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Luciana Bugni

Falta uma semana para o Natal: você vai sofrer em família ou sozinho?

Registros estranhos em uma festa em que o aconselhável é não respirar perto de quem a gente ama - Getty Images
Registros estranhos em uma festa em que o aconselhável é não respirar perto de quem a gente ama Imagem: Getty Images
Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

16/12/2020 04h00

Metade de dezembro. Falta uma semana para o Natal. Aquela festa em que a gente reúne a família e... veja bem. Só que sem reunir e sem família.

Faltam ainda duas semanas para minha festa favorita. Aquela em que a gente se despede do que não quer mais no ano anterior e se renova. Um botão de refresh, pisando no mar, olhando os fogos e acreditando na esperança de tempos melhores. Só que sem refresh, sem mar, sem fogos e um pouco sem esperança também.

Esse seria o momento de estar comprando roupas brancas, arrumando malas, tentando equilibrar as agendas para fazer duas festas por dia para dar tempo de abraçar, beijar e se possível lamber todos os amigos.

Mas queremos enganar quem, se o dia 31 vai ser igualzinho o dia 1º? Vai ainda ser verão, vai ainda ser letal, vamos ainda estar sob o comando de pessoas que não pensam em nós. Vai ainda ser 2020, sem ser.

Eu não sei muito bem quando se inverteu a lógica e passou a ser minha culpa acreditar em um vírus mortal que se transmite pelo singelo hábito de respirar perto de outras pessoas. A uma semana do Natal, vivemos o polêmico momento de decidir se queremos brigar com a família e passar um Natal torturado sozinhos em casa ou brigar com a lógica e passar um natal torturado aglomerado, abraçando, molhando o camarão num molhinho rosé e lambendo o dedo e as lágrimas. Nenhuma das duas opções parece minimamente atraente.

Eu não aguento mais, você não aguenta mais. Está todo mundo certo: quem aguenta? Quer dizer, nem todo mundo está certo. Quem brinca com a vacina, única possibilidade de voltarmos a ter uma vida que nem sabíamos que gostávamos tanto, está completamente errado.

A segunda onda jogou um balde de água fria num momento em que até Átila Iamarino nos deixava sair de casa com parcimônia. Volta todo mundo para dentro, desculpe, foi engano. Eu ainda nem tinha levantado do caldo que tomei da primeira onda, que me levou amigos, sanidade mental e direito de ir e vir. Aí veio a segunda onda, essa porradaria, pegando mais gente conhecida dessa vez, mas levando menos gente. Ou dizendo que levou menos gente? Como a gente vai ficar duvidando de governantes no noticiário por mais 300 dias?

A segunda onda derrubou a nossa fé. A gente desaprendeu a acreditar. As boas notícias de vacinação pelo mundo nos atingem do lado errado, com aquela inveja de "é isso que nós, brasileiros, nunca teremos".

Nunca é muito tempo. 2021 talvez seja pouco tempo. Um dia é melhor que nada. É sério que vou passar um réveillon sem ondas, sem mar, sem viagem e também sem esperança?

Outro dia li minha amiga Luiza Sahd explicando como ficou impactada pela palavra illusión, em espanhol. O significado em português lembra algo negativo, de ingenuidade, mas em castelhano é algo bom, que te move. Dia desses, um amigo me disse, em espanhol: "es que no puedo perder mi illusión". Illusión, assim, seria a luz que bota para frente. Aquela, no fim do túnel. E seria essa transição de década o túnel mais comprido que já enfrentamos? Illusión, aquela da música que Julieta Venegas canta com Marisa Monte. Uma amiga tocou para mim outro dia no Instagram e devolveu a minha. A gente vai aos pouquinhos, né?

Precisamos de ilusão. Não essa que prega o presidente, de que a doença não existe. De que não devemos ser maricas. Mas de ilusão em espanhol, essa em que a gente acredita que tudo vai dar certo. Que 2021 será um novo ano. Que sobreviveremos ao Natal e não levaremos aos próximos tempos a culpa de perder alguém que a gente gosta.

Quando eu piso no mar na noite de réveillon e arrisco uns mergulhos na minha festa favorita, é sempre com muito respeito. Pela vida, pelo mundo, pela natureza, pelas coisas que eu acredito. Com o mesmo respeito estarei esse ano, bem longe da praia e das pessoas que eu amo. Com respeito pela vida.

Que as próximas duas semanas possam renovar nossas ilusões, no sentido latino da palavra. E não é isso que somos? Use máscara, evite aglomerações. E fique bem. A gente pode conversar mais no Instagram.