Natalia Timerman

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Opinião

Este é 4º dia dos pais sem o meu. Ele continua cuidando de mim, e eu dele

Nunca ligamos muito para as datas, mas gostávamos da presença que as datas proporcionavam. Já é o quarto dia dos pais sem o meu, já não me assusto tanto, ainda que a falta vigore como sempre.

Esses tempos, voltei a sonhar que ele morria. No último desses sonhos, ele nos preparava para sua morte e tomava providências; sentia dor, às vezes se mostrava angustiado, mas preponderava a calma.

Eu sei que voltei a sonhar com ele por causa do livro. Escrevi um livro sobre sua morte, sobre minha dor, sobre a história da nossa família, comum a de outros tantos judeus que imigraram para o Brasil no começo do século 20. "As pequenas chances" é o quinto livro que publico, e foi sem dúvidas o mais difícil de considerar pronto. Entendi que isso aconteceu porque, depois de publicado, um livro deixa de ser meu, e esse eu escrevi com as entranhas. Publicá-lo seria perdê-lo, sujeitar uma experiência íntima e crucial ao veredito de leitores distantes, que o lerão no intervalo do almoço, no ônibus, sonolentos antes de adormecer.

Tenho lembrado de experiências que não coloquei no livro. A reação instantânea é de pesar: puxa, isso deveria estar lá, como se eu devesse ter escrito tudo, como se a literatura pudesse abarcar a totalidade de algo que se viveu. Mas não. Assim como depois de uma viagem a memória passa aos poucos a ser a memória das fotos, indireta, eu corria o risco de que a memória dos dias e da morte do meu pai se resumisse ao que escrevi. Não ter escrito tudo me salva: salva a possibilidade de mudança do meu olhar para o que vivi, guarda algo só meu, preserva a distância entre mim e a palavra, entre a realidade e a ficção.

Distância na qual posso sentir a excruciante vontade de conversar com ele, de dizer: pai, olha só o livro que escrevi sobre você, para você, sobre nós, olha tudo o que ele está me trazendo, olha como você continua cuidando de mim, enquanto cuido da sua memória como posso. Porque esse é o sentido do cuidado, ou melhor, sua direção: sempre dupla, sempre recíproca, cuidar do outro é sempre cuidar também de si.

Eu não tenho como escutar sua resposta, mas posso imaginá-la, posso te imaginar sorrindo, posso quase sentir que você estaria orgulhoso, e como é difícil que aconteça tanta coisa boa e você já não esteja aqui. Percebi isso no aniversário do Benja, o primeiro depois da sua morte: estávamos ao redor da mesa, batendo as palmas de parabéns, e a partir de então a felicidade carregaria sempre também a tristeza.

Assim termina este texto, incompleto, para que continue podendo ser meu.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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