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Maqui Nóbrega

A jornada feminina do ódio ao corpo à autoaceitação na série Dietland

Joy Nash e Julianna Margulies em Dietaland - Divulgação
Joy Nash e Julianna Margulies em Dietaland Imagem: Divulgação
Maqui Nóbrega

Maqui Nóbrega é designer, produtora de conteúdo para internet, feminista, gorda, um pouco chata, bastante legal e nada romântica.

Colunista do UOL

04/08/2020 04h00

Essa semana assisti a um seriado importantíssimo chamado "Dietland". Se você me segue nas redes sociais, já deve estar cansada de me ver indicando, mas é porque eu preciso que todas as mulheres assistam! "Dietland" conta a história da Plum (que em português siginifica ameixa, "porque sou suculenta e redonda"), uma mulher gorda que acha que a vida finalmente começará quando ela fizer uma cirurgia bariátrica e emagrecer. Plum (interpretada por Joy Nash) é um apelido e seu nome verdadeiro, Alicia, é como ela chama essa persona magra que ela quer alcançar. Como se fossem duas pessoas diferentes. Para piorar, Plum é jornalista freelancer e ghostwriter da diretora de redação da Daisy Chain, uma revista adolescente. Ela é a voz e personalidade de uma mulher magra e gordofóbica.

A série fala sobre a indústria da beleza, mulheres na mídia, feminismo, machismo e retrata a jornada da Plum do ódio ao corpo à autoaceitação. A jornada que muitas mulheres levam a vida inteira para percorrer, ela vive em alguns meses com um acelerador bem peculiar (já falei pra vocês assistirem!). Mas o que me fez ter vontade de escrever sobre esse assunto aqui, foi uma conversa que ela tem com seu melhor amigo no sétimo episódio da série. Plum percebe (não vou contar como) que mesmo as mulheres "perfeitas", as que se encaixam em todos os padrões de beleza, são estupradas, maltratadas, assediadas, espancadas. O raciocínio dela é de que a vida inteira, ela trabalhou para virar um alimento melhor para os predadores. Se ela fizer a cirurgia, emagrecer, usar a calça 36, ela só terá se transformado em uma presa mais atraente.

O padrão de beleza ocidental não é instintivo. As pessoas não acham uma mulher branca, magra, loira e de olhos azuis bonita "porque sim". Ao longo de muuuuitos anos, nós fomos ensinadas a buscar esse padrão para sermos recompensadas. Tipo reforço positivo em cachorros, sabe? Se seu bicho faz xixi no lugar certo, ele ganha o biscoito. Se você é branca, você ganha mais dinheiro. Se você é magra, ganha a capa de revista. Se você é loira, ganha o emprego. Se você tem os olhos azuis, ganha elogios. Se é o combo completo, ganha a atenção dos homens.

Mas a gente quer MESMO a atenção dos homens? Outro dia postei no Instagram uma foto dizendo que quanto mais eu me afasto dos padrões de beleza que o homens em geral acham atraente, mais feliz eu fico. E eu gosto de homem, tá? Eu me relaciono com homens e sou atraente pra muitos deles, e sei que algum cara vai olhar minha foto aqui em cima da coluna e comentar que acha isso impossível (beijo, moço!). E isso só me deixa mais feliz ainda.

A atenção DESSE cara, que não consegue enxergar beleza além do óbvio, que impõe um padrão estético e (pior) comportamental às mulheres, eu não quero. Esse cara, infelizmente, representa a maioria dos caras. Eu não quero me tornar a presa certa. E não estou de maneira nenhuma dizendo que um homem que acha uma mulher gorda atraente não pode ser um predador (quem assistiu Dietland, sabe). Mas estatisticamente, as chances são menores. Menos homens te desejam, menos chances de ser violada. E sim, homens, a vida das mulheres é um eterno cálculo de como correr menos perigo.

A mulher gorda, a mulher preta, a magra, a loira, todas sofrem para se encaixar. A Bruna Marquezine está "magra demais", a Adele "deve estar doente", a Rihanna "deu uma engordada". Se você busca a aprovação do seu corpo nos outros, está jogando um jogo perdido. Não tem como ganhar, você nunca será suficiente, magra ou gorda. A Plum entendeu isso na série e eu quero muito que você entenda também.

Vamos desromantizar ser bonita para os homens? Vamos desromantizar a própria beleza? Vamos falar sobre isso?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.