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Minha história


"Quase perdi as pernas. Hoje, sou guia de turismo a pé pelo RJ"

Juliana Fiúza, 24, descobriu um problema nas pernas ainda na adolescência - Lincoln Menezes/Divulgação
Juliana Fiúza, 24, descobriu um problema nas pernas ainda na adolescência Imagem: Lincoln Menezes/Divulgação

Jacqueline Elise

De Universa

24/07/2019 04h00

Juliana Fiúza, de 24 anos, passou por dificuldades ainda na adolescência. Descobriu uma doença crônica nas pernas e quase teve de amputá-las. Demorou muito para terminar o ensino médio e achou que não poderia seguir seu sonho de escrever livros. Saiu do interior do Rio de Janeiro para tentar a vida na capital e passou a ganhar a vida como guia de turismo a pé.

Mesmo com as limitações dos anos de tratamento para dores nas pernas, ela segue mostrando os cantinhos mais interessantes da cidade para viajantes -- e não desistiu de escrever um livro sobre as experiências que viveu. Conheça a história de Juliana:

"Sou de Cardoso Moreira, uma cidade bem pequena e isolada no Rio de Janeiro. Tanto que todos os jovens precisavam ir para Campos dos Goytacazes ou Itaperuna para estudar. Frequentei a escola pública a vida toda e sempre sonhei em ser escritora.

Sempre senti dores, mas foi aos 15 anos que descobri que eu tinha um problema na perna esquerda. Primeiro recebi um diagnóstico errado: os médicos tratavam como se fossem 'dor de crescimento' e, depois, como se fosse tendinite, mesmo no auge da dor. Quando definiram que era tendinite, engessaram minha perna toda e, com isso, meu joelho foi pressionado. A dor e meu quadro pioraram. Fui a outro especialista e ele disse que eu estava fazendo o tratamento errado.

Descobri, então, que tenho síndrome da plica sinovial. Ela é uma espécie de membrana fibrosa que todo mundo desenvolve quando ainda é um feto. O ideal é que essa membrana se desfaça ao nascer, mas no meu caso ela continuou se desenvolvendo e começou a 'cortar' minha circulação e meus ligamentos, até que virou um problema crônico por não ter sido tratada antes. O médico disse que, se eu não fizesse uma cirurgia na perna em 15 dias, teria que amputá-la. Como meu pai ainda trabalhava em uma petrolífera que fornecia convênio médico para a família, corri para pedir autorização. Às vésperas de terminar o prazo, consegui o aval do plano de saúde e operei.

Porém, quando resolvi a dor em uma perna, descobri que tinha problema na outra também, isso no final de 2010. Minha mãe, então, me mandou ao Rio de Janeiro para visitar minha avó, assim eu poderia descansar um pouco e aguardar o convênio autorizar o novo tratamento. Passei um mês com ela e, quando retornei, em janeiro de 2011, me ligaram para avisar que eu poderia fazer a cirurgia em três dias. Consegui.

Por causa dessas imobilizações, fiquei muito atrasada na escola. Completei o ensino médio só aos 18 anos. Por seis meses recebi o material escolar em casa, estudei aqui mesmo e nos últimos bimestres do ano frequentava aulas de manhã e fazia provas à tarde. Foi assim que me formei na escola, mas já estava muito atrasada em comparação com meus colegas.

Juliana teve a ideia de criar seus roteiros turísticos ao fazer um curso técnico na área - Lincoln Menezes/Divulgação
Juliana teve a ideia de criar seus roteiros turísticos ao fazer um curso técnico na área
Imagem: Lincoln Menezes/Divulgação

Em 2013, decidi mudar definitivamente para a capital e comecei a trabalhar como barista em um café. Mas tive que voltar para Cardoso Moreira, porque minha mãe havia começado a estudar, e eu tinha que cuidar do meu irmão mais novo. O problema é que eu sofri mais uma lesão na perna enquanto dormia, e meu pai já não trabalhava mais na petrolífera, então perdemos o convênio. O médico, por já me conhecer, me tratou por um valor social e eu tive que imobilizar minha perna por seis meses com um aparelho de ferro. Foi aí que minha família vendeu a casa em Cardoso e nos mudamos todos para o Rio, para que eu pudesse fazer o tratamento na capital.

Passamos a morar aqui em 2014. Chegamos no auge da crise do sistema de saúde, então, com muita luta e insistência da minha família, conseguimos fisioterapia intensiva três vezes por semana. Ainda assim, eu tinha muita dificuldade de locomoção. Os motoristas de ônibus, conhecendo minha história, até liberavam a passagem, porque sabiam que minha família não tinha condições de bancar tudo.

Depois disso, pensei em fazer Letras e dar aula em casa. Comecei a faculdade na Tijuca, usando muletas, mas estava difícil de pagar a faculdade e a locomoção ainda era complicada. Parei a faculdade e decidi fazer um curso técnico em turismo. Minha mãe também estudava para ser técnica em enfermagem, em 2015. Enquanto ela ia estudar, eu cuidava do meu irmão em casa; quando ela voltava, eu ia para a aula. Durante o curso, tive a ideia de criar um roteiro de turismo a pé pelo Rio. Já estava melhor das pernas e seria uma forma de ganhar dinheiro rápido.

Durante o tratamento, meu médico sempre dizia que caminhar era importante, porque eu precisava me movimentar. Foi assim que aliei o tratamento à profissão. Apesar de estar melhor agora, sei que não posso exagerar, porque tudo que faço interfere diretamente na minha perna. Não consigo fazer mais do que três roteiros por dia. Costumo falar que esse vai ser um fantasma constante em minha vida.

Faço mais de 15 roteiros pela cidade. O roteiro de que mais gosto é o das livrarias, em que falo sobre a história da literatura carioca. Inclusive tenho até parcerias com livrarias e sebos daqui para mostrar o lugar, falar da sua história, tomar um café, poder parar para comprar livros. Dura cerca de três horas. Um dos mais famosos é o que fazemos em lugares assombrados. Conto histórias reais que originaram lendas urbanas no Rio sobre bruxas e maldições. Cobro uma contribuição mínima de R$ 10 por pessoa, um valor simbólico mesmo.

Claro que o trabalho também tem seu lado 'ruim'. Alguns homens duvidam da minha capacidade e tentam me dar aula sobre as coisas de que falo no passeio, como se eu não soubesse o que estou falando. Tem também aqueles que dizem que sou 'muito nova e muito bonita para ser guia de turismo'. Mas a maioria das pessoas que atendo são tranquilas, vem muita família participar.

Agora, com o trabalho dando certo e meu problema na perna sob controle, estou escrevendo um livro com base em meu trabalho de guia. Ainda não abandonei o sonho de ser escritora".

Apesar de considerar a plica sinovial "um fantasma" em sua vida, ela achou na profissão uma forma de lidar com o problema - Lincoln Menezes/Divulgação
Apesar de considerar a plica sinovial "um fantasma" em sua vida, ela achou na profissão uma forma de lidar com o problema
Imagem: Lincoln Menezes/Divulgação