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Se você vive como um robô, ele pode tomar seu lugar, diz expert em empatia

Brené Brown lançou, em 2018, o livro "A Coragem para Liderar" e fala sobre como não devemos ter medo de errar - Divulgação
Brené Brown lançou, em 2018, o livro "A Coragem para Liderar" e fala sobre como não devemos ter medo de errar Imagem: Divulgação

Natália Eiras

De Universa

26/08/2019 04h00

Brené Brown está na sua Netflix, nas estantes dos livros mais vendidos e na série de palestras pop TED Talks. A pesquisadora da Universidade de Houston, nos EUA, estudiosa de temas como vulnerabilidade, coragem e empatia, conquistou os fãs de autoajuda ao falar sobre a coragem de se manter aberto para cometer enganos e afirmar que está tudo bem se você não for perfeito. "O mundo corporativo exige que as mulheres sejam perfeitas, trabalhem duas vezes mais e não cometam erros. Isso nos mantém para trás porque a inovação vem do erro. Se temos que ser perfeitas, a gente não consegue inovar", diz em entrevista para Universa.

Brené ficou famosa em 2011, quando o vídeo de seu TED Talk sobre vulnerabilidade viralizou e se tornou um dos cinco mais vistos da plataforma, com mais de 38 milhões de visualizações. A pesquisadora tem, ainda, cinco best-sellers publicados. O mais recente, "A Coragem de Liderar" (2018), está há 30 semanas na lista de livros mais vendidos do jornal "The New York Times". E, em abril deste ano, entrou na Netflix o especial de uma hora "Brené Brown: The Call to Courage", em que convida a audiência da plataforma de streaming a entender que é possível ser corajoso sem se armar contra a conexão humana.

Em um papo virtual com direito a biscoitinhos e chocolate quente dos dois lados da tela, a palestrante fala sobre os maiores erros que já cometeu, sobre chorar quando se está com raiva e sobre a importância de compartilhar os resultados de suas pesquisas sobre comportamento humano. "É importante a gente pesquisar e compartilhar o máximo que pudermos. A falta de conhecimento leva a um governo autoritário."

Você diz que não podemos ter medo de errar. Qual foi o maior engano que já cometeu?
Quando olho para trás, eu percebo que o meu pior erro foi tentar ser uma pessoa que eu não sou. Quando está escrevendo um livro sobre liderança, você tem essa coisa na sua cabeça dizendo que deve agir como líder, se vestir como líder. Mas líderes são mães, são namoradas, filhas, companheiras. Toda vez que eu tentei ser o que as pessoas queriam que eu fosse, eu cometi um erro.

A maior parte do público de eventos sobre liderança é masculina. Como é ser uma mulher que fala desse assunto?
É um saco. Porque, quando homens escrevem um livro sobre liderança, todo mundo pensa que é para homens e mulheres. Quando uma mulher escreve um livro sobre liderança, [acham que] ela está escrevendo para outras mulheres. O que não é verdade porque tenho leitores homens que usam o que aprenderam no meu livro. Em contrapartida, o mundo corporativo exige que as mulheres sejam perfeitas, trabalhem duas vezes mais para ter reconhecimento e não cometam erros. Isso nos mantém para trás, porque a inovação vem do erro. A definição de inovação é errar, superar, errar e superar. Se temos que ser perfeitas, a gente não consegue inovar.

Existe o estereótipo de que mulher chora demais, é sensível demais. Em contrapartida, os homens não devem chorar de jeito nenhum. Como esses lugares-comuns podem prejudicar a sociedade?
Todos os estereótipos são perigosos. Quando você diz isso, um homem que chora realmente se sente fraco. Outros estereótipos são verdadeiros: homens são criados para não chorar e não mostrar emoções. Homens e mulheres são mais parecidos do que diferentes. Eu tomaria o cuidado em falar da binariedade entre homem e mulher, porque há muitos outros gêneros entre esses dois extremos. Temos a tendência de colocar as pessoas em pequenas caixas e precisamos vê-las como individuais, quem elas realmente são. Isso desumaniza as pessoas e precisamos parar de fazer isso.

Então tudo bem chorar no ambiente de trabalho, por exemplo?
Eu penso que, se você está vendo o que está acontecendo no mundo hoje em dia e não chora em algum momento, não está prestando atenção. Precisamos de gente que traga a sua humanidade para o trabalho. Inteligência artificial pode substituir muitos serviços, mas ela nunca poderá substituir a conexão humana. Se você trabalha e vive como um robô, então a inteligência artificial realmente pode tomar o seu lugar. Se você vive as suas emoções e empatia, você não será substituído.

Você já chorou em situações em que não deveria?
Eu choro muito. É horrível. Às vezes, eu choro quando estou muito brava. Eu sempre digo: "Essas lágrimas são de raiva e frustração, você pode me subestimar se quiser, mas eu recomendo que você ouça o que estou dizendo". Não peço desculpas por ser assim.

Por qual parte da sua personalidade você não pede desculpas?
Para mim, seria muito fácil ficar quieta em temas como injustiça social, não me envolver em assuntos controversos. Mas, quando eu cometo um erro, eu peço desculpas publicamente. Coragem é ser humano em um mundo que exige que você viva armado e sempre esteja forte.

Você costuma falar sobre política nas redes sociais. Gostaria de se manter longe de assuntos espinhosos?
Não me arrependo de nada político que publiquei, porque sempre penso bastante antes de escrever algo. Falo de racismo, de discriminação de gênero, de violência causada por armas. Não tenho medo de escrever sobre esses assuntos.

É papel das empresas e profissionais falar sobre temas como política e ação social?
Há sistemas e lugares que são opressivos para mulheres, LGBTs, imigrantes, negros. Temos apenas duas alternativas: falar contra isso e tentar derrubá-los ou apoiá-los. Silêncio não é neutralidade. O silêncio apoia esses sistemas que estão consolidados.

Por que decidiu deixar o ambiente acadêmico para trabalhar com palestras?
O primeiro estudo que fiz foi sobre vergonha. Quando eu entrevistava mulheres, todas me perguntavam se eu ia escrever um livro sobre os resultados. Eu dizia que não, que era acadêmico. Então, percebi que estava reunindo todos esses dados, esse conhecimento e não estava retornando ao mundo o que aprendi. É realmente importante a gente democratizar, pesquisar e compartilhar o máximo que pudermos.

Aqui no Brasil está acontecendo um corte no financiamento de pesquisas.
Isso é terrível. [O presidente americano Donald] Trump fez algo parecido aqui nos Estados Unidos. E a falta de conhecimento leva a um governo autoritário. Por exemplo, a gente compartilhava os fatos, as pesquisas e tínhamos ideias diferentes de como resolver um problema. Agora, nós compartilhamos o conhecimento e as pessoas acreditam no que elas querem. Dizem que não existe racismo, que não existe crime de ódio. Precisamos compartilhar conhecimentos empíricos e científicos para resolver problemas. E essas informações vêm da pesquisa.

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