Natalia Timerman

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Opinião

Ser colunista em tempos de internet exige responsabilidade

Eu pretendia escrever um texto sobre aborto, neste país que coloca uma em cada sete mulheres de até 40 anos na condição de criminosa. Há algo de muito errado, afinal de contas, com uma lei que criminaliza tanta gente e ao mesmo tempo apenas metade dos responsáveis por cada gravidez. Mas outro assunto atravessou meu texto, também urgente: a produção de notícias. Mais precisamente a repercussão que uma reportagem, uma matéria ou apenas uma coluna pode ter.

Para escrever sobre aborto, fui escutar "Caso das 10 Mil", podcast da Folha de S.Paulo que conta a história de uma clínica em Campo Grande. Eu ouvira por alto que houve um processo em massa contra mulheres que haviam interrompido a gravidez ali. Só então soube de mais detalhes: a clínica funcionou por duas décadas e tanto o fechamento do estabelecimento quanto o processo se sucederam a uma reportagem da TV Globo. Os meandros da situação são ainda mais estarrecedores: os jornalistas haviam alugado equipamento de gravação oculta para uma matéria que não vingou; em busca de pauta, decidiram investigar a clínica que funcionava segundo um acordo tácito com a sociedade campo-grandense.

A TV Globo nacional comprou a matéria porque o assunto do aborto estava quente: Portugal havia recém-aprovado sua descriminalização e uma mulher havia morrido por conta de complicações de um procedimento feito clandestinamente. Ou melhor: a mídia havia noticiado que uma mulher havia morrido por complicações de um aborto clandestino, porque essas mortes são mais frequentes que noticiadas. E o que veio depois explica bem o porquê. Uma reportagem nesse contexto poderia acelerar a discussão para a descriminalização também no Brasil, mas aconteceu justamente o contrário: houve o processo massivo, houve o fechamento da clínica. Uma das primeiras coisas que me veio à mente foi o desespero das mulheres que tinham consulta marcada, logo também o dos homens, no caso dos que as engravidaram em relações extraconjugais.

A ação humana, já disse Hannah Arendt, é irreversível e produz consequências imprevisíveis. E ela nem conheceu a internet.

Não sou jornalista, tenho formação em medicina e psicologia, mas escrevo. Mantenho há mais de um ano uma coluna semanal num dos maiores veículos de comunicação do país. Escrevo sobre assuntos diversos, tento pensar sobre eles, mas de uma semana para outra, na maior parte das vezes, não é possível refletir o suficiente sobre cada tema. Simplesmente não dá tempo.

Minha primeira coluna que viralizou foi uma das que menos reli. Eu havia escrito com pressa, numa semana particularmente difícil por questões pessoais, sem o tempo de gaveta que gosto de dar aos textos. Me assustei quando a vi logo abaixo da matéria principal da home do UOL. Comentei com um amigo jornalista que o que eu considerava meu pior texto estava sendo o mais lido: bem-vinda ao jornalismo, ele respondeu.

Foi também com pressa que escrevi a coluna sobre os estudantes de medicina que abaixaram as calças em um jogo interuniversitário. Não estou, com isso, me eximindo da responsabilidade por ter escrito: este texto é, ao contrário, uma tentativa de responsabilização. Quando percebi a repercussão que o texto estava alcançando, reli-o, apreensiva, em meio às notificações incessantes de mensagens em todas as redes.

Ainda que a recepção ao texto tenha sido positiva no geral, recebi algumas críticas de ambos os lados: alguns colegas médicos me acusaram de os expor de maneira leviana, sendo que já estavam sendo tão atacados; outros leitores, de estar justamente defendendo a classe médica, "passando pano". Mas não é por conta dessas críticas que decidi escrever este texto. Quem escreve precisa poder ser criticado, ou melhor: precisa poder ter seu texto criticado, e um bom texto suscita discussão, ainda que na internet ela seja muitas vezes superficial.

Após a publicação do texto, inúmeros relatos de violência durante os anos de faculdade de medicina vieram à tona em grupos de discussão. Soube de amigas e amigos que haviam sido ameaçados ou agredidos de várias formas (agressão verbal, cuspes, barra de ferro são apenas alguns deles). Que tenha sido levantada a discussão sobre a violência nos trotes e festas universitárias me diz que o texto cumpriu seu objetivo, mas há algo nele sobre o que ainda preciso e quero falar.

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Conforme as visualizações do meu texto aumentavam, a angústia difusa que eu sentia seguia o mesmo caminho. Eu não a compreendia totalmente até que uma prima veio me perguntar, depois de elogiar o texto, se eu realmente achava que a expulsão dos alunos era uma medida acertada, se o melhor caminho não seria o diálogo, a educação, a aprendizagem a partir do erro. Depois, chegou até mim um texto de Pedro Doria em "O Estado de S. Paulo" ponderando que não chegou a haver a confirmação por nenhuma testemunha nem o vídeo mostrava que de fato os estudantes de calças arriadas estivessem simulando masturbação. Os acontecimentos talvez não fossem como a viralização os pintou — e aqui é preciso reconhecer que entrei na onda das redes, que simplesmente replicavam uma acusação não fundamentada. Não só eu, como diversos outros colunistas, influenciadores e autoridades, exigindo que a faculdade e a justiça tomassem as medidas cabíveis. Eu mesma, no meu texto, defendi uma "punição exemplar".

O problema da internet é que ela condena antes do julgamento, e as consequências disso podem ser irreparáveis, e as coisas quase nunca são tão simples quanto um post ou uma coluna podem fazer crer: neste caso, punir individualmente estudantes que estão reproduzindo uma postura muito mais antiga e abrangente que eles sana mais nossa culpa que o problema de fato.

No romance "O Tribunal da Quinta-feira", de 2016, o narrador de Michel Laub diz que "Todo fascista julga estar fazendo o bem. Todo linchador age em nome de princípios nobres. Toda vingança pessoal pode ser elevada a causa política, e quem está do outro lado deixa de ser um indivíduo que erra como qualquer indivíduo, em meia dúzia de atos entre os milhares praticados (...), para se tornar o sintoma vivo de uma injustiça histórica e coletiva baseada em horrores permanentes e imperdoáveis". No instante seguinte a uma viralização, continua o narrador, não haverá mais chance de voltar atrás.

O jornalismo é uma das profissões mais transformadas pelas redes sociais. O que mede agora a importância de um tema são as redes sociais, que pautam mais as notícias do que a própria realidade. Ainda que eu não seja jornalista, percebo semana a semana que publicar um texto exige muita responsabilidade. Diversas reportagens fizeram denúncias importantíssimas, mas outras tiveram consequências devastadoras, como o processo massivo das mulheres que fizeram aborto na clínica de Campo Grande. É preciso se deter, um instante que seja, antes de ceder ao apelo dos cliques. Pensar nas consequências que as palavras podem ter. E isso inclui reconhecer deslizes ou erros, pois assim se institui a palavra como mediação das relações e se permite aprofundar debates e não relegar temas importantes a mera disputa de visualizações.

A internet é o mais avassalador tribunal, e todos têm direito de serem julgados fora dela. O julgamento: cada um despeja sua pena no celular, se afasta da tela e vai fazer outra coisa, já esquecido do ódio que ajudou a destilar, mas a vida das pessoas é atingida de verdade. O fosso que separa o real do virtual existe apenas do lado de cá. Mas nada do que eu disser aqui talvez tenha tanta importância, este texto provavelmente pouco será lido: o assunto da vez já é outro.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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