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Maqui Nóbrega

Elas foram punidas pelo Instagram por denunciarem machismo e misoginia

As produtoras de conteúdo Polly Oliveira e Manuela Xavier sofreram penalidades do Instagram - arquivo pessoal
As produtoras de conteúdo Polly Oliveira e Manuela Xavier sofreram penalidades do Instagram Imagem: arquivo pessoal
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Maqui Nóbrega

Maqui Nóbrega é designer, produtora de conteúdo para internet, feminista, gorda, um pouco chata, bastante legal e nada romântica.

Colunista do UOL

07/01/2021 04h00

São poucas as contas que sigo atentamente no Instagram. São poucas as pessoas que, nos dias em que não postam um vídeo nos Stories, eu sinto falta e busco pra ver o que aconteceu. Polly Oliveira e Manuela Xavier são duas dessas pessoas. E se fosse pelo Instagram, eu nunca mais veria nenhum conteúdo delas.

Nas últimas semanas, Polly e Manu vêm sendo perseguidas na rede por, na minha opinião, falarem algumas verdades que muitas mulheres precisam (e querem) ouvir. Desafiar conceitos muito mais antigos que nós mesmas, a gente sabe, é botar-se em risco. Mas é inaceitável que uma empresa como o Facebook, que diz prezar pela diversidade e liberdade, não faça NADA para proteger usuários importantes que viram alvos por simplesmente incomodar. Ou será que é o próprio Instagram que as torna alvos?

Nós, mulheres, não podemos deixar que isso aconteça. Temos que fazer barulho! Foi assim que, nos EUA, a modelo plus size Nyome Nicholas-Williams conseguiu mudar algumas regras e diretrizes sobre nudez da rede social. O que aconteceu com ela lá, acontece com Polly no Brasil. Mulheres brancas e magras podem postar o que quiser, mulheres gordas e pretas são deletadas por produzir conteúdos semelhantes. Como se explica isso, Instagram?

Polly posta no Instagram conteúdos que gostaria de ter visto quanto vivia uma relação abusiva e violenta. "Percebi que uma mulher jamais sairá intacta de um relacionamento abusivo, tive meu corpo completamente transformado e minha história de liberdade interrompida", diz. Depois de 10 anos digerindo e tratando em terapia o que aconteceu com ela, resolveu fortalecer e despertar outras mulheres que possam estar vivendo situações parecidas. Sua conta começou a ser denunciada massivamente e ter os posts deletados quando fez um vídeo dublando, no melhor estilo TikTok, Mayra Cardi. No post, Mayra ensina como sua postura determina se uma foto é, nas palavras dela, f*da ou gongada. O vídeo de Mayra e sua barriga negativa segue no ar até hoje. O da Polly, recriando exatamente o mesmo conteúdo, como forma de crítica, foi deletado.

Já Manu fala sobre feminismo há tempos no Insta. Ela "bate textão", como curte dizer, analisando assuntos atuais, tipo aquele bafo que você viu no canal de fofoca, pelo viés da Psicanálise. E olha, é cada surra de verdades que eu levo lendo os textões, que eu nem sei! A causa da Manu é a emancipação de mulheres e o trabalho dela não fica só na internet, ela também criou e dirige um coletivo de assistência psicológica e jurídica para mulheres em situação de violência e vulnerabilidade. A conta dela segue ativa (por enquanto), mas com várias restrições, porque vem sendo denunciada por seguidores e fãs de alguns homens famosos que não gostaram muito de suas opiniões.

Mas se silenciam lá, abrimos caminhos aqui. Conversei com as duas sobre o assunto. Leia as entrevistas a seguir:

Polly Oliveira: "Refiz vídeos de blogueiras que têm o corpo padrão e tive minha conta no Instagram desativada."

Polly Oliveira, escritora e produtora de conteúdo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A escritora e produtora de conteúdo Polly Oliveira teve a conta excluída no Instagram após denunciar práticas irresponsáveis de clínicas de estéticas
Imagem: Arquivo pessoal

Maqui: Que tipo de conteúdo você postava na sua conta do Instagram que foi excluída?
Polly:
Sobre autoestima, liberdade do corpo, relacionamentos abusivos e todo e qualquer conteúdo de despertamento das mulheres.

Maqui: Por que sua conta foi desativada?
Polly:
Minha conta sofreu seletividade, digo isso com certeza. Foi refazendo vídeos exatamente iguais ao de blogueiras que têm o corpo padrão que eu sofri o meu cancelamento. Foi depois de denunciar práticas abusivas e irresponsáveis de clínicas de estéticas, que infringem o código de ética médica, e usar meu corpo e voz para alertar sobre a romantização de cirurgias plásticas que começaram a denunciar meus posts.

Maqui: Qual você acha que é o interesse do Instagram em silenciar mulheres?
Polly:
O que mantém toda e qualquer fonte de renda dentro do capitalismo é a insatisfação humana, sobretudo a insatisfação feminina, que enriquece uma das maiores indústrias mundiais, a da beleza. As redes sociais, de modo geral, não têm interesse em ver mulheres falando sobre a possibilidade de felicidade e completude além de tudo o que eles vendem como remédio. Eu entregava isso em minhas redes sociais, doses cavalares de autoestima e amor-próprio. Com certeza eu era uma ameaça.

Maqui: O que você acha que precisa mudar nas diretrizes da rede?
Polly
: Tudo, absolutamente tudo. Recentemente criei uma petição para que isso mudasse, pois venho sofrendo ameaças da plataforma desde sempre. Na tentativa de mudar isso, iniciei essa petição para que, com o apelo popular, pudéssemos mudar essa realidade.

Maqui: Qual é a mensagem que você quer passar para as mulheres? Por que você acha que essa mensagem é considerada perigosa pelo Instagram?
Polly
: Eu quero que as mulheres saibam da sua capacidade além de um corpo, que possam entregar ao mundo tudo o que são em sua essência. Quero mulheres livres e líderes em todos os níveis, porque assim eu sei que o mundo pra minha filha, sobrinhas e netas será mais seguro.

Quero mulheres livres e a liberdade assusta no primeiro momento, mas quando olhada com mais cautela e calma, podemos perceber que não existe nada mais lindo e perfeito. Toda mulher merece viver uma vida completa em todas as áreas de sua vida. Tudo isso é uma ameaça, porque entrega pra mulher o poder de escolha real, e nenhuma mulher em sã consciência escolhe viver presa.

Manuela Xavier: "Fiz denúncias de práticas machistas e misóginas e o Instagram marcou meu conteúdo como discurso de ódio"

Manuela Xavier, psicóloga, mestra e doutora em Psicologia - acervo pessoal - acervo pessoal
A psicóloga Manuela Xavier teve seus posts sobre machismo marcados como "discurso de ódio"
Imagem: acervo pessoal

Maqui: Que tipo de conteúdo você posta na sua conta do Instagram?
Manu:
Machismo e violências contra a mulher

Maqui: Por que sua conta está sob ameaça de desativação?
Manu:
Depois de decorrentes denúncias de práticas machistas e misóginas que atentam contra a vida das mulheres de forma simbólica e material, o Instagram começou a marcar meu conteúdo como contendo símbolos ou discurso de ódio. É discurso de ódio uma mulher fazer denúncia de machismo, mas o machismo matar mulheres deve ser normal para o Instagram.

Maqui: Qual você acha que é o interesse do Instagram em silenciar mulheres?
Manu:
O Instagram, como uma ferramenta que nasce e serve ao capital, mantém o status quo do capitalismo que é o mesmo que estrutura o patriarcado: o poder dos homens. Mulheres denunciando o perigo de uma sociedade machista que não é segura para as mulheres, mulheres erguendo a voz para emancipar outras mulheres são portanto um perigo a manutenção do poder masculino, por isso, quando eles não nos matam, nos silenciam. O que é também uma morte: simbólica.

Maqui: O que você acha que precisa mudar nas diretrizes da rede?
Manu:
Análise crítica e parceria com movimento sociais engajados na militância digital pra rever os algoritmos. E sobretudo: conscientização em massa. O algoritmo é, antes de tudo, feito por humanos e operado por humanos. O Instagram precisa humanizar suas políticas.

Maqui: Qual é a mensagem que você quer passar para as mulheres? Por que você acha que essa mensagem é considerada perigosa pelo Instagram?
Manu:
Eu quero que as mulheres ocupem. Ocupem os espaços políticos, econômicos e sociais. E pra isso elas precisam da ressonância de sua voz, elas precisam apontar o dedo, dar nomes às opressões. Eu quero que as mulheres sejam livres e desobedientes, e isso é revolucionário - e muito perigoso - diante de um sistema que nos quer presas, caladas, manipuladas e mortas. Eu estou aqui pela vida das mulheres - a simbólica, a virtual e a material. Não me calo. Serei um calo, mas não me calo.

O que diz o Instagram:

Procurados por Universa, o Instagram afirma que está investigando os casos e em breve terá uma conclusão.