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Ela já ficou 12 dias sem comer e pesava 36 kg: "Ser magra não é ter saúde"

Luana Nogueira viu o Instagram "estourar" depois de participação em reality - Reprodução/Instagram
Luana Nogueira viu o Instagram 'estourar' depois de participação em reality Imagem: Reprodução/Instagram

Nathália Geraldo

De Universa

28/11/2019 04h00

A influenciadora digital Luana Nogueira tem 27 anos e mais de 91 mil seguidores em sua conta pessoal no Instagram que receberam recentemente seus relatos de quanto sofria com anorexia. Após muitos dias sem comer, ela chegou ao 36 kg.

Ela ficou tão conhecida assim na rede social após sua participação no reality show "You Are The One", espécie de "Namoro ou Amizade?" da MTV, em 2015. Na época, Luana já tinha depressão, distúrbio de imagem e anorexia, um transtorno alimentar que atinge mais mulheres do que homens, segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS). Depois de ter os "15 minutos de fama" após o programa, como ela mesma define, outro transtorno bateu à sua porta: a fobia social.

Do mesmo jeito que a exposição na internet a fez ir "ao fundo do poço", interferindo 100% na percepção da autoimagem, também foi um canal para mostrar o lado real das suas doenças, com o objetivo de quebrar a vitrine do que sempre parece perfeitinho no Instagram. Todo mundo que está nas redes tem problemas e Luana aprendeu a falar disso francamente com seus seguidores.

Anorexia e bulimia nervosas e transtorno da compulsão alimentar periódica, de acordo com a OPAS, representam comportamentos alimentares nocivos — as duas primeiras estão relacionadas ao medo de ganhar peso e preocupação com a comida e com a forma física. Quem tem compulsão pode sentir repulsa de si mesmo após comer e culpa.

Luana aprendeu a identificar tudo isso. Descobriu que comparar corpos e estilos de vida das pessoas que seguimos é a maior cilada para nossa autoestima e saúde mental.

Aqui, ela dá seu relato sobre esse processo a seguir:

Depressão, anorexia e a luta contra os pensamentos

"Meus transtornos têm 100% a ver com as redes sociais", conta Luana, que quer ajudar pessoas que passam pelos mesmos problemas - Reprodução/Instagram
"Meus transtornos têm 100% a ver com as redes sociais", conta Luana, que quer ajudar pessoas que passam pelos mesmos problemas
Imagem: Reprodução/Instagram

"Há sete anos tenho depressão e ansiedade. Isso se transformou em anorexia e fobia social. Eu pulava refeições, fiquei dias e dias sem comer e, depois de uma crise, um psiquiatra me diagnosticou com transtorno alimentar.

Assim, o que eu tinha ganhou nome. Isso foi um alívio, porque tinha como tratar. Mas também foi pior — no meu subconsciente, foi como se eu abraçasse a doença. Por ter anorexia, "podia" fazer algumas coisas.

Eu normalizava situações de ficar sem comer, por exemplo.

Hoje em dia, sei que isso não é normal. Está tão dentro de mim que mesmo tomando remédio e em tratamento, penso: 'tô um pouco gordinha'. Aí eu tenho que lutar contra meu próprio pensamento e perceber que a doença não resume o que eu sou".

Depois do reality, fobia social

"Meus transtornos têm 100% a ver com as redes sociais. Tanto que passei a ter fobia social depois de ter visibilidade na internet. Eu era anônima, tive meus 15 minutos de fama e não estava preparada para lidar com isso — ninguém está.

Foi problemático e surgiu uma questão de querer me colocar para baixo por não me enxergar nesse patamar de 'artista'. Há um contágio emocional [se influenciar pelos comentários] na internet, e isso influenciou a anorexia, a depressão, o distúrbio de imagem.

Na internet, passamos o tempo todo você está consumindo [o conteúdo] de mulheres lindas e erroneamente acabamos nos comparando. E isso leva para o limbo, além de não ser justo. Há várias influenciadoras e modelos que incentivam uma estética que conseguiram com cirurgia plástica e dizem que foi com dieta. As pessoas tentam vender corpos que não existem".

Contar para os seguidores

"Na verdade, eu fiquei em dúvida se compartilhava tudo que estava passando com meus seguidores [Luana publicou um vídeo em agosto falando sobre anorexia].

Primeiro, porque exporia muito minha vida e poderia atrapalhar minha imagem de alguma maneira. Eu trabalho como influenciadora, tem uma questão de marketing. Mas pensei que isso já estava me atrapalhando porque eu não conseguia desenvolver meu trabalho, já não tinha vontade de fazer nada.

Aí, quis ser a voz que compartilha a realidade com meus seguidores. Para mim, é importante mostrar a parte real. As pessoas só colocam as coisas boas na internet, e isso acaba frustrando quem as segue, eu me incluo. A pessoa está indo para o trabalho de busão e vê a fulaninha com a vida 'perfeita'...".

Lutando contra a anorexia

"Me orgulho muito de estar superando a doença, faço questão de me sentir vitoriosa, de agradecer quem me ajudou, minha mãe, meu pai, melhores amigos.

Eu já estive no limbo, fiquei 12 dias sem comer. Agora fui de 36 kg para os 52 kg e hoje estou feliz. Quem está sofrendo também pode ficar.

Mas eu divido todos os ciclos com os seguidores: importante saber que não é uma felicidade constante. A anorexia é uma doença silenciosa.

Já até fugi do tratamento, não tomava remédio ou ia para a terapia.

Há uma linha tênue entre ser saudável, fazer ginástica com afinco, por exemplo, e ter paranoia com seu corpo. São coisas diferentes.

Eu trato isso na minha terapia e com os profissionais na academia que acompanham minha transformação. No momento, tento entender a comida como algo que esta nutrindo meu corpo. Sair, comer, fazer musculação... tudo isso é para ser feliz e, assim, saudável. E consequentemente faz com que eu me sinta bonita".

"Eu me editava e nem sei como era meu corpo"

"Quanto pego fotos de dois, três anos atrás, nem sei como era meu corpo de fato. Tudo estava editado em aplicativos, aumentava a perna em uma, diminuía em outra. Mexe muito com a cabeça da gente o fato de editar uma foto.

Eu tirava a foto e logo em seguida abria o Facetune ou o VSCO. Editava mesmo não precisando. Agora, nem lembro a última vez que abri essas ferramentas para isso. O que faço é apenas mexer na cor da foto.

Não parei de seguir modelos e influenciadoras, porque não acho que é necessário tapar os olhos para isso nas redes. Mas às vezes, como eu tenho a doença, consigo notá-la nos outros. Há pessoas que sofrem de distúrbios alimentares e de imagem e não falam nada, mas ficam dias sem comer para estar ali. Por isso, acho que não se pode incentivar a magreza. Inclusive, ela não é sinônimo de saúde. Conheço gordas que têm mais saúde que eu, que tenho predisposição para ser magra".

Todo mundo sofre com pressão estética. Peça ajuda

"Eu sei que sou uma pessoa 'padrão', classe média, loira, heterossexual, branca. Nunca sofri preconceito na minha vida, sou privilegiada. E mesmo assim tenho distúrbios como esse. Imagino então pessoas que sofrem preconceito de verdade e não têm condições de fazer um tratamento.

Eu já me senti muito culpada por isso. Hoje, falo sobre o assunto para que as pessoas também vejam que existe luz no fim do túnel. Quando eu postei sobre o assunto na internet, tive como retorno muitos comentários positivos. Pessoas que se identificaram, mesmo que nunca houvessem falado sobre a doença com ninguém, vieram falar comigo.

Não sinto que é algo que 'despejam' em mim. Pelo contrário, estamos nos ajudando. Quando um seguidor vê que eu tenho a mesma questão que ele, se sente representado.

Quem está passando por isso precisa falar com um amigo, com um parente, ou falar comigo. E também com um profissional. E meu conselho para quem está do lado é: não desista da pessoa. Ter gente por perto que se importa é muito importante para melhorar".

Veja a última publicação de Luana sobre o assunto no Instagram:

Se me dissessem há um pouco mais de 2 meses atrás que eu iria recuperar meu corpo, que eu iria terminar o ano me sentindo bonita, saudável e feliz eu jamais iria acreditar. Todos os dias relembro do que passei na última crise. Na verdade são vagas lembranças porque minha cabeça já não raciocinava mais sem comida. Foi meu maior período sem comer, 12 dias de pesadelo, que pareceu mais uma década. Durante esse tempo meu corpo entendia que eu estava morrendo, ele reagia como um corpo que estava mais para a morte do que para a vida e só hoje consigo entender a dimensão do que essa doença fez comigo. Fui dos 36kg para os 52kg de hoje. Achei que seria impossível, mas consegui. Eu venci a batalha contra minha própria autoimagem. Sei que não é o fim do distúrbio alimentar que vive em mim, mas todo dia eu desconstruo um pouco dele. Me cuidar é o meu grande passo... Tento valorizar cada atitude que tomo para mim mesma, é confortante. Hoje vejo o alimento como um nutriente importante pro meu corpo, não pulo refeições e entendo que a comida representa o alimento que meu organismo precisa para se nutrir e viver. Só de saber que venci essa me dá fé pra viver essa vida, me dá força pras próximas, até que a depressão não caiba mais na minha vida! Saia por onde entrou porque ninguém te quer aqui kkk. Mais do que sua objetificação em cima do meu corpo, além do que você vê! Meu corpo é meu templo e não para seu fetiche! Ele é minha conquista de cada dia e a casca que guarda uma alma que sofre demais pelo que vê de errado no mundo, mas que não merece adoecer com ele! Queria agradecer pelo apoio da minha academia desde o começo @planetvilamariana e o @estefano79 profissional incrível que me incentivou a focar. Esse é só o processo e não o final! Vocês vão acompanhar toda minha transformação porque vocês merecem. Sabem quando uma pessoa vai receber um prêmio e agradece aos envolvidos? kkkk então, esse prêmio eu divido com vocês

Uma publicação compartilhada por luana nogueira (@luanafnogueira) em

"Se me dissessem há um pouco mais de 2 meses atrás que eu iria recuperar meu corpo, que eu iria terminar o ano me sentindo bonita, saudável e feliz eu jamais iria acreditar. Todos os dias relembro do que passei na última crise. Na verdade são vagas lembranças porque minha cabeça já não raciocinava mais sem comida.

Foi meu maior período sem comer, 12 dias de pesadelo, que pareceu mais uma década. Durante esse tempo meu corpo entendia que eu estava morrendo, ele reagia como um corpo que estava mais para a morte do que para a vida e só hoje consigo entender a dimensão do que essa doença fez comigo. Fui dos 36kg para os 52kg de hoje. Achei que seria impossível, mas consegui.

Eu venci a batalha contra minha própria autoimagem. Sei que não é o fim do distúrbio alimentar que vive em mim, mas todo dia eu desconstruo um pouco dele. Me cuidar é o meu grande passo... Tento valorizar cada atitude que tomo para mim mesma, é confortante. Hoje vejo o alimento como um nutriente importante pro meu corpo, não pulo refeições e entendo que a comida representa o alimento que meu organismo precisa para se nutrir e viver.

Só de saber que venci essa me dá fé pra viver essa vida, me dá força pras próximas, até que a depressão não caiba mais na minha vida! Saia por onde entrou porque ninguém te quer aqui kkk. Mais do que sua objetificação em cima do meu corpo, além do que você vê! Meu corpo é meu templo e não para seu fetiche!

Ele é minha conquista de cada dia e a casca que guarda uma alma que sofre demais pelo que vê de errado no mundo, mas que não merece adoecer com ele! Queria agradecer pelo apoio da minha academia desde o começo @planetvilamariana e o @estefano79 profissional incrível que me incentivou a focar.

Esse é só o processo e não o final! Vocês vão acompanhar toda minha transformação porque vocês merecem. Sabem quando uma pessoa vai receber um prêmio e agradece aos envolvidos? kkkk então, esse prêmio eu divido com vocês".

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