PUBLICIDADE

Topo

Mães e filhos

Coronavírus: como conversar com as crianças sem alarmismo

Mãe e filha conversa - iStock
Mãe e filha conversa Imagem: iStock

Juliana Tiraboschi

Colaboração para Universa

17/03/2020 12h46

É impossível fugir do assunto. Nas redes sociais, nos mercados e no transporte público, todo mundo comenta o mesmo tema: a pandemia do novo coronavírus (COVID-19) e suas implicações nos nossos trabalhos, vida social e rotina em família.

Mesmo que os pais ainda não tenham conversado com as crianças sobre o coronavírus, agora, com o fechamento de diversas escolas por todo o país, é importante falar sobre o assunto, até para explicar por que a criança vai ficar algumas semanas sem aulas.

A questão é: como conversar com os pequenos sem despertar o medo neles? Para Michelli Freitas, psicopedagoga e mestranda em ciências do comportamento, o caminho é falar com as crianças com franqueza e naturalidade, sem dar tanta importância para o assunto e, principalmente, sem demonstrar pânico. "Eu mesma falei para meus filhos que tem um bichinho que está deixando as pessoas doentes, e que por isso vamos ficar mais em casa e precisamos lavar as mãos com mais frequência e usar álcool gel", diz.

Dependendo da idade dos filhos, os pais podem ser mais "técnicos" e falar o nome correto do coronavírus e até procurar ilustrações na internet e mostrar como é o vírus. Tudo vai depender de que nível de informação a criança está preparada para absorver: é preciso respeitar a maturidade de cada um.

Cuidados com a higiene

Para Andrea Valente, psicóloga clínica de crianças e adolescentes com mestrado em educação e integrante do setor de inclusão de estudantes da PUC de Londrina (PR), mesmo nas cidades em que o coronavírus ainda não chegou é importante já alertar os filhos para o reforço nos cuidados com a higiene das mãos. "Explique que a doença ainda não é muito conhecida e que pode ser perigosa para idosos e pessoas com problemas de saúde, e que os cuidados são para o bem da saúde de todos", diz Andrea.

De acordo com Camila Bertoldo Pinheiro, médica infectologista do Hospital Metropolitano Lapa, em São Paulo, os cuidados de higiene para as crianças são os mesmos dos adultos: sempre utilizar lenços de papel para cobrir tosse e espirros e higienizar as mãos logo após com água e sabonete e álcool gel. Se não tiver lenço ao alcance, proteger a tosse e espirros com o cotovelo ou o braço. Evitar tocar os olhos, boca e nariz; não compartilhar copos, talheres, canudos e escova de dentes; não compartilhar alimentos ou comidas do mesmo pacote.


Além de lavar as mãos sempre que chegar da rua e antes de comer, lavar as mãos após utilizar o banheiro é muito importante, assim como realizar a higiene sempre que forem brincar com os irmãos, primos ou amigos mais novos, especialmente os lactentes (crianças até dois ano), pois o sistema imunológico deles é mais frágil. Evitar beijar as mãos e rosto dos bebês, pois estes levam às mãos até a boca com mais frequência, aumentando a chance de contágio.

"O mais importante para as crianças é ter o exemplo dos adultos, assim os pequenos criam o hábito de higiene mais rápido e seguirão as medidas para o resto da vida", diz Camila. Para Michelli Freitas, é importante tomar cuidado com a fisionomia e o tom de voz, para não preocupar demais as crianças. "Elas absorvem tudo, então é importante falar de forma tranquila", afirma a psicopedagoga, que também é diretora do IEAC (Instituto de Educação e Análise do Comportamento), em Goiânia (GO).

Outra medida é maneirar nas conversas entre adultos na presença dos filhos, para não os alarmar excessivamente. "Às vezes achamos que eles não estão prestando atenção, mas estão ouvindo tudo", diz Michelli. E um alerta: não deixar a TV ligada no noticiário com os pequenos presentes na sala. "A mídia está em seu papel de informar, mas a criança não precisa ver tudo", afirma a psicopedagoga.

Lide com os medos

Caso a criança demonstre muito medo de desenvolver a doença, a orientação da psicóloga Andrea Valente é deixá-la falar à vontade sobre seus receios. A psicopedagoga Michelli Freitas aconselha a explicar o que, de fato, pode acontecer - omitindo casos mais graves, que tenham resultado em mortes, para não deixar a criança ainda mais assustada.

Diga que o coronavírus provoca sintomas parecidos com o de um resfriado ou uma gripe, como coriza, tosse e febre. E que, se a doença aparecer, a criança vai precisar de repouso por alguns dias e tomar remédios. Todos nós temos medo do que é desconhecido, então falar de forma concreta pode ajudar a diminuir o temor.

Andrea também aconselha a dizer que estar contagiado não significa ter que ir para o hospital, e a contar para as crianças que muitas pessoas que pegaram a doença se curaram. "O maior problema são os adultos", diz Michelli. "Eles é que precisam se recompor para não gerar ansiedade nos filhos". A psicóloga Andrea Valente concorda: "Se os adultos tiverem tranquilidade, vão passar segurança para as crianças". Lembrando que o estresse pode reduzir a imunidade, então o próprio nervosismo com a situação pode tornar a pessoa mais vulnerável a contrair o vírus.

Sempre a verdade

"Minha recomendação sempre é falar a verdade, sem contar as tragédias, na linguagem e alcance da compreensão das crianças", diz Andrea. Os pais e mães são vistos como heróis pelos filhos. Isso não quer dizer que os adultos não podem demonstrar vulnerabilidade, mas devem ser o porto seguro das crianças neste momento de crise.

A psicóloga também acredita que, apesar dos medos e insegurança, podemos olhar o lado positivo da crise. "É um bom momento para falar com as crianças sobre solidariedade e sobre a importância de dividir, por exemplo, os produtos do supermercado. Mesmo as crianças pequenas entendem", diz.

Mães e filhos