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Você tem a pele perfeita? Eu te faço um apelo: habite sua pele

Getty Images
Imagem: Getty Images
Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista do UOL

10/08/2020 04h00

Ei, você. Você tem a pele perfeita? Quantas vezes você escutou a "pele perfeita" como elogio? Será possível que até nossa pele esteja servindo como uma espécie de mecanismo de controle por aí? Parece que, sim, é possível.
Já falei em outro texto aqui sobre como a pele também serve, além de parâmetro de elogio, como uma espécie de balizador. Muitas vezes ela cumpre até um papel de recorte social e cultural: pele de rica, pele de garota, pele saudável. E é muito louco como as pessoas são capazes de dizer tanto sobre você nessa checagem visual instantânea, né?

Com certeza são especialistas em pele, dermatologistas com um dispositivo de última geração acoplado aos olhos. Só de te olhar já conseguem dar o diagnóstico sobre quem você é, a qual classe social pertence, quantos anos tem, chegando a atingir sherlockianas deduções sobre seus hábitos de cuidados com a pele e higiene.

E aí trago para a roda uma das condições mais comuns para gerar julgamentos: a acne. Depois de ler e ouvir muitos depoimentos, me surpreendeu muito o fato de que os palpiteiros SEMPRE concluem que a pessoa com acne não foi a fundo no tratamento, é relapsa, relaxada, suja, não come direito, não toma água e nunca foi ao dermatologista.

Mas, aparentemente, a "polícia da pele", mesmo com todo seu arsenal de informação, ainda não recebeu a carta dizendo que a acne é uma doença de pele multifatorial. Ou seja, ela pode ser ocasionada por diversas razões, não desiste fácil e quer, literalmente, se meter na pele das pessoas.

Aí, cheia de razão e conhecimento, a fiscal dispara: "E Roacutan? Nunca pensou em tomar? Resolve isso facinho".
Para quem ainda não foi apresentado ao medicamento, Roacutan tem como princípio ativo a isotretinoína e é utilizado para acne severa. Tem uma extensa lista de efeitos colaterais.

Além do ressecamento da pele e mucosas, pode causar sangramentos, alterações do fígado, elevação do colesterol e até episódios de depressão. Então, policial de pele, só um recadinho: medicação é coisa séria, e só quem poderá diagnosticar cada caso e prescrever o tratamento adequado é o profissional da área. Um dermatologista, no caso.

Isso só para citar a acne, tão comum, e não contando com outras tantas condições que inviabilizam a mítica pele de porcelana, como vitiligo, melasma, dermatite ou psoríase, todas elas com suas próprias complexidades.

Acho que aqui vale a pena dar uma esticadinha no pescoço e olhar ao redor. Agora, vamos apertar um pouquinho mais os olhos e tentar ir além, para fora da bolha. Veja se também consegue alcançar o outro lado da ponte. Vamos pensar no Brazil-zil-zil, onde mais de 26% da população vive em situação de pobreza.

Cuidados com a pele, skincare, consultas dermatológicas e tratamentos estão bem longe da realidade da maior parte do povo. Estamos falando de quase 30% de pessoas no país para as quais a "polícia da pele" já deveria se calar, se fechar e ao menos tentar ter um pouco de empatia.

Não é segredo que o culto à pele dita perfeita sempre vigorou para além da indústria da beleza, alcançando a cultura de modo amplo. As descrições sobre musas e heroínas vêm invariavelmente reforçando seus dotes físicos e beleza, e a pele sempre figurou entre um dos itens mais valorizados.

Quantas vezes a literatura enalteceu a pele alva, de alabastro (sim, sim, assunto para muitos outros artigos), lisa e sem manchas? A indústria da maquiagem já oferece um mar de opções para camuflar cor e texturas indesejáveis.

As redes sociais e aplicativos disponibilizam um sem fim de filtros e ajustes, e tudo parece possível. E isso só ajuda a reforçar o culto da "pele perfeita", tornando a tecnologia poderosa aliada na obtenção de tal bem, ainda que na esfera virtual. Em mais uma das tantas ondas virais da internet, os vídeos de cobertura total de pele, com base sendo derramada sobre a pele, se multiplicaram como Gremlins em água, vendendo e propagando mais uma vez essa cruel e inalcançável ideia de perfeição.

Nunca vou deixar de me surpreender com toda a sedução e encantamento que fotos hipertratadas causam nas pessoas. Fotos nas quais o tratamento digital claramente reinou pleno e absoluto. Fotos nas quais poros, pelos, manchas, cicatrizes e olheiras não existem. Delineados cortados na faca, esfumados em perfeita transição digital - e, inclusive, há vídeos que mostram esse trabalho sendo feito.

Muito interessante observar como imagens fantásticas, oníricas e impossíveis exercem tanto fascínio nas pessoas. É como se estivessem olhando para uma versão de super-humano, impossível, perfeitamente impossível. Não consigo deixar de pensar que são modos de afastamento da realidade.

Em algumas doses, fugir do real é até saudável. Só que viver o tempo todo neste modo fantástico e irreal é questionável e pode nos levar para águas perigosas.

Mas sigo acreditando em uma mudança, e faço coro para que marcas, celebridades, influenciadores e a indústria da moda mostrem mais verdades e compartilhem mais histórias reais, que possam despertar identificações possíveis nas pessoas. É urgente e fundamental que elas estejam saudáveis e se sintam cada vez mais confortáveis em seus próprios corpos e peles.

Tá, e por que comecei falando especificamente de acne? Porque, recentemente, têm surgido movimentos de pessoas com acne expondo suas peles sem maquiagem e sem filtros. E, claro, como todo movimento de libertação, está causando frisson nas redes. Muita gente bradando nervosamente, alegando que não se pode romantizar uma doença de pele, que é um absurdo.

Aqui do meu lugar, gosto muito de entender o que está sendo reivindicado, o que está sendo dito. Tento ler, ver e ouvir o máximo sobre o assunto, para, então, quando solicitada, dar minha opinião. Se me permitir, sugiro como exercício que, antes de fazer braço de xícara, tente ir até o fim nos depoimentos de quem está levantando a questão.

Leia a respeito e veja os vídeos. Há tantas camadas envolvidas... Se não estou naquela pele e nunca enfrentei os desafios associados àquela pele, preciso calar e escutar. Para quem quiser saber mais, vale a pena ir atrás das hastags #pelelivre #skinpositivity #pelepossivel.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.