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Juliana Borges

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Alô, mercado: a festa de casamento é um dia dos dois e não apenas da noiva

Rawpixel/Getty Images/iStockphoto
Imagem: Rawpixel/Getty Images/iStockphoto
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Juliana Borges

Juliana Borges é escritora, feminista e pisciana, logo, romântica e sonhadora. Já chegou a negar a instituição casamento, mas está noiva e já pensando em filhos. É fã de Beyoncé, Nina Simone e Miles Davis. Autora dos livros "Encarceramento em Massa" (2019) e "Prisões: Espelhos de Nós" (2020).

Colunista de Universa

29/11/2021 04h00

Uma das coisas que mais me irritam nesse processo todo é o fato de pessoas acharem que o casamento é o dia da noiva. Esse não é um problema apenas de algumas pessoas, mas de muitas: familiares, amigos e amigas, gente que nem conhecemos, mas que se acha no direito de dar pitaco em tudo e, principalmente, do mercado de casamentos.

Já repararam que chamam até de "mercado das noivas"? Tudo é construído para acharmos e reproduzirmos as coisas como se os noivos não tivessem nada a ver. Sem contar, que isso ainda reflete uma visão heterossexual de tudo, não? Não acham que está na hora de mudar tudo isso?

As pessoas me perguntam sobre chá de panela, mas nunca vi perguntarem isso ao meu noivo. Já me perguntaram se eu "deixaria" que ele fizesse uma despedida de solteiro porque "bem, você sabe como é, né?". Não, não sei. Talvez, a gente saiba como é no mundo preso aos ditames patriarcais, em que mulheres são vistas como delicadas e homens como ogros. Talvez, em um mundo que reproduza o absurdo patriarcal de que "é da natureza do homem a não monogamia". Há estudos apontando que a monogamia sequer é uma regra da natureza. E, assim, seguimos vendo todo um mercado reproduzindo a ideia de que seria um dia só nosso.

Logo, as responsabilidades sobre esse dia seriam apenas nossas. E disso para pensar e reproduzir que o casamento bem sucedido seria uma responsabilidade puramente da mulher é um pulo rápido. Eu não quero ter chá de panela porque, bem, eu já tenho panelas. Eu não quero momento apenas com mulheres, ganhando itens domésticos, como se eu fosse a "dona do lar" e meu sonho de presente fosse um varal de chão ou um aspirador de última geração, quando o meu sonho de presente no momento é um novo computador, para que eu possa escrever mais e sem problemas tecnológicos, seguindo meu script de mulher independente.

Uma coisa que eu e meu noivo pactuamos - eu ainda não escrevo o nome dele aqui, porque não perguntei se posso expô-lo, apesar da ideia da coluna em si já ser uma exposição - é de que o casamento é nosso. O casamento para nós é a celebração de nós dois com as pessoas que amamos e que nos amam do nosso amor. Ai que delícia esse tanto de amor em uma frase só, né?

Então, eu remo contra a maré. Até agora (estou há 4 meses noiva), não participei de grupo nenhum em que noivos também participem. Tudo o que é problema para se resolver em um casamento é demandado por noivas. Eu participo de grupos de Facebook, Telegram e WhatsApp de... noivas. Fico me perguntando: onde estarão os grupos em que ambos participam? Existem? Vamos criar um nosso? Desculpem, me empolguei. Eu não teria condições de administrar algo desse tipo. Mas me pergunto, quando verei um homem desesperado, à 1h45 da manhã, pedindo dicas de presentes para as madrinhas e padrinhos, buscando contato de fornecedores de bem-casado, de fotógrafos, etc e tal?

Eu confesso a você que me lê que ainda estou na fase de que meu noivo apenas pensa as coisas comigo. Na hora da execução, ainda me sinto como a única responsável. Não vou negar que avançamos. Ele saiu do "pode ser" para pensar mais proativamente. Mas enquanto escrevo para você, também penso que preciso dar um basta nisso. Para além de pensar, eles precisam compartilhar conosco. Não acham?

Da decisão do tema da festa à execução e preparativos, precisamos pactuar com os nossos companheiros que eles também precisam se comunicar com as madrinhas e padrinhos, que eles não são os reis da definição da música que vai tocar - nesse ponto, estou perdida porque casarei com um músico e os parâmetros de discussão ficam mais difíceis quando somos leigas. Mas lutarei pela minha Marília Mendonça e por Barões da Pisadinha como ninguém! -, que eles também precisam se preocupar com uma mesa apresentável dos doces e não apenas com a marca de whisky que será servida.

O que quero dizer é: não há papel definido para homens e mulheres na organização de um casamento. A sociedade patriarcal quer que acreditemos que sim. Querem que acreditemos que esse é um dia apenas nosso, reproduzindo o comportamento de mulheres que foram e são criadas para esse momento. Mas, hoje, devemos lutar e exercer diariamente um comportamento de que somos criadas para vários momentos e para o que quisermos ser, certo?

Somos mulheres que não acham que esse seja o dia mais importante de nossas vidas. É, sem dúvida, uma data importante, de muitas definições. Mas, até agora, o dia mais importante da minha vida foi o dia em que lancei meu primeiro livro. Esse era meu sonho infantil.

O casamento é uma das variadas possíveis consequências de quando celebramos o amor. Não é a única. Já pensou que o auge com o seu amor pode ser uma viagem de mochilão que vocês decidem fazer juntos? Queremos companheiros, relações saudáveis, em que não nos sentimos sozinhas, mas como um time desbravando o mundo e fazendo do amor, como disse Bell Hooks, uma prática para a liberdade.

Mude tudo. Faça tudo do jeito que você realmente quer. Seja livre. E, para isso, no meu caso, esse exercício da liberdade começa chamando a atenção do meu companheiro que o dia será nosso. Que celebraremos juntos, na mesma intensidade, com o compartilhamento de tarefas e a festividade do amor.

Aqui, não há mulher submissa, mas mulher companheira. Esse papo continua, claro. Mas, por hora, me vejo nesse momento decisivo. Alô, mercado de casamentos, vamos conversar?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL