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Mães e filhos

"Não quis? Agora, aguenta!" e outras frases péssimas que mães solo ouvem

Um guia sobre o que nunca deve ser dito para uma mãe solo explicado pelas próprias - Getty Images
Um guia sobre o que nunca deve ser dito para uma mãe solo explicado pelas próprias Imagem: Getty Images

Mariana Gomes e Claudia Dias

Colaboração para Universa

20/04/2020 04h00

Não basta ser mulher. E não basta ser mulher e mãe solo. Tem também que desenvolver o superpoder da resiliência e - por que, não? - da audição seletiva. Só assim para não desmoronar frente à enxurrada de comentários sem noção que a sociedade despeja nelas.

Quer exemplos? Temos vários, revelados à Universa por mulheres que estão se virando nos trinta para criar os filhos sem alguém para dividir as responsabilidades do dia a dia.

As frases a seguir servem de guia sobre o que nunca deve ser dito para uma mãe solo. Por que? Elas próprias explicam.

"Cadê o pai do seu filho?"
Meire Corrêa, 36 anos, sempre foi mãe solo do Vinícius, 15. "Assim que engravidei, o pai dele sumiu, virou estrela", brinca a coach e mentora de carreira. O fato já seria suficientemente problemático, não fossem as pessoas perguntarem sobre o dito-cujo em todos os lugares. Para ela, essa é a frase mais tóxica na sua vida. Principalmente, quando feita em frente ao garoto. "'Mãe, cadê meu pai?'. Passei um longo tempo com meu filho chorando t-o-d-a-s-a-s-n-o-i-t-e-s ao fazer essa pergunta", lembra. "Se a criança estiver com a mãe, não pergunte pelo pai. Se estiver com a avó, não pergunte pela mãe. Fale apenas com a pessoa que está ali, presente na vida dela naquele momento", recomenda.

"Você não deveria fazer isso, tem uma filha"
Quando qualquer mulher se torna mãe, parece que vira uma chave na opinião popular. Viver apenas em prol da criança passa a ser obrigatório. A partir daí, qualquer coisa que fuja do "padrão social das mães" cai em julgamento cruel e imediato. Prova disso é a analista de mídias sociais Roberta Souza, 32 anos. Ela é mãe da Cecília, 2, e passa pela situação com frequência. "Quero voltar a fazer uma pós-graduação, por exemplo. Pois é só comentar que já escuto 'ah, mas você tem uma filha'. Quero fazer pilates... 'ah, mas você tem uma filha'. Quero mudar de emprego, porque não estou satisfeita: 'ah, mas você tem uma filha'", desabafa. Para ela, muitas vezes, a rede de apoio pode ser tão cruel quanto outras pessoas. "Quando preciso ou quero sair sem minha filha, peço ajuda pra minha mãe ou irmã... Pois sempre escuto a mesma chateação. É algo que gera muitos problemas. E limita", revela.

"Você é pai e mãe, né?!"
Há apenas 10 meses, Fernanda Ramos, 38 anos, perdeu o marido para um câncer. Seu segundo filho, Arthur, 11 meses, havia acabado de nascer. Nem essa fatalidade a livrou da insensibilidade das pessoas. Assim que ele morreu, ela só escutava que "precisa ser forte pelos seus filhos; afinal, você é pai e mãe". Agora, ela já está mais tranquila, apesar da tristeza. Mas a lembrança do ocorrido e da falta de bom senso das pessoas ainda a marcam. "Você está passando por uma avalanche, esse sentimento desesperador que é ficar viúva tão precocemente, e as pessoas querem te cobrar força para criar os filhos. Eu já sei que eles vão precisar muito de mim. Não precisa me lembrar", esbraveja. "E também não sou pai e mãe. Eu sou só mãe e vou dar o meu melhor e o máximo que eu conseguir. Ser mãe já é muito e está ótimo", pontua.

"Cansada de quê? Mãe não pode ficar cansada. Ainda mais mãe solteira!"
Essa é apenas uma das frases citadas pela analista fiscal tributário e financeiro Maysa Soares, 29 anos. Ela conta que vem de uma família tóxica e que seu filho é fruto de um relacionamento abusivo e agressivo. Mesmo assim, se vira ao máximo para não lhe faltar nada, material ou imaterial. "As pessoas me falam: 'Seu filho é assim porque você não fica com ele'. Na sequência, completam 'Mas você tem que trabalhar pra sustentar seu filho!'. Ou seja, não tenho pra onde correr. Fico num beco sem saída", diz ela, que não pode nem se lamentar da vida corrida sem ser bombardeada de opiniões que não precisaria ouvir.

"Imagino que tenha sido horrível ser abandonada pelo pai da sua filha, né?"
A primeira coisa que vem à mente de Luana Baptista, 26 anos, ao ouvir tal frase, é: "Por que as pessoas, ao se depararem com uma mãe solo, sempre concluem que ela foi 'deixada pelo homem'?". A doula, que tomou a decisão de separar-se e ainda é superparceira do pai da Maria Eduarda, 3 anos, não se conforma. "Mais uma vez a mulher é colocada no lugar de quem não consegue bancar uma relação após ter um filho. Isso alimenta a lógica do abandono e da 'vida triste' à qual, segundo essas pessoas, estamos fadadas". Para Luana, separar-se nunca foi um peso, mas um alívio diante de uma relação que não apresentava mais caminhos para a felicidade de ambos.

"Não quis ter? Agora, aguenta!"
"Poucas vezes, essas palavras são ditas por desconhecidos. Geralmente, vem de amigos bem próximos ou família", revela Deborah Barsotti, 28 anos, enfermeira e mãe da Gabriela, 2 anos. Nos momentos de maior esgotamento, quando ela está mais cansada e vulnerável, precisa lidar com esse tipo de comentário. Principalmente, da própria mãe e avó da criança. "É mais difícil escutar isso de uma pessoa que a gente admira e gosta tanto. Eu me sinto muito culpada. Não preciso escutar coisas que só reforçam a minha tristeza", admite.

"Para o homem é mais fácil. Como você é mulher, vai ter que carregar esse B.O. para o resto da vida"
Imagine uma gestante de 17 anos que, além de todas as perturbações já inerentes à idade e à gravidez, ter de ouvir frases como essa? Isso aconteceu com Victória Santos, 27, mãe do Arthur, de 9 anos. Foi o pai dela quem repetiu coisas do tipo diversas vezes. Victória, pelo menos, conseguir transformar as alfinetadas em encorajamento. "Palavras assim me derrubavam, mas também ajudavam a me motivar. Dentro de mim, brotou aquele sentimento de 'vou calar a boca de todo mundo!'", conta a terapeuta holística. "Não foi fácil, até hoje não é. Mas entendo que não teria como ser diferente. Meu filho salvou minha vida". Na época, Victória havia acabado de perder a mãe. Segundo ela, estaria sem rumo não fosse a chegada do Arthur. "É estranho, mas, me vendo hoje, até agradeço por tudo que passei".

"Deve ser f*@! ter um filho, né? Não poder se relacionar com qualquer pessoa"
Agora, uma clássica, bem presente na vida de uma mãe solo. Luana Baptista, por exemplo, já ouviu muito isso. "Eu respondo na lata pro cara: 'ué, por quê? Não estou aqui me relacionando com você?'". Segundo ela, pensar que mães não podem se relacionar é mais do que um mito, é um preconceito superviolento. Tal como sacralizar a sexualidade dessas mulheres. "Posso, sim, me relacionar com várias e várias pessoas. Isso não muda em nada a minha capacidade de continuar sendo uma ótima mãe, além de oferecer à Maria Eduarda toda a segurança e estabilidade que ela precisa", conclui.

"O amigo do meu namorado quer te conhecer, mas já expliquei que você tem filho"
Palavras desnecessárias, que deixam Debora Barsotti ainda mais desanimada. "Como se ter filhos fosse um empecilho para você conhecer gente. As pessoas me veem só como a mãe da Gabi e não como uma mulher", desabafa ela.

"Você tem que olhar mais a lição do seu filho"
A essa altura da reportagem, já ficou claro que as mães solo têm uma paciência e tanto. Mas existem algumas sortudas que convivem com pessoas mais conscientes e não escutam tanta bobagem. É o caso da Camila Sotério, 39 anos, jornalista e mãe da Clarice, 8. No entanto, como nem tudo são flores, mesmo ela tem sua parcela de inconveniências. "Eu sou uma mãe superpresente. Mas a visão geral é que não basta: tem que ser mãe em período integral e não fazer mais nada da vida. Duvido que a escola perguntaria isso com tanta frequência se eu fosse um pai solo. Porque, né, quando é um pai sozinho, coitado! Ele já faz tanta coisa, trabalha, cuida do filho... Não dá tempo de olhar a lição o tempo todo", desabafa. "Essa é a frase que mais me irrita. Tenho que trabalhar full time, pagar todas as contas, levar dinheiro para casa, ser uma boa mãe, ter vida social... E ainda aceitar as cobranças aleatórias do mundo? É difícil!", desabafa.

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