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Juliana Borges

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Dicas do que não fazer com uma noiva: não se convide para o casamento

Irina Lev/Getty Images/iStockphoto
Imagem: Irina Lev/Getty Images/iStockphoto
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Juliana Borges

Juliana Borges é escritora, feminista e pisciana, logo, romântica e sonhadora. Já chegou a negar a instituição casamento, mas está noiva e já pensando em filhos. É fã de Beyoncé, Nina Simone e Miles Davis. Autora dos livros "Encarceramento em Massa" (2019) e "Prisões: Espelhos de Nós" (2020).

Colunista de Universa

06/12/2021 04h00

Quando alguém fala que vai casar, a maioria das pessoas que escutam a notícia celebra como um gol da seleção brasileira em final de Copa. Já reparou? É como se um êxtase coletivo se instalasse. O papo muda e todas e todos querem saber como e quem fez o pedido, como estamos nos sentindo e… quando será o casamento.

Olha só: acho muito bonito tudo isso. Minha cabeça mística vai longe e já logo penso na beleza que envolve o fato de pessoas ficarem tão empolgadas porque pessoas decidiram investir na celebração do amor, investir na pactuação que farão para trilhar uma jornada e da construção de vida que farão juntos e em compartilhamento. E essa última palavra é bem importante para mim, porque parte da minha reinvenção feminista do casamento: compartilhar. Meu noivo é meu parceiro e, quando se tornar meu marido, será meu companheiro. Eu pretendo falar um pouco do porquê acho importante pautar as coisas desse modo, do que significa companheirismo e camaradagem em um relacionamento amoroso. Mas, por hora, foco nessa demarcação: compartilhar.

Só que o papo de hoje é breve e importante. Até agora, minha experiência, quando falo que vou casar em qualquer roda de pessoas que seja, me leva a um sentimento de estranhamento. Não porque eu desconsidere a empolgação das pessoas, mas porque me sinto sempre em alguma cena dos filmes dos diretores Mark Webb e P.J. Hogan - o primeiro dirigiu o filme "500 dias com ela", em que há uma cena na qual Tom Hansen, apaixonadamente, dança com desconhecidos na rua; e o segundo dirigiu filmes como "O casamento de Muriel" e "O casamento do meu melhor amigo", com cenas curiosas, de celebrações, danças que surgem do nada na cena, em que pessoas desconhecidas também participam de algo e todo mundo se mobiliza para cantar ou participar de algo. Aliás, adoro a capacidade de ambos em inserir uma dose de musical em filmes que não esperaríamos algo assim. Gênios.

Pois eu me sinto assim. A gente fala que vai casar e até o atendente do bar nos dá parabéns e abraços. E as pessoas ao redor, às vezes algumas que sequer temos tanta proximidade, se emocionam. E se convidam para o casamento.

Daí, então, minha dica: festeje, celebre, parabenize, mas não se convide para o casamento. E por que? Primeiro, porque você precisa ter bom senso. Se pergunte: eu sou próximo da pessoa? Será que a deixarei desconfortável?

Segundo, porque você não sabe nada sobre as condições ou limitações da pessoa para a realização do casamento. A pessoa vai casar, não significa que ela, necessariamente, queira dar um festão. Ou, mesmo que ela queira dar um festão, que ela queira que você esteja presente ou que você caiba no orçamento.

Muitas são as questões que passam na cabeça dos noivos quando pensam o casamento e o formato da cerimônia. Mas a primeiraça é: quanto temos de orçamento? Isso vai, sem dúvida, balizar muito das decisões sobre número de convidados, diversidade de pratos, bebidas e afins. E, vamos combinar, estamos em meio a uma crise econômica imensa, agravada pela pandemia.

Um modelo que bombou com isso tudo foi de casamentos pequenos ou mini weddings. Mas, já vi, em minhas pesquisas, que há casamentos pequenos que podem chegar a orçamentos astronômicos.

Em segundaço lugar está o fato de que os noivos têm seus próprios critérios para definir convidados. Eu e meu noivo, por exemplo, estamos focados no fato de que queremos estar com pessoas que nos amam e que amamos e que estão presentes, que estabelecemos trocas íntimas e como família no cotidiano.

Ou seja, queremos pessoas que estarão presentes no nosso dia a dia como casal, como casados. Nossa festa não será uma baladinha, um rolê para reunir gente para beber de graça. Mas será um momento celebratório do nosso amor, da família que criamos para além de laços sanguíneos.

Então, imagina a minha cara quando uma pessoa se convida? Já pensei em ser transparente e explícita: "não se convide". Mas também pensei que se não quero esse desconforto e saia justa não irei produzi-lo e projetá-lo em outra pessoa.

No fim, fique alegre, se empolgue, abrace e parabenize. E é isso. Não comece a falar da sua roupa para ao enlace, não comece a pensar na festa. Se for para o convite chegar para você, isso vai acontecer.

E depende muito menos da festa que você fez na hora da notícia, do seu autoconvite e muito mais do quão presente e representativa é sua amizade com aquele casal. Aprenda a celebrar o outro sem necessariamente fazer parte da festa. É aquela coisa da gente se contentar em ser feliz ao ver o outro feliz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL