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"Vai nascer clarinho?": como Meghan, mães negras já ouviram essa pergunta

A publicitária e criadora de conteúdo Deh Bastos com o filho, José, agora com 2 anos e 10 meses, e o marido, o engenheiro Anderson Prado - Divulgação
A publicitária e criadora de conteúdo Deh Bastos com o filho, José, agora com 2 anos e 10 meses, e o marido, o engenheiro Anderson Prado Imagem: Divulgação

Nathália Geraldo

De Universa

10/03/2021 04h00

"Seria muito melhor se ela nascesse com seu cabelo cacheado do que com os fios crespos do pai", "mas ele nem é negro, é moreninho" e até mesmo "será que ele vai escurecer e/ou ficar mais clarinho?". Essas são algumas das perguntas que casais inter-raciais ou de negros de tons de pele diferente escutam quando esperam um filho ou no pós-parto. Pipocam nas redes sociais ou entre familiares e amigos dúvidas e julgamentos - muitas vezes com ares de preocupação - sobre o tom de pele de seus filhos.

Meghan Markle, a ex-duquesa de Sussex, falou abertamente à Oprah Winfrey sobre como a cor da pele de Archie, o primeiro filho dela com príncipe Harry, foi uma questão para a família real britânica antes mesmo de ele vir ao mundo. "Houve várias preocupações e conversas sobre o quão escura seria a pele dele quando nascesse", revelou. A entrevista gerou repercussão a ponto de a Rainha Elizabeth II se pronunciar sobre o tema.

Apesar de o contexto racial ser bem diferente no Reino Unido e no Brasil, a "preocupação" não escapa às famílias brasileiras nestas situações. Universa ouviu quatro mulheres negras sobre como lidaram com esses tipos de comentários e de situações ao terem filhos. A seguir, elas refletem sobre o quanto a "preocupação" com a cor da pele dos bebês diz sobre o racismo e o valor que se dá à pele branca em uma sociedade historicamente racista como a nossa.

"Falavam, em tom de elogio, que eu iria clarear a família"

dayse rodrigues - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Dayse Rodrigues e família. Ela fala sobre como tom da pele de filhos foi colocado em questão na gravidez
Imagem: Arquivo pessoal

"Eu sou negra de pele clara, o que chamam de pardo, e o pai dos meus três filhos é africano sem miscigenação, com pele retinta, lábio grosso, nariz largo, cabelo crespo.

Nas três gestações, a pressão maior era em relação à cor deles. A família da minha mãe, que é de pessoas brancas, dizia: 'Você vai clarear a família', como se isso fosse um elogio, e 'será que vai nascer clarinho?', com uma esperança de que isso acontecesse... Só que não tinha como, porque eu sou miscigenada, meu pai é negro, e o pai dos meus filhos é africano.

Com os meninos, Pierre e Thierry, traziam o desejo de eles puxarem meu nariz, que é mais afilado. Quando engravidei de Sophie, diziam que seria bom se ela nascesse com o meu cabelo, que é cacheado.

Era uma preocupação excessiva com isso, porque o do pai dela tem cabelo crespo. E o que acreditam é que menino tem a possibilidade de raspar... No caso dela, não era nem que o cacheado fosse o sonho de alguém, mas tem mais aceitação do que o crespo.

De lá para cá, enquanto eles cresciam, houve muita mudança. Até porque trabalho como consultora de diversidade racial, e os mesmos familiares, hoje, me perguntam sobre casos de racismo, por exemplo. Além disso, faço questão de reforçar essa questão. No aniversário de dois anos dela, o tema era uma boneca africana - que era igualzinha à Sophie! Também fizemos do Pantera Negra."

Dayse Rodrigues é consultora de diversidade racial na Ubuntu Consultoria. Mãe de Sophie, 4 anos, Pierre, 12, e Thierry, 6.

"Diziam que ele não ia ser negro, ia ser moreninho"

Anderson Prado e deh bastos - Divulgação - Divulgação
Deh Bastos, Anderson e o filho José, na festa de aniversário em que criança foi "pequeno príncipe preto"
Imagem: Divulgação

"Eu tive letramento racial [o entendimento das tensões raciais] com minha maternidade. Naquele momento percebi que meu filho José não poderia levar tanto tempo para entender o que é ser uma pessoa negra. Meu esposo é do interior de São Paulo, de uma família branca, tradicionalmente italiana. Antes do nosso filho nascer, havia a negação do racismo. As pessoas comentavam coisas como: 'Seu filho não vai ser negro, vai ser moreninho', como se fosse um elogio. Só que isso deslegitimava a negritude dele e a minha também.

Quando ele fez um ano, resolvi mandar um recado pela festa de aniversário. Fiz com o tema O Pequeno Príncipe negro no reino de Wakanda. Na festa, tinham muitos brancos, uma coisa que acontece quando você ascende socialmente.

Depois de cantar parabéns, eu falei para todo mundo que a negritude do meu filho não seria mais negligenciada naquele lugar, que a ancestralidade dele era preta. O papo de 'moreninho' não ia mais rolar.

Depois desse episódio, inclusive, eu criei o perfil Criando Crianças Pretas. No Brasil, a gente não tem uma conversa profunda e séria sobre colorismo, e ainda temos a falsa democracia racial, que diz que não somos brancos nem negros... O recorte é totalmente diferente do Reino Unido, onde o bebê da Meghan e do Harry nasceu. Aqui, temos um racismo de marca.

Depois da festa, as coisas mudaram. Mesmo porque eu trabalho com isso. A família tem noção de que a questão racial faz parte da vida do nosso filho, e acaba dando livros, desenhos e mostra músicas representativas porque é o que fazemos. Desde quando decidi o tema da festa, meu marido embarcou 100% no tema e é meu aliado nisso."

Deh Bastos é publicitária e criadora do perfil Criando Crianças Pretas. Mãe de José, de 2 anos e 10 meses. Casada com o engenheiro Anderson Prado.

"Eu queria me ver naqueles bebês"

monique - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Monique fala sobre casamento inter-racial e chegada dos filhos Nicholas, Alessandra Carolina e Victoria
Imagem: Reprodução/Instagram

"A história da Meghan mexeu bastante comigo, pelo fato de ela ser negra e estar em um relacionamento com um homem branco.
Mas nossas coincidências param por aí, porque eu fui muitíssimo bem recebida pela família do meu marido, Joerg, que é alemão.

A gente namorou em 2003, e em 2004 eu viajei para o país dele, mas não fui com medo. Até porque já sabia que tinham fotos minhas pela parede, já estavam na casa toda. Meus sogros não abririam a porta e se impressionariam por eu ser negra.

Não ouvi esse tipo de comentário de 'ainda bem que nasceram mais claros' e nem fui vítima de olhar torto. Talvez pelo fato de eu ser uma negra retinta. Pessoas que têm a pele um pouco mais clara talvez ouçam mais esse comentário horroroso.

O que aconteceu comigo, em um processo particular, foi que os três nasceram com uma pele muito clara. E, para mim, receber uma criança com uma pele tão diferente da minha nos braços me causava muito estranhamento.

Um lado meu dizia que queria me ver naqueles bebês e me preocupava se eles seriam claros demais a ponto de não serem vistos como filhos meus. Ao mesmo tempo, entendia que se eles fossem mais claros do que eu, teriam uma vida menos difícil.

Foi complicado. Sem contar que, no hospital, sempre ficam na dúvida se a criança é minha mesmo. Tão brancas, com uma mãe tão negra.

Eu olhava para elas com a pele muito mais clara, num limbo étnico, e pensava que quando eles tivessem filhos, eu seria aquela referência do "minha avó era negra", e as pessoas não iriam entender.

Hoje, vejo que isso vinha de uma culpa pelo fato de eu estar me relacionando com um homem branco, daquele discurso de que os relacionamentos inter-raciais são "dormir com o inimigo", como já recebi de comentários na internet. De quem tenta desvalorizar minha fala pelo fato de eu estar com um homem branco. Mas nunca questionaram algo sobre minhas crianças.

Meu sogro alemão cisma em dizer que nossos filhos têm o cabelo cacheado por causa dele, que teve o cabelo assim quando era criança. E eu acho isso de um carinho, uma forma de inclusão muito válida."

Monique dos Anjos é criadora de conteúdo digital, jornalista, mãe de Victoria, 8 anos, Nicholas Patrick, 5 anos, Alessandra Carolina, 1 ano. Casada com o diretor financeiro Joerg Dreisewerd.

"A ansiedade das pessoas é para saber a cor que Martin vai ficar"

Bela Reis, Raphael e o filho Martin - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Bela Reis, Raphael e o filho Martin
Imagem: Reprodução/Instagram

"No caso do Martin, existe uma expectativa de quando ele vai escurecer. Que ele seria mais claro que o pai isso já era esperado, por conta da minha cor. Bebês em geral nascem brancos ou com a cor de pele clara - e ele nasceu rosado, inclusive - e vão escurecendo. Essa produção de melanina é irregular até os dois anos, depois é que começam a chegar na cor que vão ficar.

Muita gente ficou surpresa de ele ter nascido muito branco, rosa. Agora, ele já está ficando da minha cor. Na internet, já recebi um comentário perguntando se eu tinha ficado assustada de ele ter nascido branco.

Uma menina comentou de um texto que eu escrevi na gravidez, falando que tinha medo de ter um filho negro no Brasil, e perguntou: 'mas, e agora que ele nasceu branco?'

Mais recentemente, com ele escurecendo um pouquinho, comecei a receber mensagens no Instagram, dizendo: 'Ah, está ficando mais pretinho, a melanina está chegando nele'. As pessoas estavam aliviadas e ansiosas para ele ficar mais preto.

Sabemos que quanto mais escura é a pele, mais violento é o racismo. Mas, ele será um menino negro independentemente da cor da pele que tiver. E vai sofrer racismo na vida. Não fiquei pensando que ele poderia ter uma pele mais clara para sofrer menos racismo. Porque isso é irrelevante no meio que a gente vive. Por conta da nossa condição financeira familiar, ele provavelmente vai ser uma das poucas crianças negras em alguns lugares, como eu fui, e como o pai dele é, como médico. Eu espero estar errada e que ele não passe por nada disso, mas esse medo existe.

No nosso caso, a ansiedade das pessoas é para saber a cor que Martin vai ficar. Como é possível o Raphael, um homem negro de pele retinta, com um filho de pele muito mais clara que a dele? É como se a mistura genética não pudesse produzir todas as tonalidades em um espectro entre eu e ele.

O curioso nesse caso é como que isso, para os pais, é irrelevante, e para as pessoas de fora (tanto as que querem que a criança seja o mais clara possível, quanto aquelas que desejam que a criança seja mais escura) é motivo de importunação e comentários escrotos.

E isso mostra a dificuldade de as pessoas lidarem com a questão racial."

Isabela Reis é jornalista e criadora de conteúdo. Mãe de Martin, recém-nascido, parceira do médico Raphael Oliveira.