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"Instagram é misógino e machista", diz pole dancer sobre hashtags vetadas

Drea Costa e Grazi Meyer no pole dance - Reprodução/Instagram
Drea Costa e Grazi Meyer no pole dance Imagem: Reprodução/Instagram

Nathália Geraldo

Da Universa

23/07/2019 04h00

Praticantes e instrutoras de pole dance estão sofrendo com o bloqueio de hashtags feito pelo Instagram em conteúdos sobre a prática. A medida tem gerado um debate mais profundo a respeito da exposição do corpo feminino feita pelas próprias pessoas, além de impactar diretamente no mercado da modalidade, que abrange treinos esportivos, mas também de dança e sensualidade.

Por ser uma rede social que se baseia na publicação de fotos e vídeos, agrupados, dentre outras formas, por hashtags, ocultar esse tipo de material -- com mulheres fazendo movimentos, por vezes, sensuais, na barra de ferro -- tem sido interpretado por praticantes como um comportamento machista e misógino da plataforma.

Acontece que, segundo usuários de várias partes do mundo, as hashtags vetadas no campo de pesquisa da rede social estão relacionadas ao corpo feminino. #MalePoleDance (pole dance masculino), #PoleMale (pole masculino), #MalePoleDancers (dançarinos de pole dance), como constatado por Universa, permanecem com material capaz de ser visualizado no campo de busca.

Impacto no mercado de pole dance

A instrutora de pole e sócia proprietária do Maravilhosas Pole & Dança, estúdio de São Paulo, Grazi Meyer, mantém um perfil pessoal e o de seu estabelecimento na rede social e critica a mudança no acesso ao conteúdo de pole.

"Percebo que a gente não pode confiar numa plataforma para vender nosso trabalho, ele tem que ser autônomo, porque ele pode estar numa plataforma dominada por homens. O Instagram é uma plataforma machista e misógina, que reflete a realidade que a gente está vivendo agora, política e social", denuncia.

Segundo Grazi, as mulheres praticantes de pole já vêm sofrendo com o shadowban [quando fotos e vídeos são ocultados do feed e da pesquisa], impactando na divulgação da modalidade e na interação entre as interessadas pelo pole. As mesmas fotos republicadas em outros perfis, "objetificando" os corpos femininos, no entanto, não são barradas, mesmo quando denunciadas por elas.

"Nós denunciamos várias vezes e o Instagram respondeu que não havia nenhuma violação às diretrizes da comunidade. Essas mesmas fotos são escondidas, se estão no Instagram das mulheres", pontua.

Modalidade já é vista com preconceito

A internacionalista e instrutora de pole Andréa Costa, conhecida como Drea Costa no Instagram, do Pin Up Pole Studio, no Rio de Janeiro, acredita que a medida pode dificultar a divulgação da modalidade, que já é vista com preconceito.

"É difícil que uma pessoa chegue a um estúdio de pole por meio de uma busca ativa. É diferente, por exemplo, de buscar uma academia convencional para fazer musculação ou um estúdio de dança para fazer balé. Quando essas publicações [sobre pole] param de ser entregues para as pessoas, torna muito mais difícil que essa modalidade seja divulgada, atrapalhando o trabalho dos estúdios, instrutoras, marcas de roupas, acessórios etc."

Ela destaca, ainda, que a rede de interesse que se forma por conta da prática não é só por ela em si.

"No meu caso -- e de outras pole dancers também -- não uso minha rede para falar apenas sobre o pole. Falo sobre relação com nossos próprios corpos, sobre diversidade, mostro que todo corpo é livre e capaz de fazer pole e outras atividades. Sei que já ajudei muitas mulheres a se aceitarem e a se amarem mais e faço dessa minha principal missão ao utilizar as redes", explica.

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"No momento minhas publicações estão ocultas, portanto muita gente não está recebendo o conteúdo que crio. E eu também não estou recebendo vários conteúdos, uma vez que essa questão está ocorrendo com várias pessoas do meio".

O que a rede fala sobre exposição de corpos

Parte do conteúdo de pole no Instagram está relacionado a danças sensuais e mostra mulheres usando poucas roupas, uma condição necessária para fazer as 'travas' na barra de ferro para executar os movimentos.

Nas diretrizes do Instagram, não há informações claras sobre a publicação de fotos de pessoas com poucas roupas. A rede tem apenas regras a respeito da publicação de "imagens de nudez de natureza artística e criativa":

"Sabemos que há casos em que as pessoas talvez desejem publicar imagens de nudez de natureza artística ou criativa, mas, por vários motivos, não permitimos nudez no Instagram. Isso inclui fotos, vídeos e alguns conteúdos criados digitalmente que mostram relações sexuais, genitais e close-ups de nádegas totalmente expostas, além de algumas fotos de mamilos femininos.

No entanto, fotos de cicatrizes causadas por mastectomia e de mulheres amamentando são permitidas. Nudez em imagens de pinturas e esculturas também é permitida", diz a rede social.

O Instagram orienta que os usuários também podem fazer denúncias de conteúdos que não seguem as diretrizes previstas pela empresa.

Em nota enviada para Universa, o Instagram respondeu que as hashtags #poledancenation, #polemaniabr [mencionadas na primeira reportagem], entre outras, haviam sido bloqueadas por erro e foram restauradas na segunda-feira (22).

"Pedimos desculpas pelo erro. Mais de um bilhão de pessoas usam o Instagram todos os meses, e operar nesse tamanho significa que erros podem ocorrer, nunca tivemos a intenção de silenciar quaisquer membros da nossa comunidade."

No entanto, na noite de segunda-feira (22), a reportagem verificou que as hashtags #poledancerbr, #pddoubles (de casais) e #pdtrick (com movimentos) continuavam ocultadas, pois haviam sido denunciadas por usuários por não estarem em conformidade com as regras da rede social.

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