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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Por que não desisto da luta antirracista apesar do ódio nas redes sociais

Deh Bastos, criadora de conteúdo digital - Arquivo pessoal
Deh Bastos, criadora de conteúdo digital Imagem: Arquivo pessoal
Deh Bastos

Deh Bastos

É paulista, publicitária e tem 37 anos. Deh é também educadora antirracista, professora de criatividade em MBA, palestrante, podcaster, colunista da Revista Crescer e fundadora da iniciativa "Criando Crianças Pretas".

Colaboração para Universa

16/03/2021 15h26

Fui convidada por Universa há alguns dias para dar um depoimento em uma reportagem sobre famílias inter-raciais. Uma foto minha com meu marido e meu filho abria essa matéria. Depois da publicação, recebi algumas mensagens de ódio em minhas redes sociais.

Há quase 3 anos criei um perfil no Instagram chamado "Criando Crianças Pretas", justamente para encontrar pessoas que tivessem os mesmos medos, as mesmas vivências e até os mesmos desejos quando o assunto é a educação que recebemos versus a que queremos passar adiante para as nossas crianças. Estar exposta nas redes sociais é uma coisa muito complexa, ainda mais para mim, que sou do contato físico, da troca profunda de olhar e do direito que me dou de não ter certezas absolutas. Ter ali uma caixa de mensagens abertas já me fez chorar diversas vezes, de amor, de dor, de horror, de compaixão e principalmente de identificação.

Já recebi relatos doloridos de famílias com filhos negros, histórias que envolvem até sangue e muitas lágrimas. Em muitas dessas mensagens, fiquei meses sem responder, por não saber o que dizer.

Eu lia, relia, lia de novo e morria de medo de mexer em uma ferida emocional aberta sem ter condições de fechar. Não sou uma profissional de saúde mental, nem uma mulher acadêmica, sou só uma mãe que já foi uma criança preta. E foi sendo mãe que comecei a me esforçar para responder. Quase sempre respondo com um abraço e uma outra pergunta, porque acredito que o que pessoas querem é o mesmo eu: compartilhar, desabafar, conversar.

Mas se me perguntarem o que mais recebo de mensagem em minhas redes sociais, posso dizer sem medo de errar: mulheres negras querendo legitimar a sua negritude ou a de seus filhos. Recebo constantemente de minhas seguidoras fotos das crianças com uma pergunta e um pedido de desculpas: 'me perdoa se eu estiver fazendo isso errado, mas será que eu devo considerar meu filho uma criança preta?'

E esse questionamento nasce de um plano social que foi arquitetado e muito bem executado chamado mestiçagem, pensado para aniquilar o negro do Brasil. Lembro que logo no começo eu ficava olhando fixamente para a mensagem e pensando que eu não poderia deixar aquela pessoa na angústia do silêncio, nesse limbo do não-pertencimento. Mas também não poderia deixar de dizer que numa sociedade racista, não saber se é você negro é uma vantagem e ao mesmo uma dor, por que o racismo não é sobre histórias individuais.

Foi buscando respostas para mim mesma que eu entendi: a certeza que meu filho terá é a de que veio de uma mulher negra, de uma história preta, de uma ancestralidade rica que definitivamente não nasce na escravidão. É assim que eu tenho me esforçado muito para criar um legado para meu filho, são conversas com a família, são estudos profundos sobre o que é de fato o racismo no Brasil, é o convite para a desconstrução dos mitos da democracia racial, da meritocracia, do negacionismo, enfim... É luta porque é coletiva, cheia de pequenas derrotas e de muitos aprendizados.

Quando a gente desliga o celular, quando fica offline, a vida acontece cheia de complexidades, as dinâmicas das relações não separam tão claramente quem está certo de quem está errado na forma de pensar e agir. É gente que a gente ama e é racista, são parentes que apoiam esse governo retrógrado, são colegas de trabalho não dispostos a abrir mão de privilégios em busca de equidade, são maridos machistas, são amigas que distorcem o que é feminismo, é a gente retroalimentando o que condena quando está online... Enfim, a vida sendo real, cruel e quase intacta.

Eu duvido que você também não se questione todo o tempo sobre deletar tudo e ficar longe das redes sociais, mas eu também sei que você igual a mim acredita no poder que a gente tem construindo essas pontes. Aquela mãe, que assim como eu, só queria conversar e me mandou um inbox, ela não é um algoritmo, não é um arroba, não é um número... É uma mulher. E eu sou mais uma mulher, você lendo é mais uma pessoa, as pessoas que você vai mandar esse texto, são mais pessoas de carne, osso e mudanças. E juntos, apesar dos dias e do caos, juntos nós somos mais fortes.

Antes desse, eu escrevi um texto gigante sobre os ataques que recebi após a reportagem de Universa ser publicada. Ele era cheio de citações, estudos e provocações. Mas apaguei. E liguei para a mestra em Educação Luana Tolentino, uma amiga em quem confio muito e perguntei:

- Luana, será que aproveito esse artigo que vou escrever para Universa para responder os ataques violentos que eu sofri?

- Deh, deixemos o ódio pra quem tem.