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Galã argentino-brasileiro acusado de estupro tem pedido de captura emitido

Ator argentino nascido no Brasil, Juan Darthés é acusado de estupro por uma atriz - Florencia Downes/Telam/AFP
Ator argentino nascido no Brasil, Juan Darthés é acusado de estupro por uma atriz Imagem: Florencia Downes/Telam/AFP

Luciana Taddeo

Colaboração para Universa em Buenos Aires

10/11/2019 04h00

A Justiça da Nicarágua ordenou, no último dia 2, a prisão e captura internacional do ator argentino-brasileiro Juan Darthés, acusado formalmente pela promotoria do país por estupro agravado.

Mas o famoso galã, que atuou em dezenas de novelas argentinas, está no Brasil que tem como princípio constitucional não extraditar brasileiros. Nascido no Brasil, Darthés está no país desde que foi denunciado publicamente pela atriz argentina Thelma Fardin, em dezembro do ano passado, e estaria morando em São Paulo. Na época, atrizes brasileiras, como Bruna Linzmeyer e Débora Falabella, iniciaram uma manifestação contra a vinda do ator ao Brasil.

A atriz Thelma Fardin afirmou que foi estuprada por Darthés em 2009, na Nicarágua, durante a turnê internacional de um programa infantil no qual os dois atuavam. À época, ela tinha 16 anos, e Darthés, 45.

"Vamos precisar da colaboração do Estado brasileiro para que isso não termine em impunidade", diz a Universa a advogada da atriz argentina, Sabrina Cartabia, explicando que o andamento do caso na Justiça foi dificultado pela ida de Darthés ao Brasil. "Sabemos por outros casos que o Brasil não executa perseguições penais quando estas vêm de outros países e que exerce uma grande proteção de seus cidadãos", explica.

O presidente da Comissão de Direito Internacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) no Ceará, Fabiano Távora, confirma que o pedido de captura à Interpol não tem efeito no território brasileiro, já que a Polícia Federal não efetua capturas de cidadãos brasileiros diante de uma ordem internacional. Darthés só seria preso como consequência dessa ordem caso a Interpol acate o pedido da Justiça nicaraguense e Darthés passe pela imigração, ao tentar sair do Brasil.

E, se por um lado as advogadas de Thelma explicam que o julgamento não pode ser realizado na Nicarágua sem a presença do réu, Távora pontua que uma condenação no país centro-americano também não teria efeito no Brasil. Por isso, segundo ele, "o melhor caminho é indubitavelmente" que um processo contra Darthés seja aberto no Brasil.

Neste caso, a investigação realizada na Nicarágua -que contou com a colaboração do Ministério Público Fiscal da Argentina através de tratados bilaterais- poderia ser utilizada como prova para o processo no Brasil. Segundo Cartabia, perícias realizadas tanto na Argentina como na Nicarágua determinaram que a atriz sofre de estresse pós-traumático.

Denúncia que comoveu o país

"Uma noite, ele começou a beijar meu pescoço, e eu lhe disse que não. Ele pegou minha mão, fez com que eu o tocasse, e me disse 'olha como eu fico por sua causa', me fazendo sentir sua ereção. Eu continuava dizendo que não. Ele me jogou na cama, baixou meu shortinho e começou a praticar sexo oral em mim. Eu continuava dizendo que não", narrou Thelma, ao denunciar publicamente o caso.

"Ele meteu os dedos em mim, eu continuava dizendo que não. Disse a ele 'seus filhos têm minha idade'. Não importou para ele. Subiu em cima de mim e me penetrou", disse a atriz, afirmando que conseguiu sair do quarto quando alguém bateu à porta.

O relato, gravado em vídeo, foi transmitido em uma coletiva de imprensa convocada pelo grupo Atrizes Argentinas, integrado por importantes nomes da atuação no país. Na ocasião, elas pronunciaram a frase "olha como nós ficamos" em alusão ao que Darthés teria dito a Thelma.

No dia seguinte à denúncia, senadores de todos os blocos legislativos do país mostraram cartazes com a frase "olha como nós ficamos", e o presidente argentino, Mauricio Macri, afirmou que tiraria do ar o vídeo de uma campanha contra a violência de gênero do qual Darthés participava.

Defesa do ator

"Não é verdade o que foi dito, por Deus! É uma loucura, isso nunca aconteceu. Por favor esperemos os tempos da justiça", escreveu o ator em uma rede social no dia em que foi denunciado. Em entrevista a um canal argentino, ele afirmou ainda que o episódio foi o oposto do relatado por Thelma.

"Ela bateu na porta do meu quarto para entrar porque queria trocar a chave, porque não sei o quê não funcionava. Eu a tirei do quarto, eu disse 'Você está louca? O que está acontecendo com você? Você tem namorado. Eu sou um cara mais velho'. Fui eu quem lhe disse que meus filhos tinham a mesma idade dela. Por Deus, como eu posso fazer uma coisa assim?'", disse Darthés.

Em uma entrevista em maio, o advogado do ator, Fernando Burlando, afirmou que, pelas declarações da denunciante, a defesa entende "que não estaria configurado o crime de estupro". "Pelo seu próprio relato [de Thelma] não vemos sua categórica e clara negativa", disse o advogado que não respondeu ao pedido de entrevista feito por Universa.

A reposta da defesa à acusação da promotoria foi solicitar à Justiça da Nicarágua que investigue se a atriz cresceu em um lar abusivo. Para a advogada de Thelma na Nicarágua, Eilyn Cruz Rojas, o pedido é "improcedente e completamente desajustado": "O advogado pede atos de investigação que não são faculdades que o juiz tem".

Após o pedido de captura, Burlando disse a um canal argentino que mandar seu cliente à Nicarágua seria "praticamente tirar a vida dele". Segundo ele, corresponderia a um pedido de captura nacional, não internacional. Burlando disse ainda que não confia na Justiça da Nicarágua, que "simboliza" um país "onde há uma ditadura" e que houve erros no processo.

Outras denúncias

Antes da denúncia de Thelma Fardin, o ator Juan Darthés já havia sido denunciado publicamente por assédio por outras atrizes, que acabaram processadas por ele. A primeira delas, com quem o ator fazia par romântico em uma novela, Calu Rivero, acabou abandonando seu primeiro papel como protagonista.

"Eu notei que alguma coisa estava errada, falei, não escutaram, e fui eu quem tive que dar um passo para o lado e parar de trabalhar", disse, explicando que se sentia incomodada após gravar algumas cenas. "Que alguém seja atriz e esteja o tempo todo exposta ao contato físico, isso não tem nada a ver com que eu perca o direito de colocar um limite."

Outra atriz denunciou o ator em um post, em uma rede social. No texto, afirma que ele se jogou em cima dela, fez com que o tocasse com a mão e disse a frase "olha como eu fico por sua causa". No vídeo de sua denúncia, Thelma Fardin conta que, após nove anos negando o episódio para "seguir adiante", ouvir uma denúncia contra o mesmo ator foi um "tapa na cara".

A advogada de Thelma diz que a atriz juntou recursos entre amigas e companheiras para ir à Nicarágua denunciar o ator. Agora, diante de um possível julgamento em um país que não conhecem, elas estão no processo de estabelecer redes com advogados, tradutores, integrantes do movimento de mulheres e feministas do Brasil.

Violência contra a mulher