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Como eliminar seus problemas com o frizz no cabelo

Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista do UOL

13/10/2020 04h00

Sim, vai ser mais um daqueles assuntos que muitos dirão "Ah, lá vem mimimi....": O FRIZZ NO CABELO!

"Nossa menina, não tem uma tina de roupa pra lavar?","Tá faltando assunto?", "E a fome no mundo?". Pois é, falar sobre frizz não vai acabar com a fome no mundo, nem dar conta das tarefas domésticas aqui em casa. Mas você vai precisar ler até o fim, se quiser saber como se livrar dos seus problemas com o frizz de uma vez por todas.

Meu cabelo, hoje em dia um cacheado super elogiado, sobre o qual pessoas me escrevem pra saber minha rotina de cuidados e profissionais envolvidos na manutenção, já passou por muitas fases. Nasceu fofinho, como todo cabelo de bebê, passou a infância com cachinhos que se formavam a partir de uma espécie de cabelo liso. Nada de frizz até então. Aos poucos, a textura foi mudando. Até liso ele já quis ser naturalmente. Lá pelos 12, 13 anos, meu cabelo decidiu seguir outro caminho, rumou na direção das ondas e cachos mais importantes. Foi quando apareceu o tal do frizz.

Achei estranho... quer dizer, não sei dizer como tudo começou: se eu achei estranho ou se as pessoas achavam estranho. E achando estranho, inapropriado, naturalmente, me mandavam dar jeito. Talvez tenha a ver com o fato de não haver, naquela época, alguém com frizz em papéis de destaque ou com status de diva, linda, musa... (hoje em dia, por acaso, você vê, querida?). Para resumir a ópera, posso dizer que passei por inúmeros processos pra tentar ser aceita – eu e meu cabelo. Até na touca de gesso (uma espécie de alisamento radical que retira por completo qualquer possibilidade de movimento dos cabelos) a gente chegou. Jamais esquecerei daquela sensação do cabelo grudado na cabeça como se fosse um capacete. Eu no ônibus, voltando pra casa de cabeça baixa, desejando que o motorista furasse todos os faróis para eu desaparecer bem rápido com meu cabelo capacete.

Acabei encontrando outras maneiras mais naturais de deixar os cabelos lisos. Quanta alegria ter aquela cortina lisa, escorrida sobre a cara. Nos ensinam que até o toque do cabelo liso é mais poético, um toque de seda... É claro que sempre teve a problemática de fugir da umidade. Banho de chuva, nem pensar! Praia, piscina? Precisava arquitetar planos mirabolantes com cremes, elásticos, bonés e afins para camuflar a verdade. Sim, acho que eu perdia um pouco da naturalidade e me privava de muitos rolês da hora pra manter o cabelo intacto. Bares com aguinhas borrifando do teto? Nem pensar! Só se fosse passando bem rápido com a cabeça coberta. Shows com garoa e chuva? Se liga! Nem a pau! E quando ia chover? O cabelo adivinhava antes e começava a inflar de dentro pra fora, uma loucura. Quase que como um levante do crespo sob o liso! Só depois dos 30 comecei a me interessar em saber como seria a estrutura natural do meu cabelo. Foi quando iniciei o processo de "desmame" da escova agressiva, que é como chamo a tal "escova progressiva", um procedimento no qual se usa formol pra domar os cachos e o inconveniente frizz.

Formol não é aquilo que usam pra preservar defuntos? Aham, é isso mesmo. Um produto que, de tão forte, lhe arranca lágrimas durante o processo de realização do alisamento e irrita todo seu aparelho respiratório – agora pense nos profissionais que realizam diversos desses procedimentos repetidas vezes. Ai, que legal, assumiu os cachos! Que linda, depois disso, a vida mudou? Mudou, sim. Muita gente em volta dizendo à boca pequena, ou mesmo na minha frente, como o novo estilo os desagradava. Como eles preferiam mil vezes meu cabelo liso. Sem contar a "lenda urbana", tida como máxima nos bastidores de TV e vídeo, de que cabelo enrolado não "lê" bem na câmera. De que é confuso e parece desorganizado... Junto com a aceitação do cabelo enrolado, vem a neurose do controle do frizz. Mas, afinal, o que é frizz? Perguntei a um dos meus gurus em cabelos, Yohan Nicolas, e ele disse: "Um cacho são vários fios de cabelo que se juntam e se agrupam para criar um tufo de cabelo que cria o cacho. O frizz é nada mais do que um ou alguns destes fios que decidem se rebelar e abandonar o grupo". Frizz, um revolucionário! Foi o que pensei depois dessa explicação. A questão é que a indústria de cabelo, quase que de modo totalitário, tenta exaustivamente controlar o tal frizz. Repare no tanto de produtos disponíveis para domar o desagradável efeito.

Como vocês já sabem, sou motivada pela minha curiosidade e espírito inquiridor, além de ter atenção quase obsessiva a detalhes e a movimentos que apontam numa mesma direção. Me arrisco a dizer que o anti-frizz está para os produtos de cabelo assim como o whitening e antiaging estão para os produtos de pele. Curioso né? Vamos tentar entender, o que whitening e o anti-frizz têm a ver? (Acho que a questão antiaging merece artigo exclusivo.)

Produtos que contém a expressão whitening em seus rótulos se propõem a "clarear a pele". Acho que isso eu não preciso explicar, preciso? Pretendem deixar as peles "mais brancas". Mas e o frizz? Bem, a que um cabelo com frizz remete? Existem pessoas que têm por característica natural o cabelo com frizz ou com propensão ao frizz? Não vai me dizer que pode haver qualquer resquício de racismo relacionada a essa questão? Bem, parece que sim. Aparentemente, essas questões estão enraizadas em lugares e questões que nem imaginávamos. Parece haver uma convergência de temas importantes e atuais nesse singelo assunto, o frizz. Fiquei pensando... será que também poderia ser mais uma manobra de controle sobre corpos e estética feminina? Vou deixar para vocês pensarem.

Segundo Yohann, por muito tempo, o cabelo com frizz foi considerado quase que uma textura bastarda. As permissões seriam cabelos lisos ou cacheados, desde que domados. Conversei com outra profissional da área, a Vale Saig, que contou um pouco da saga da sua família com a questão do cabelo:

"O padrão de beleza inatingível. Um modelo de beleza eurocêntrica com cabelos lisos perfeitos e mega hidratados. Isso acaba causando muito dano e problemas na autoestima das pessoas. No caso das mulheres negras, a luta pela autoaceitação do cabelo é dupla. Quanto mais crespo seu cabelo, mais duro você vai ter que batalhar para aceitá-lo ou cair nas graças dos alisamentos químicos e poder se encaixar. Minha mãe alisava o cabelo desde que eu me conheço por gente. Já queimaram o cabelo dela. Quase caiu tudo em prol da luta contra a autoaceitação e pela desaparição do frizz. Eu já lutei muito contra o frizz de meu cabelo, que é cacheado/crespo, muito seco. Meu couro cabeludo não produz tanta oleosidade, então, a pouca oleosidade produzida não consegue chegar até as pontas. Demorei anos para me desconstruir e entender que, mesmo fazendo hidratação, ele continuaria tendo frizz. Então, eu decidi fazer as pazes com o frizz".

Você não verá frizz na TV, Moda ou Cinema (ou mesmo na TV contemporânea – o Instagram), a não ser pelas mãos de figuras vanguardistas, com o olhar mais pra frente. Ainda assim, o frizz será associado ao excêntrico, ao exótico. E não necessariamente a um símbolo de beleza ou algo que seja digno de desejo. As equipes responsáveis pelos cabelos nas produções de fotos são sempre as mais requisitadas no set. Por quê? "Dá uma arrumadinha naquele frizz ali", "você poderia dar jeito neste baby hair?". Baby hair, em pessoas de cabelo crespo, invariavelmente precisa ser colado ao redor na cabeça. Baby hair são fios novos, que estão voltando a nascer. Mas só são aceitos se forem lisos.

É bem verdade que há um movimento de aceitação. A transição capilar se tornou assunto, inclusive de muitas celebridade e influenciadoras, que assumiram seus cachos recentemente. E, goste você ou não, aqui no Brasil são elas que definem os rumos das tendências, sejam elas de moda, beleza ou comportamento. Parece ótimo, né? E é. Mas dá pra acreditar que, ainda assim, a gente precisa estar atenta? Zueira never ends, e a manipulação e controle sobre corpos femininos está sempre presente, ainda que dissimulada. Agora, você precisa ter o cacho perfeito! Bem definido e disciplinado. Nada de frizz! Queria aproveitar e bater cabeça pra Maria Bethânia. Até quando o assunto é cabelo, ela dá aula! Imagino quantas vezes essa diva teve que recusar as sugestões para alisar ou definir os seus cachos. E garanto que foi de modo elegante: "Obrigada, gosto assim mesmo". Como disse acima, passei a enxergar o frizz com um revolucionário, um desertor. Pra verdadeira revolução rolar, quanto mais revolucionários, tanto melhor! Liberem o frizz! Como sempre gosto de pontuar, a aceitação é um caminho longo e árduo, se ainda não tem esse entendimento e vontade em você. Siga, se assim se sente confortável, com alisados e modelados, mas tente seguir sempre com olhos atentos. Muitas vezes, controle e apagamento vêm de lugares inimagináveis.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.