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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

BBB vira revival de bullying escolar e pode acabar em "vingança dos nerds"

BBB 21: Juliette chegou a dizer na casa que os outros brothers não a deixam ser ela mesma - Reprodução/ Globoplay
BBB 21: Juliette chegou a dizer na casa que os outros brothers não a deixam ser ela mesma Imagem: Reprodução/ Globoplay
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

05/02/2021 04h00

Todo mundo se lembra daqueles filmes e séries estilo "Meninas Malvadas". Neles, sempre existe um grupo de garotas que são as populares e donas da escola. Nos filmes, elas tratam mal quem não é do mesmo grupo, quem é mais fraco. Elas tornam a vida dos outros um inferno apavorante. As pessoas morrem de medo delas ao ponto de não discordarem e acobertarem coisas erradas. Afinal, ninguém quer ser o alvo. A versão masculina da turma dos populares em geral, agrupa os caras fortinhos, os héteros top. Eles também são cruéis.

Bem, nessa edição do BBB estamos vendo uma versão atualizada desse tipo de jogo perverso, exibido ao vivo e com requintes de crueldade. Ao contrário das outras edições, a turma está sendo representada mais pelas mulheres. Karol Conká é a líder, mas ao redor existem várias mulheres e homens que vão na onda, Ou fazem o bullying eles mesmos, sem nem precisar de incentivo.

Os principais alvos são a advogada Juliette e o rapper Lucas Penteado. No caso de Lucas, o bullying é violento. Mas deu uma acalmada depois de um pedido de desculpas de Karol, que passou a mirar em Juliette.

A moça é motivo de piadas o tempo todo, os participantes riem do sotaque dela, fazem chacota, falam alto que ela é chata. Juliette tem sofrido com essas atitudes e, quanto mais tenta se explicar e não é ouvida, mais fica nervosa e confusa.

Vale lembrar: esse tipo de enredo existe muito antes da palavra cancelamento. Alguns desses filmes têm mais de 40 anos. O tal cancelamento que rola dentro da casa já existe há todo esse tempo na dramaturgia.

E na vida real? Depende da escola, do país. Mas alguma experiência com os jogos de popularidade todos nós tivemos na escola. E muitos de nós sofreram bullying, ou praticaram.

Nós, que não éramos da turma dos populares e não éramos "campeões em tudo", passamos meio mal com o programa. No Twitter, já vi pessoas falarem que choram vendo o programa de pena de Lucas ou Juliette. Alguns perderam o sono. "Gatilho" é uma palavra muito usada atualmente e vale nesse caso. Nenhum de nós quer ser levado de novo para aquele lugar do bullying.

O sentimento de vingança (contra quem pratica bullying) e de proteção com quem sofre tem feito Juliette e Lucas virarem os favoritos. Muitos torcem por eles, comemoram quando eles estão felizes e se divertindo e qualquer pessoa que trata os dois bem ganha simpatia. É a vingança dos nerds. Acontece.

Só vamos tomar cuidado para não exagerar e fazer nossa revanche virar bullying.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL