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Luciana Bugni

Semana de calor: as baratas são o único animal capaz de nos vencer em 2020

Macaulay Culkin e sua máscara de "Esqueceram de Mim": imagem meramente ilustrativa para te convencer a ler esse texto - Reprodução/Twitter
Macaulay Culkin e sua máscara de 'Esqueceram de Mim': imagem meramente ilustrativa para te convencer a ler esse texto Imagem: Reprodução/Twitter
Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

09/10/2020 04h00

Uma amiga que se separou na pandemia achou uma casa linda para recomeçar sua vida com a cara, a coragem e sintomas de Covid — felizmente depois de alguns dias de febre e diarreia, ela já passava bem.

O apartamento térreo era o ideal para viver com seus cachorros. Ela levou as plantas. Seus quadros. Um recomeço enclausurada após anos de um relacionamento estável. Um pouco de terapia ali, um pouco de vinho aqui, pronto: ela já chamava sua casa de lar. Esperava que a quarentena acabasse para levar os amigos e fazer grandes festas em seu quintalzinho. Já dava até para começar a flertar.

Até a primeira noite de calor. Ela precisou recorrer à ajuda de vizinhas de bom coração para ajudá-la a matar as baratas que vinham da rua. E foi só o começo de uma longa batalha que se alternava entre luta e descanso/ noites quentes e frias.

Outro dia, me contou no Whatsapp que estava sentada, desolada no quintal, tomando seu suco verde e olhando para uma das criaturas. Nenhuma das duas se movia. Ela disse que pensava em Clarice Lispector enquanto esperava ser atacada pelo demônio de seis patas. Eu temi que de fato ela encarnasse a personagem G.H. Mas ela apenas foi dormir sem tomar decisões radicais.

Durante as últimas duas semanas, em que os termômetros variaram de 40 a 20 graus dia sim, dia não, ela reconheceu a derrota. Não foi o divórcio que a fez sucumbir. Não foi a Covid que a fez pendurar a chuteira. Quem ganhou a luta foram as baratas. Ela já está calculando a multa do aluguel para deixar seu bonitinho e reformado lar antes da hora. E voltar para a casa dos pais. Sim, pois é.

O calor desses últimos dias expôs muita gente a esse embate. Um amigo me escreveu, às 8h da manhã, contando que estava trancado no quarto desde o meio da madrugada. Ele já tinha gastado um tubo de veneno em spray inteirinho numa caçada que durou horas. Aparentemente, alguém achou boa ideia reformar a calçada de seu prédio. Os furos no cimento abriram um portal do inferno com ligação direta ao ralo de sua varanda, num edifício antigo do centro de São Paulo. De lá do pequeno buraco de 10 cm de diâmetro, borbulhavam as criaturas abjetas e corriam se esconder atrás de seus móveis. Seus três gatos ajudaram na caçada, apontando os animais nas frestas para que ele, suado e desesperado, tentasse matá-las. Até finalmente desistir, se trancar no quarto. E passar o resto da noite em claro em agonia. Que pesadelo.

Minha amiga aproveitou o momento parado da quarentena para decidir finalmente sair de casa. Alugou seu cantinho, decorou bonitinho. Questionou toda a alegria da independência em uma dessas noites de 30 e tantos graus, em que, sabendo da presença da barata no banheiro, segurava a vontade de fazer xixi sentada na beirada da cama, suando frio. Já havia gastado meio tubo de veneno, mas sem conseguir encontrá-la, nem ter certeza do óbito, mais seguro era segurar até que finalmente a fisiologia falasse mais alto, ali no quarto mesmo. Aí seria só limpar — e antes isso do que enfrentar o monstro.

Histórias como essa me lembram a minha própria empreitada, ao morar sozinha. Não tinha medo de nenhuma das coisas que são o ônus da independência. Apenas de encontrar uma barata e não ter a quem recorrer. O destino me foi gentil, no entanto. Nos três anos em que vivi sozinha, não tive desafio maior do que certa vez uma mariposa com as dimensões de um pássaro grande que morou por alguns dias em minha cortina. Dei nome e convivi com ela numa boa. Até que um dia ela se foi. Barata mesmo nunca apareceu.

A ironia é um dia, já casada, morando com três adultos capazes de me proteger do perigo, em que eu achei uns galhinhos de árvore na minha cama. Peguei os galhos na mão e perguntei ao meu marido que planta era aquela que a gata havia levado para nosso quarto. Ele pediu para eu soltar aquilo e com muita calma explicou que não eram plantas. E sim, patas. Sim. Eu toquei naquilo. Falar sobre o assunto faz com que um arrepio forte me estremeça.

Nunca estamos a salvo do inimigo. Tenho certeza de que, no futuro, nos esqueceremos de outras agruras desse 2020 sombrio. O que vai nos cobrir de desespero será a memória de um mês de outubro calorento em que ficamos trancados em casa com as baratas.

Isso se ainda estivermos aqui no futuro. Por que as baratas, essas com certeza estarão.

A gente pode falar mais desse assunto no Instagram.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL