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Jovens com HIV não sabem negociar o uso da camisinha, diz pesquisa

sexo com proteção, camisinha, preservativo - iStock
sexo com proteção, camisinha, preservativo Imagem: iStock

Christiane Ferreira

Colaboração para Universa

21/11/2019 04h00

Pesquisa realizada pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) mostra que jovens com HIV desde o nascimento — que foram infectados na gestação — não sabem negociar o uso do preservativo. As relações sexuais desprotegidas ocorrem em 68,4% das relações sexuais anais; e 65% das situações em que se pratica sexo oral e 63%, para sexo vaginal, respectivamente.

Os jovens entrevistados, entre 13 e 19 anos, não se opuseram ao uso da camisinha. Mesmo assim, tinham pouco poder de persuasão com seus parceiros, tudo por medo da quebra de sigilo e de serem descobertos como portadores do HIV.

De acordo com a professora adjunta e chefe da Infectologia Pediátrica da Unifesp, Daisy Maria Machado, é preciso um processo longo de esclarecimento para que esses adolescentes ultrapassem a barreira e revelem a infecção pelo HIV. "Eles sabem que precisam usar preservativo, mas às vezes não o fazem", afirma.

Dos adolescentes pesquisados, 76,7% nunca revelou seu diagnóstico pelo medo da rejeição. Segundo o enfermeiro e autor da pesquisa, Alexandre Lelis Braga, colaborador do Centro de Atendimento da Disciplina de Infectologia Pediátrica da Unifesp, as meninas tendem a manter relacionamentos mais estáveis, revelando seu diagnóstico ao parceiro, o que não ocorre com os meninos entrevistados. "Vimos que eles iniciam mais precocemente a vida sexual, têm mais parceiras e adiam a revelação do seu diagnóstico a terceiros."

Silêncio e preconceito

E o medo de falar sobre a doença não quer dizer que esses jovens não se preocupem com o companheiro, pelo contrário. É preciso considerar seu contexto de vida. "Os que nasceram com a infecção vivem esse drama há anos, desde um tempo em que havia dificuldades no tratamento. Foi na infância que começaram a tomar os antirretrovirais mais potentes, com alguns efeitos colaterais bem ruins", afirma a professora.

"Esses meninos crescem envolvidos em segredos e silêncio, em meio a núcleo familiar adoecido e cheio de estigmas. Seus pais sobreviveram com muita dificuldade e preconceito. Porém, na adolescência, eles se veem cobrados a contar para os parceiros, o que não é fácil", completa.

Apesar de não ser uma sentença de morte, estar infectado com o HIV não é tão simples. Os antirretrovirais podem afetar o sistema nervoso central e, como resultado, há sonolência, pesadelos e tontura. Náuseas, vômitos e dor de estômago podem aparecer. Também são comuns as alterações em decorrência da lipodistrofia, uma redistribuição do acúmulo de gordura nas regiões das mamas, abdominal e tronco; e perda nas nádegas e rosto.
E mesmo com carga viral indetectável -- quando o vírus está controlado e não existe risco de transmissão --, alguns jovens passam pelo início da vida sexual com dificuldades de se abrir.

Educação é fundamental

A professora comenta que educação sexual nas escolas é essencial, para evitar a disseminação de informações erradas. Daisy diz que a pesquisa também mostrou a importância dos serviços de saúde abordar questões como sexualidade e prevenção, não apenas de uma gravidez, mas de forma geral.

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