma.

Como essa violência de gênero aconteceu?

Com xingamentos, montagens. Faziam montagens minhas até com zoofilia, pegavam meu rosto, colocavam no corpo de uma porca, e faziam montagens sexuais. Recebi xingamentos de todos os nomes, porca foi a coisa mais leve. Era 'puta', 'vagabunda'. Extrapolou muito o que era opinião. A primeira vez que chorei foi quando meu filho de 12 anos recebeu uma montagem pornográfica com meu rosto e veio me mostrar.

Ao ser eleita, em 2018, a senhora chegou a dizer que era o "Bolsonaro de saias". Mas houve um rompimento e a senhora chegou até a protocolar um pedido de impeachment contra ele, em abril deste ano [que não teve seguimento]. O que mudou?

Tudo. Quando eu disse que era o Bolsonaro de saias ele próprio brincava comigo falando isso. Achava que ele era machão, não machista. Convivendo com ele, percebi que é machista, sim, depois que começaram minhas brigas com os filhos dele. Nunca tive relação boa com nenhum. São três imbecis. Um é ladrão, o outro é maluco e o outro é megalomaníaco [Joice confirma que se refere a Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro, respectivamente]. Quando começamos a nos desentender [Joice foi contrária à destituição do deputado Delegado Waldir na liderança do partido na Câmara, em outubro de 2019; o presidente queria colocar o filho Eduardo no lugar], Bolsonaro trouxe os filhos para ele, os defendeu. Me vi atacada por defender aqueles que sempre ajudei.

Agora a senhora é candidata à prefeitura de São Paulo, mas, nas pesquisas, fica entre 1% e 2% nas intenções de voto [a última pesquisa Datafolha, em que Joice aparece com 3%, foi divulgada horas depois da entrevista]. Acredita que ainda tem chance de ganhar a eleição?

Se eu fosse me basear por pesquisa, estava lascada. As pesquisas erraram nas últimas eleições. Por elas, o João Doria [governador, eleito em 2018] não tinha nem passado para o segundo turno. Nem o Bolsonaro ganharia. Temos pesquisas internas na minha campanha que mostram outra coisa, estou mais acima e com capacidade de crescimento gigante.

Uma das suas propostas para a prefeitura é criar o Banco da Mulher. Como isso funcionaria?

Seria uma linha de crédito para transformar uma mulher em empreendedora. Mas não é do dia para a noite. Temos que pensar em como consigo transformar essa mulher para que ela seja o que quiser, como cabeleireira, maquiadora. Passaria por um curso de capacitação e, de lá, já sairia com o dinheiro para montar o seu negócio. Vai ter o dinheiro para comprar cadeira, tesoura, escova, secador, e a prefeitura não vai ficar incomodando, não vai cobrar propina de ninguém. Essa mulher vai ser capacitada para ser empreendedora, vai ter assessoria técnica, capital de giro, insumos.

Um dos grandes problemas das mulheres na cidade é a dificuldade em acessar os serviços para atendimento de vítimas de violência doméstica. Elas se queixam de autoridades policiais pouco capacitadas e de falta de vagas em abrigos e para fugir das ameaças de morte. O que fará em relação a isso?

A mulher que passar por qualquer tipo de agressão precisa ter amparo. Precisa ter garantido um lugar para ficar com dignidade. Então eu vou tocar um programa para bancar o aluguel dela, seria um aluguel social. Para ela não ser obrigada a ficar em casa com um homem violento e para não ficar na rua. Eu vivi isso na minha vida. Vim de uma família violenta. Meu pai agrediu minha mãe algumas vezes, e tinha também a violência psicológica. Eu não só via isso como pulava na frente dele para evitar mais agressões. Minha mãe dizia: 'Eu não larguei ele por causa de vocês [os filhos]'.

A senhora fala da importância de defender os direitos das mulheres. Isso também, mas não só, faz parte do feminismo, movimento ao qual já teceu diversas críticas. Diria que, hoje, se considera feminista?

O movimento foi arrastado para a esquerda, e as mulheres de direta se afastam. Acho que é preciso recriar um movimento feminino que defenda as mulheres e os direitos das mulheres sem a bandeira ideológica. Prova de que isso é possível é a bancada feminina da Câmara dos Deputados. A gente se reúne para debater o que é melhor para todas e se une a favor das nossas pautas. Deixamos ideologia de lado e lutamos pelas pautas femininas. Aprendi o espírito da sororidade. É uma coisa que eu achei que não combinava muito comigo. Na minha cabeça era tudo igual, homem e mulher. Mas entendi que quem tem os olhos de machismo enxerga homens e mulheres de maneira diferente. Mas se sou feminista? Coloca aí: feminista de direita. Aí pode.

Já que mencionou sororidade, me fale de uma colega sua na Câmara dos Deputados da qual se aproximou e com quem mantém esse vínculo de ajuda mútua entre mulheres.

Algumas mulheres me surpreenderam. Uma delas foi a Margareth Coelho, do PP do Piauí. Ela já foi vice-governadora de governo petista. Eu tinha o maior preconceito, nem conversava. Pensava: 'Ah, é de esquerda'. Começamos a conversar e nos aproximamos. E ela é maravilhosa. Viramos amigas de infância. Tem também a Perpétua Almeida, do PCdoB do Acre. Temos um grupo de deputadas que se reuniam toda semana. Aí todo mundo tomava vinho, conversava, mas deixando as questões partidárias de lado.

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