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Juliana Borges

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Você viu quanto custou o casamento do Lula?': uma pergunta que me irrita

Janja e Lula cortam o bolo de quatro andares  - Ricardo Sutckert/Divulgação
Janja e Lula cortam o bolo de quatro andares Imagem: Ricardo Sutckert/Divulgação
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Juliana Borges

Juliana Borges é escritora, feminista e pisciana, logo, romântica e sonhadora. Já chegou a negar a instituição casamento, mas está noiva e já pensando em filhos. É fã de Beyoncé, Nina Simone e Miles Davis. Autora dos livros "Encarceramento em Massa" (2019) e "Prisões: Espelhos de Nós" (2020).

Colunista de Universa

21/05/2022 04h00

A pergunta que intitula esse texto foi tão presente na minha vida nessa última semana, que cheguei a me irritar. A segunda pergunta, também nessa semana, foi se meu casamento ou do Lula seriam os casamentos do ano. Aff!

Eu, sinceramente, não fiquei muito preocupada em acompanhar os preparativos do casamento JanjaLula, como prefiro chamar, porque acho, de verdade, que cada um cuida do próprio bolso e do quanto quer gastar com seu casamento. Por alto, vi algumas notícias sobre o custo dos vinhos, dos doces e até do vestido da noiva. Dessa parte que acompanhei, não vi nada absurdo. Afinal, a gente já acompanhou matérias sobre casamentos muito mais caros. Mas, para mim, o grande incômodo era sobre a pertinência da cobertura.

Primeiro que se trata de uma festa privada e paga do próprio bolso dos noivos. Acredito, de verdade, que a gente deveria se preocupar em como estão sendo realizados os gastos públicos porque, afinal, estes sim saem do nosso bolso. Como por exemplo a gente pensar em uma cidade como São Paulo, com uma população em situação de rua que cresce sem parar por conta da crise econômica e que agoniza no frio por puro descaso, já que a cidade celebra uma das maiores reservas em caixa dos últimos anos.

Não é normal gente morrer de frio. E, aliás, não é o frio que mata, mas a falta de investimento para garantir abrigos salubres e política de moradia na cidade. Gente, temos mais imóveis ociosos, sem cumprir com sua função social, na cidade de São Paulo do que gente morando na rua. Então, vamos combinar que o problema não é por falta de moradia, mas por poucos lucrando com especulação. Então, acho bom começarmos por aí: o que te move na preocupação sobre gastos, um gasto privado e particular ou um público e que diz respeito a todos nós?

Segundo que fiquei pensando que muita gente que se chocou com valores do casamento JanjaLula está muito por fora do mercado de casamentos no Brasil. Amores, os preços são absurdos e quase impraticáveis. Acompanho grupos de noivas que, literalmente, se viram nos trinta para garantir suas festas porque os valores cobrados para uma decoração, do unitário no buffet, das bebidas, das lembrancinhas e até dos arranjos de mesa - que, olha só, em muitos casos precisam ser devolvidos para a empresa organizadora da festa - são, digo de novo, absurdos.

Não está fácil casar no Brasil.

Em terceiro lugar, como a gente mensura o que um casal pode e quer investir no seu dia de mais alta celebração do amor entre si? Uma festa para mais de 200 convidados, em um local fechado, que precisava garantir segurança redobrada, de um ex-chefe de Estado não sairia tão barata.

E adicionaria uma quarta questão que, acredito, envolve um pouco de elitismo de algumas pessoas. Afinal, como pode uma pessoa de origem humilde fazer um baita casamentão?

Mas, o que eu queria mesmo falar, mesmo que rapidinho, era sobre como achei as flores escolhidas por JanjaLula lindíssimas e como eu, simplesmente, AMEI o vestido da noiva. Menos pelo modelo, já que eu, particularmente, não gosto muito de ombros aparecendo (mas isso é um problema meu e, claramente, não dela) e mais pela história em torno dele. Gente, não tem coisa mais incrível do que você poder contar sobre o seu vestido todo costurado e bordado por bordadeiras do mais lindo e âmago do Brasil?

Como noiva que sou, eu fiquei mais interessada em saber das escolhas de JanjaLula que poderiam me inspirar. Como, por exemplo, a lembrancinha dos convidados que foi um bordado das mesmas bordadeiras. Janja, já quero te imitar!

Acho que mais importante do que perguntarmos sobre quanto foi um casamento, é perguntarmos o quanto de amor havia em um casamento; o quanto de afeto e boas energias havia em um casamento. Essa é uma coisa que observo de casamento da esquerda à direita. Como a noiva estava, como os noivos se olhavam, a emoção dos presentes, a troca de promessas entre ambos, as orações e preces realizadas e a alegria da festança.

Casamento, a meu ver, é momento de pura alegria e amor. A mensagem que fica é a de que "o amor venceu". E que o amor sempre vença. Sempre.