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Cartilha dissemina informações sobre violência doméstica por Whatsapp

Material para ser compartilhado pela internet tira dúvidas e dá orientações de como denunciar - Getty Images/iStockphoto
Material para ser compartilhado pela internet tira dúvidas e dá orientações de como denunciar Imagem: Getty Images/iStockphoto

De Universa

05/11/2019 04h00

Para fazer as respostas às principais dúvidas sobre violência doméstica chegarem ao máximo de pessoas possível, o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS) decidiu usar a ferramenta de comunicação que caiu no gosto do brasileiro: o Whatsapp.

A cartilha Todas e Todos Pelo Fim da Violência Contra a Mulher, disponível para baixar por meio deste link, foi feita para ser compartilhada pelo aplicativo e ser lida na tela do celular.

O material explica como funciona a Lei Maria da Penha, dá exemplos dos tipos de violência contra a mulher (física, psicológica, patrimonial, moral e sexual), explica o que são medidas protetivas e tira dúvidas para algumas das principais dúvidas envolvendo o tema. Apesar de ser uma iniciativa que começou no Rio Grande do Sul, a ferramenta on-line possibilita a distribuição do material em todo o Brasil — o que já vem acontecendo, principalmente em grupos de mulheres no Whatsapp.

A estratégia é que, dessa maneira, as informações se espalhem e sejam facilmante compartilhadas, tanto para chegarem a vítimas em busca de ajuda, o público principal, quanto para incentivar a comoção social em torno do tema. "É voltada para a sociedade como um todo, que ainda precisa de campanhas intensas para se convencer de que mulheres precisam ser protegidas", explica a promotora do MP-RS Ivana Battaglin, uma das responsáveis pela produção da cartilha.

Violência existe sem mulher perceber

Violência doméstica é só física? Segundo Ivana, essa é uma das grandes dúvidas das mulheres. A promotora é taxativa na resposta: "Não há agressão física sem anteriormente haver a psicológica", diz. "Por isso, passamos as informações sobre os tipos de violência, como a psicológica. Xingamento ou ofensa também já são considerados agressões."

Ivana conta que é comum as vítimas chegarem machucadas para dar depoimento e dizerem: "Foi a primeira vez que ele me agrediu". "Aí eu pergunto: 'Mas ele já controlou onde você ia, para quem telefonava? Ou onde gastava seu dinheiro? Já te diminuiu, te xingou?' Elas sempre respondem que sim para algum desses casos. Então, não foi a primeira agressão. Significa que a violência já existia sem ela perceber."


Ajudar a vítima é dever de todos

É comum que pessoas próximas de quem tem um relacionamento abusivo, quando tomam conhecimento das agressões, exijam que a vítima termine a relação ou se afaste imediatamente. "Se ela continua com o cara, é julgada, dizem: 'Também não me meto mais'. Ou então falam que ela gosta de apanhar", diz Ivana. "Mas não se pode colocar toda a responsabilidade pela situação nas costas da mulher. A intervenção tem que ser feita no homem, ele é que tem que parar de agredir."

Por isso, a orientação é que, se alguém sabe de uma mulher agredida em seu entorno, deve prestar ajuda, não forçá-la a tomar uma atitude. "A orientação é que a cartilha seja enviada à vítima para que ela tome consciência da sua situação e pense sobre o que fazer. É importante que a pessoa que fizer isso não a julgue, mas se coloque à disposição para ajudá-la", afirma Ivana.

A promotora conta ainda que, em 22 anos de trabalho com vítimas de violência doméstica, ela percebe que quanto mais machucada a mulher está, mais dificuldade ela tem de sair do relacionamento. "Isso porque ela já está destruída psicologicamente. E permanece na relação não porque gosta, mas porque foi um abuso emocional profundo, difícil de quebrar."

Promotoria já fala com vítimas por Whatsapp

A ideia da cartilha segue um projeto-piloto de contato com vítimas de violência doméstica por Whatsapp implantado pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul em junho. Depois que a vítima já fez a denúncia na delegacia, ela precisa dizer ao MP se quer fazer uma representação, ou seja, se quer abrir um processo criminal contra o autor. Normalmente, a representação é feita em uma audiência, pessoalmente. Mas os promotores decidiram mudar esse protocolo e começaram a consultar a vítima pelo aplicativo para que a situação fosse resolvida mais rapidamente.

"A gente entra em contato, pergunta como está a situação e se ela quer abrir o processo. É bom até para explicar o que significa porque muitas não entendem. E aí as provas, como prints de conversas com ameaças, por exemplo, são enviadas por Whatsapp mesmo", explica Ivana. "Além de agilizar, humaniza. É um contato mais próximo com essas pessoas, que precisam, antes de tudo, serem ouvidas."

Arte UOL
Imagem: Arte UOL

Violência contra a mulher