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Por que ridicularizar o tamanho do pênis é nocivo também às mulheres?

O hábito reforça a masculinidade tóxica - iStock
O hábito reforça a masculinidade tóxica Imagem: iStock

Ana Bardella

De Universa

30/10/2019 04h00

Opinar sobre o corpo do outro é uma prática antiga, embora tenha ganhado dimensões maiores com as redes sociais. O hábito contribui para a baixa autoestima feminina: em meios às críticas, mulheres internalizam a ideia de que não se enquadram no padrão de beleza enaltecido pela sociedade, o que pode causar sofrimento.

Em menor escala, o corpo masculino também é comentado — e vira e mexe se torna motivo de piada, principalmente quando o assunto é o tamanho do pênis (se é pequeno, principalmente). O problema? Mais do que ferir o ego masculino, a ridicularização contribui para a construção de uma cultura conhecida como masculinidade tóxica — que, no fim das contas, acaba sendo nociva para a própria mulher. Entenda:

Status de sucesso

"O tamanho do pênis é um mito criado e mantido pelos humanos há muito tempo. Hoje em dia, a grandeza é relacionada à ideia de um bom desempenho sexual, mas não só. Ter um órgão considerado maior do que a média remete também a uma imagem de poder", explica Rosely Salino, psicóloga com especialização em sexualidade humana. De acordo com a profissional, o "superdotado" é visto pelos demais como um privilegiado na conquista.

Calma, Neiva...

"É importante enfatizar que a média do tamanho do órgão entre os brasileiros é de 13 cm em ereção", relembra Rosely. O número, é claro, varia para mais ou para menos, mas não é garantia de sucesso na cama. "Nem sempre um superpênis é bem usado. Outros fatores, como o emocional, costumam importar mais nos momentos de intimidade do que somente a biologia. Quando as coisas não vão bem na vida de um homem, por exemplo, eles podem apresentar dificuldade em iniciar e manter uma ereção", diz.

Masculinidade tóxica: ruim pra todo mundo

"Homens e mulheres são educados de maneira distinta. Enquanto meninas têm liberdade para chorar e demonstrar emoções, os garotos são ensinados, desde cedo, a engolir o choro. O esperado é que eles sejam firmes, durões", relembra Rosely. Este e outros hábitos alimentam uma cultura que recebe o nome de masculinidade tóxica. Trata-se de autoafirmação masculina que pode descambar em agressividade, uma vez que eles ficam mais fechados emocionalmente. Por isso, reforçar a supervalorização do tamanho do pênis, indiretamente, contribui para um sistema que oprime as mulheres.

"Além disso, ter o órgão ridicularizado ou humilhado acaba se tornando uma preocupação masculina, o que não é saudável do ponto de vista psicológico", aponta a psicóloga. E mais: outros comportamentos ligados ao desempenho sexual também são vendidos como "naturais", quando na verdade não são.

Léo Hwan, comunicador especializado em técnicas comportamentais e parceiro do site de relacionamentos Badoo, exemplifica: "Muitas vezes, a sociedade vende a ideia de que o homem precisa estar sempre disposto a transar. Esta imagem não corresponde à realidade: trata-se de um papel de gênero imposto pela sociedade. Assim como existem os papeis de gênero masculinos, existem os femininos. Eles engessam o comportamento e são cenários de fundo de muitos tipos de violência. Mais do que não beneficiar os homens, eles são nocivos também para as mulheres, pois servem de base para a misoginia e o machismo", argumenta.

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