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Minha história


Ela trabalhou no "bicho" e teve 23 empregos; hoje, é fotógrafa premiada

Ana Clara Fernandes: ela fez muitos bicos e hoje vive da fotografia - Ana Clara Fernandes
Ana Clara Fernandes: ela fez muitos bicos e hoje vive da fotografia Imagem: Ana Clara Fernandes

Roseane Santos

Colaboração para Universa

01/07/2019 04h00

A fotógrafa Ana Claudia Fernandes, conhecida como Cacau, já exerceu 23 profissões. Descobriu a fotografia ainda menina, com máquinas descartáveis que eram moda nos anos 80. Depois de pegar emprestados muitos jornais e revistas de uma banca perto do jogo do bicho onde trabalhava, decidiu prosseguir os estudos -- ela tinha largado a escola na infância. Conseguiu passar no Enem, entrou em uma faculdade. E, quando tudo parecia estar certo, sofreu um acidente cobrindo desfile das escolas de Samba do Rio de Janeiro, em 2017, que quase fez com que ela perdesse o movimento do braço, fundamental para fotografar.

Hoje, ela soma vinte exposições, entre trabalhos exclusivos e curadorias. Seus registros particulares de manifestações culturais afro-brasileiras deram origem a exposição atual "Ancestralidades Contemporâneas", que está em São Sebastião (SP) até o dia 29 de setembro e já tem um convite para ser colocada em um Centro Cultural da Alemanha no ano que vem. Recuperada, ela conta abaixo, sua história.

"Nasci em comunidade e por dificuldades financeiras da minha família, precisei parar de estudar aos 11 anos. Já nessa idade comecei a trabalhar. O primeiro emprego foi em um aviário, eu matava galinhas para no final de semana ter direito a levar dois frangos e uma dúzia de ovos para casa -- meu pagamento era esse, infelizmente. Depois fui vender cocada na rua, desenhei kits para festas infantis, fiz faxina, cuidei de criança, me tornei motorista e assim fui levando.

Exerci 23 profissões na minha vida. Lembra da feira de Acari? Esse lugar foi até cantado em um funk [Feira de Acari, do MC Batata]. Trabalhei lá, consertando para-choques. Depois parti para um serviço no jogo de bicho. Não queria, mas tinha que levar dinheiro para casa. Fiquei nisso por muitos anos e simultaneamente fazia bicos em outras coisas.

Nunca fui de fazer corpo mole para nada. Só comecei a pensar diferente quando fui advertida por uma juíza que estava em um caminho errado e que não poderia deixar isso de legado para meus filhos. Queria dar exemplo para eles. Aos 43 anos, vi que tinha que mudar. Só não sabia o que fazer, porque só tinha até a quinta série.

Como trabalhava ao lado de uma banca de jornal, comecei a ler incansavelmente tudo que podia. Livros, revistas, jornais, informativos e qualquer coisa que pudesse pegar emprestada do jornaleiro. Resolvi prestar o ENEM, que na época habilitava qualquer pessoa maior de 18 anos para ingressar no ensino superior. Bastava atingir a pontuação. Eu atingi com uma ótima classificação e fui gabaritada.

Larguei o jogo de bicho, queria muito sair. Decidi trabalhar como doméstica nessa época, até conseguir virar fotógrafa, minha profissão hoje. Uma das coisas que me incentivou a abandonar o trabalho de doméstica foi o olhar das pessoas. Eu trabalhava em uma das regiões mais ricas do Rio de Janeiro e o jeito que as pessoas me olhavam, doía na minha alma. Era um olhar de reprovação, de me ver marginalizada. Eu chorava calada. A lágrima descia e eu tentava disfarçar.

Foi difícil tirar a casca grossa que arrumei na rua. Sofria abusos, os homens que deviam me ajudar no trabalho, abusavam de mim. Não gosto nem de lembrar. Sei que fiquei uma pessoa agressiva, mas aos poucos tentei melhorar.

Em 2012, descobri que existia faculdade de fotografia. Sempre fui apaixonada por foto. Consegui uma bolsa de 50%, por causa da minha idade. A minha família nunca teve condições e eu com o pouco dinheiro que ganhava comprava máquinas "love", que eram moda nos anos 80. Elas eram descartáveis, mas conseguia registrar momentos especiais. Comecei assim a minha arte, restaurando essas fotos.

Tudo isso com ajuda do fotógrafo Severino SIlva. Nos conhecemos de forma inusitada. Já tinha visto um documentário dele e uma vez o meu carro enguiçou na comunidade da Mangueira. Vi que ele estava fotografando e corri lá para falar que era fã e queria aprender. Severino se comoveu com a minha história, me apresentou para o meu primeiro trabalho no jornal, deu a minha primeira máquina e depois mais tarde me levou para ser curadora de uma exposição sua na Alemanha.

Uma das imagens que foram expostas na Alemanha - Ana Clara Fernandes/ Divulgação
Uma das imagens que foram expostas na Alemanha
Imagem: Ana Clara Fernandes/ Divulgação

Em 2014, já comecei a fotografar para o jornal O Dia.

No ano seguinte, fui indicada ao Prêmio Esso e tive imagens publicadas nos anuários "O Melhor do Fotojornalismo Brasileiro", em 2015, 2016 e 2017. Ganhei o prêmio de quinta melhor fotografia do Festival Internacional Paraty em foco, em 2017.

Quando tudo parecia estar dando certo veio o acidente no desfile das escolas de samba: fui atropelada pelo carro alegórico da Paraíso do Tuiuti, em 2017. Eu tentei fugir, mas foi tudo muito rápido. Em frações de segundos, pensei a minha vida inteira. Vi o tamanho daquele carro e a parede atrás de mim, pensei que ia morrer, não tinha mais jeito. O único pensamento que tive foi pedir a Deus que cuidasse dos meus filhos.

Por um milagre fui jogada em um canto de parede, onde havia umas latas de lixo e acho que elas diminuíram o impacto. Quando tiraram o carro e vi um monte de gente correndo para me tirar dali, percebi também que estava com o osso do braço deslocado. Um bombeiro segurou e tentou colocar para o lugar. A dor era absurda. No hospital, gritava muito. Lembro que uma enfermeira ficou deitada quase em cima de mim para amenizar a dor. Todos os tendões tinham sido rompidos. Alguns não tinham como ser religados e colocaram os pinos. O meu braço era fundamental para exercer minha função.

Fiquei oito meses com dores muito fortes. Só depois de um ano, consegui fazer fisioterapia. Recuperei os movimentos, mas até hoje tenho limitações. Algumas vezes meu braço trava e sinto dor. Ganhei uma indenização da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) e com ela consegui comprar uma casa simples, para onde vou mudar em breve.

Ana Clara Fernandes em sua exposição - Arquivo Pessoal
Ana Clara Fernandes em sua exposição
Imagem: Arquivo Pessoal

Hoje fotografo eventos particulares, não voltei a trabalhar em jornal. Estou com 51 anos e estudando para ingressar em um mestrado. Agradeço muito por tudo que consegui até hoje.

Agora a minha felicidade é ver meus filhos na faculdade, se precisasse voltaria até a fazer faxina para isso. Atualmente estou com um projeto "Mulheres da Pátria", em que farei retratos de pessoas com histórias parecidas com a minha. O meu objetivo é fazer um documentário, mostrando o sonho delas, como é a relação delas com o Brasil. Quero abrir debates. Quero mostrar também com isso que é possível mudar."