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Até quando está permitido ser bonita?

Sandra Bullock no Golden Globe Awards, em janeiro - Steve Granitz/WireImage,
Sandra Bullock no Golden Globe Awards, em janeiro Imagem: Steve Granitz/WireImage,
Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista do UOL

31/08/2020 11h37

Com a idade, aparecem uma série de descobertas e uma extensa lista de recomendações.

Um dos primeiros eventos acontece no dia seguinte a você fazer 40 anos. Sim, dia seguinte, não estou sendo exagerada. No dia seguinte ao seu aniversário, você começa a ter problemas para enxergar de perto. De repente você precisa apertar os olhos e afastar as embalagens bem longe para conseguir ler aquelas malditas letras miúdas.

Agora, em se tratando de estilo - roupas, maquiagem e cabelo, seria necessário um tratado para abordar as pérolas que a gente é obrigada a ouvir depois que vira o taxímetro dos quarenta. Minissaia e decote? Pode esquecê-los. Saiba que existe uma patrulha do estilo na maturidade.

Uma gente antipática e desagradável que surge do bueiro para lhe dizer o que é adequado ou não para sua idade - "Você vai pintar esse cabelo, né?", "Não vai me deixar esses fios brancos horrorosos, não é?". E a construção da frase é bem assim mesmo, com pronome pessoal que deixa bem claro para quem aquela opinião deveria ser endereçada. Nos homens, cabelos grisalhos são considerados um sinal de charme. Já com a gente, o papo é na base do "vá pintar esse cabelo, sua relaxada!"

O Peterpanzão fofo é tido como o gatão do pedaço. Atores maduros são convidados a atuar em papéis de destaque. Homens mais velhos, inclusive, têm aval da sociedade para continuar pegando as novinhas. Mulheres mais velhas recebem olhares de reprovação ou de piedade quando estão com novinhos, já que certamente o novinho está com interesses para além da beleza, graça e intelecto daquela senhora.

E no capítulo make, o que temos? Temos muitas dicas! Trabalhando com beleza há 17 anos, é comum me perguntarem, "Qual a melhor base para pele madura?" Sempre respondo com um desestimulante e enfadonho"depende". De quem é essa pele madura? Como é cuidada? Quais as condições de saúde da 'proprietária' dessa pele? Em que clima vive? O que essa pessoa está buscando na base? Como ela gosta de sentir e ver a pele?

Pele madura é um universo! Ou seja, há sempre algo muito importante a ser considerado, que é a nossa velha e boa subjetividade. Felizmente, não dá para pôr as pessoas em prateleiras. Mas, infelizmente, em geral, respostas como essa causam muito desagrado. Afinal, as pessoas curtem muito etiquetar as outras com características e modo de usar.

Talvez para facilitar a vida né? "Ai, vamo, rapidinho, me diz aí como resolver isso, não tenho tempo a perder."

Quando o assunto é estilo de maquiagem, a coisa fica ainda mais interessante. Ah, pra pele madura TEM QUE ser uma maquiagem bem levinha, nada de sombras brilhosas, para não evidenciar as rugas, e nem batons escuros. Precisa ser tudo bem discreto e natural. Mais ou menos como se, ao envelhecer, você precisasse também ir se apagando. A vida tá se apagando, e você deve apagar-se junto com ela. Tá quebrado. Sai pra lá! Aqui nada se apaga, não!

Todo um rosário de novas abordagens surge com o avanço da idade: "Nossa, você tá ótima pra sua idade" e "Meu Deus, nem parece que você tem esta idade!" são algumas delas. Por que mesmo? Talvez porque se espera sempre o pior da natureza com o passar dos anos.

E sabem da maior? Normalmente, as pessoas ficam muito orgulhosas e satisfeitas com tais comentários. Porque, na realidade, fomos ensinados que a velhice é algo ruim, feio e degradante. Mas, alto lá, bonitinhos! Por acaso alguém aí acha bom envelhecer? Acompanhar a finitude e a decadência do corpo? Não. Mas, assim como a morte, essa é uma das poucas certezas que temos na vida: a de que o tempo não volta. A menos que você vire parceira do Mr. Gray (do Oscar Wilde, não o do filme cinza, que é Grey), e arrase.

Quando o assunto é a indústria da beleza, temos muito pra prestar atenção. A começar pela nomenclatura anti-aging (anti-idade). Basicamente, milagre em pote, que promete combater rugas, reduzir linhas de expressão e deixar a pele bem firminha e esticada. Um produto que tranquilamente poderia estar inserido no filme "A Morte lhe Cai Bem". O termo anti-idade é auto-explicativo. Afinal, para continuar no jogo da vida, você precisa ser jovem. Gostaria de deixar uma sugestão de leitura nesse ponto: "A Velha Senhora Indigna" de Bertold Brecht.

Sobre as beldades que estrelam campanhas e anúncios, não desejo entrar em minucias, me diga você. O que vê ali? Quanto de você e das pessoas ao seu redor, ou seja, o mundo real, está representado naquele mundo de sonhos?

Exigir das mulheres que permaneçam eternamente jovens é perverso e cruel. Devemos poder escolher livremente o quanto queremos "mexer" ou não em nossos rostos, cada uma com o seu cada qual. Afinal, toda mulher sabe a dor e a delícia de ser o que é.

Mas, como sempre digo, é preciso estar atenta e observar. Quando nos sentimos péssimas em relação a algo relacionado à nossa aparência, de onde vem esse sentimento? Nasceu com a gente ou foi sendo plantado ali? Voltemos aos símbolos e mensagens que a sociedade insiste em nos apresentar como ideias de beleza e perfeição. Cadê as minas de mais de 40, 50, 60, 70 e mais nas campanhas? Elas não compram seus produtos?

Parece haver um discreto movimento de mudança em curso. Nos últimos 20 anos, a revista People, que elege as "pessoas mais lindas do mundo" (resta saber com quais critérios e quais os jurados que definem os rumos da beleza mundial...), deu o título a mulheres como Julia Roberts (três vezes na lista), Gwyneth Paltrow e Jennifer Garner, que receberam a honraria quando já tinham atravessado a casa dos 40 anos. Sandra Bullock tinha 50 quando foi eleita em 2015.

É claro que nem todas as mulheres nessa faixa de idade têm acesso aos tratamentos que as lindas em questão têm, mas convenhamos que é um avanço não termos apenas nomes de cocotas figurando na tal lista.

Etarísmo é um dos termos empregados para definir preconceito contra pessoas velhas, quando são classificadas de imprestáveis, dependentes e decrépitas. Se liga aí, porque, segundo dados do IBGE, o percentual de idosos (pessoas com mais de 60 aos) no Brasil é de 13%. E esse percentual tende a dobrar nas próximas décadas. Alô, marketing! Olha eu de novo aqui. Que tal criar estratégias e planos de comunicação que atinjam públicos para além de jovens?

Baseado nesses dados, seria inteligente não contemplar apenas millenials e geração Z, deixando de fora os perennials (sim, é desse modo que são chamados os 'não jovens' pela Marketinglândia).

As fases do ser humano são infância, adolescência, juventude, maturidade e velhice. Como diria Ariano Suassuna, esse negócio de terceira idade não tá certo não, porque poderia ser comparado ao amadurecimento das frutas - verde, maduro e podre. E, assim como ele, eu não aceito isso não!

Fecho com Dercy Gonçalves, e quero chegar aos 88 falando exatamente o que ela dizia: "Acho linda a minha idade. Acho que eu, com 88 anos, sou espetacular, porque sou mulher que cruza pernas, sou mulher que tem umas pernas perfeitas e sou uma mulher que ainda é comível para quem gosta de comer com pimenta!"

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.