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Como os brinquedos sexuais são vendidos aos judeus ultraortodoxos?

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Pablo Duer

Da EFE

09/07/2019 08h17

Falar de sexo é tabu entre os judeus ultraortodoxos, mas um casal tenta superar as barreiras e vende - de forma discreta - brinquedos sexuais para que os casamentos da minoria haredi (temerosos de deus) não percam a paixão.

Limor e Dudu Kleinman, um casal de judeus religiosos residentes na colônia judaica de Tzur Hadasah, nos arredores de Jerusalém, se dedicam há anos a questões relacionadas com a sexualidade. Ela conta com um diploma universitário de terapeuta sexual e ele fez diversos cursos sobre o tema.

Há pouco mais de dois anos, eles decidiram abrir um negócio especializado em um público particular: os judeus ultraortodoxos.

A empresa, chamada em hebraico "Ve-Ahavtem", expressão bíblica que traduzida como "E se amarão", combina assessoria em questões sexuais com venda de brinquedos eróticos, tudo sob a supervisão de um rabino que trabalha para garantir que os produtos se ajustem à Halacá (lei judaica).

"Devemos seguir a Halacá, onde está escrito que homens e mulheres têm que estar juntos e trazer crianças ao mundo e outro mandamento é que o homem deve manter sua esposa feliz", explica à Agência Efe Kleinman, que acrescenta: "Por isso todos os casais devem investir em sua relação e para isso nós damos as ferramentas".

Quando fala de ferramentas, além de conselhos e assessoria, o casal se refere aos brinquedos sexuais que vendem, aos quais preferem chamar de "produtos de prazer". Todos contam com dupla autorização, médica e rabínica, e são desenhados exclusivamente para o uso em casal e não individual, dado que a ideia é melhorar a vida matrimonial.

Além disso, a lei judaica proíbe terminantemente produtos para a masturbação dos homens, dado que ajudam o esbanjamento do sêmen, que deve ter somente fins reprodutivos.

Os produtos de prazer à venda vão desde pesos para o fortalecimento da região pélvica da mulher, um vibrador com controle remoto e anéis para prolongar a ereção, até uma "varinha mágica massageadora", um vibrador combinado e um plug anal para os mais ousados.

"Esta é a nossa própria marca e não poderíamos simplesmente vender produtos de outras marcas porque têm forma de partes do corpo, e isso não se ajusta a nossos valores, que indicam que os produtos de prazer vêm a melhorar a intimidade do casal e não a substituir o homem nem a mulher", menciona Limor.

Ambos reconhecem que para poder estabelecer a Ve-Ahavtem tiveram que enfrentar o desafio que representava a percepção negativa que a comunidade religiosa tinha sobre os brinquedos sexuais, algo que dizem ter conseguido mudar, com ajuda de rabinos e desvinculando os produtos de prazer da pornografia.

Um dos elementos mais importantes do negócio, considerando o tabu que da sexualidade no judaísmo ultraortodoxo, é a discrição. Por isso, os brinquedos não só vêm em caixas de papelão completamente fechadas, mas muitas vezes quando os casais vão a retirá-los pedem que os entregadores deixem do lado de fora da porta para evitar que sejam vistos.

A clientela varia entre casais jovens recém-casadas, outros que estão juntos há muitos anos e até reconhecem ter uma cliente de 72 anos, que os procurou após a morte do seu marido "para saber o que podia fazer".

Limor explica que quem compra mais produtos são as mulheres e afirma que muitos casais vão até eles antes do casamento para se preparar para a noite de núpcias, onde farão sexo pela primeira vez, ou um tempo depois de se casar, em busca de instruções e inclusive "informações sobre como são as partes íntimas do outro".

Os que chegam à casa dos Kleinman, onde montaram sua pequena clínica sexual particular, não provêm só dos bairros ultraortodoxos de Mea Shearim e Bnei Brak, mas também de assentamentos e até de Tel Aviv.

Um dado particular é que o casal também tem clientes religiosos muçulmanos que, segundo Limor, os procuram porque para eles é permitida uma aproximação à sexualidade e aos produtos de prazer longe da pornografia que inunda os sex shops convencionais e que é proibida pelo islã.

Para Limor, que considera que seu papel é o de educadora sexual para adultos, a pornografia é "a pior professora para o sexo no mundo" e prejudica tanto pessoas religiosas como não religiosas, ao construir um mundo da sexualidade que não se ajusta à realidade.

Outro elemento que questionam são as redes sociais, que "fizeram com que as pessoas se esquecerem de como falar umas com as outras, inclusive como falar sobre sexualidade da forma correta", algo que pretendem corrigir através de jogos que incluem no manual de instruções dos brinquedos, onde incentivam os casais a fazer perguntas íntimas que, em geral, costumam dar vergonha.