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Violência contra a mulher

Ela teve casa incendiada pelo então marido e faz vaquinha para reconstrução

Samara Melão e os filhos - Arquivo pessoal
Samara Melão e os filhos Imagem: Arquivo pessoal

Simone Machado

Colaboração para Universa

04/08/2020 04h00

Em novembro de 2019, a casa onde a vendedora autônoma Samara Patrícia Melão da Silva, 38, morava com os cinco filhos, em Teresina, foi incendiada pelo seu hoje ex-marido depois de uma discussão. Ela conseguiu deixar o imóvel apenas com a roupa do corpo. Móveis, roupas e eletrodomésticos, tudo foi destruído pelas chamas.

Na noite do crime, Samara conta que o seu então companheiro chegou em casa bêbado e alterado. O homem, com quem ela mantinha um relacionamento havia três anos, xingou Samara e tentou agredi-la com um soco. O fato de que ela estava com um dos filhos do casal no colo, na época com apenas oito meses, não impediu a agressão.

"Ele queria o dinheiro das minhas vendas de semijoias e, como eu não dei, começamos uma discussão. Ele deu um soco no meu rosto. Eu estava com meu nenê nos braços, ele tentou pegar meu filho e eu consegui escapar. Quando cheguei na rua, ele estava no portão. Eu disse que chamaria a polícia, ele entrou e fechou a casa", lembra Samara.

A vendedora foi até a casa da mãe, que mora na mesma rua, em busca de ajuda. Minutos depois, foi informada por vizinhos que sua casa estava em chamas.

"Quando olhei minha casa, o fogo já tinha tomado conta de tudo. Não sobrou nada. Tudo o que tínhamos foi queimado."

Os outros quatro filhos de Samara, de 14, 10, 6 e 4 anos, estavam na casa da mãe da vendedora e não se feriram. O marido tentou fugir, mas foi imobilizado por vizinhos. Ele chegou a ser levado para a delegacia, mas, segundo a vendedora, foi liberado no dia seguinte, durante a audiência de custódia.

Samara conseguiu uma medida protetiva contra ele, e as visitas ao filho do casal são restritas.

Reconstrução

Sem casa, móveis e roupas, Samara e os cinco filhos foram morar na casa da mãe dela. As cinco crianças passaram a dividir a mesma cama, e a família contou com a ajuda de doações para conseguir roupas.

Abalada, a vendedora nunca mais havia retornado ao imóvel até que, no início de julho, decidiu encarar a dor e ir pela primeira vez até a casa.

"Fiquei quase oito meses sem conseguir olhar o lugar. Quando passava pela rua, eu desviava o olhar, mudava de calçada. Não queria lembrar e reviver tudo o que tinha acontecido."

Foi depois de uma conversa com os filhos, em que eles demonstraram o desejo de retornar para a casa da família, que Samara encarou seus medos e decidiu que ela mesma iria começar a reforma do imóvel.

"No incêndio, eu perdi todas as semijoias que eu vendia. E a nossa situação financeira ficou bem complicada. Como não tinha condições de pagar a mão de obra de um profissional, eu peguei algumas ferramentas do meu pai e comecei a fazer o que conseguia. A primeira coisa foi tirar os entulhos que restaram e raspar a parede para tirar as marcas do fogo", explica.

Reforma foi mostrada nas redes sociais

Para seguir com a mão na massa, Samara passou a postar em suas redes sociais o passo a passo da reforma.

Depois do primeiro vídeo, começou a receber doações de moradores da cidade.

Conseguiu materiais de construção, dinheiro e até mesmo pessoas se oferecendo para ajudar na mão de obra apareceram.

"Eu jamais imaginei que uma coisa tão simples teria toda essa repercussão. Eu fiz para me inspirar e não me deixar desistir. E, de repente, todo mundo começou a entrar em contato", diz.

Além disso, uma vaquinha virtual foi criada para arrecadar dinheiro para ajudar nos custos com a obra.

"A vaquinha começou dia 8 de julho e, em 15 dias, batemos a meta de arrecadar R$ 42 mil. Esse dinheiro será todo usado na reforma da minha casa, para comprar móveis e roupas para os meus filhos. Vou recomeçar minha vida do zero."

Incentivo a outras mulheres

Samara afirma que, desde o começo, seu antigo relacionamento tinha sinais de ser abusivo, mas ela acreditava que era amor. Os abusos começaram como chantagens emocionais e seguiram para agressões físicas.

"Ele dizia que eu era feia, gorda, que não iria achar mais ninguém que gostasse de mim. Me traía e colocava a culpa em mim. Era uma manipulação mental e sentimental. Um dia, ele puxou meu cabelo e apertou meus braços. Mas, na minha cabeça, isso não era agressão", diz.

Ela decidiu contar o que passou nas redes sociais como um alerta para outras mulheres que vivem relacionamentos parecidos e têm dificuldade para identificar quando uma relação se torna abusiva.

A vendedora diz que recebeu dezenas de mensagens de mulheres relatando problemas similares. Alguns desses relatos vêm de outros países, como Portugal e França.

"Muitas mulheres me mandaram mensagens se solidarizando com a minha situação. Algumas dizem que estavam em situações similares e que, depois de conhecerem a minha história, se identificaram e criaram coragem para tomar uma decisão e sair da relação", diz Samara.

"E tem também garotas de 16 anos que dizem que querem ser como eu sou, ter essa força e garra. E isso me inspira cada vez mais."

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