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E se humanos tivessem superpoderes? Ter cérebro esmagado seria risco real

O mundo melhoraria se humanos tivessem superpoderes? - Arte UOL
O mundo melhoraria se humanos tivessem superpoderes? Imagem: Arte UOL

Rodrigo Lara

Colaboração para Tilt, em São Paulo

17/08/2021 04h00Atualizada em 17/08/2021 16h47

O sonho de qualquer fã de super-heróis é o mesmo: poder trazer para a vida real poderes e características de personagens fictícios. Imagine só poder voar, ter uma força gigantesca, correr em altíssimas velocidades ou, ainda, aumentar e diminuir de tamanho conforme a situação?

Ainda que humanos com essas capacidades, por motivos óbvios, não passem de obras de ficção, nada nos impede de imaginar como seria ter esses poderes na vida real. E, surpreendentemente, o mais provável é que despertar habilidades do tipo é algo que poderia fazer mais mal do que bem. Na verdade, a grande maioria desses poderes faria com os donos acabassem mortos.

Crescendo além da conta

Imagine só como seria prático ter a habilidade do Homem-Formiga: vai jogar basquete ou vôlei com seus amigos, que tal crescer um pouco? Derrubou algo embaixo do fogão? Sem problemas, basta encolher o próprio corpo para pegar o objeto perdido.

O maior impedimento aqui seria conseguir aumentar de tamanho de forma mais contundente. A "culpa", no caso, é dividida entre a Lei do Quadrado-Cubo de Galileu e da própria configuração do corpo humano. O resultado é que os ossos se quebrariam e o coração e os pulmões não seriam capazes de distribuir e capturar gás oxigênio para todo o corpo de modo eficiente.

Essa Lei tem o seguinte enunciado: quando um objeto é submetido a um aumento proporcional em tamanho, seu novo volume é proporcional ao cubo do multiplicador e sua nova superfície é proporcional ao quadrado do multiplicador.

Vamos considerar que o Homem-Formiga Scott Lang aumente suas dimensões lineares em quatro vezes e mantenha sua densidade. Neste caso, ele será quatro vezes mais alto, seu volume será 64 vezes maior e a área da seção dos ossos será 16 vezes maior. Como a densidade é mantida e seu volume é 64 vezes maior, sua massa também será 64 vezes maior.

Os seus ossos na vida real não passarão por uma mudança tão grande de estrutura capaz de suportar o aumento de peso.

Com a altura maior, o volume do coração também irá aumentar. Porém, haverá uma sobrecarga uma vez que o órgão terá que bombear um volume maior de sangue. Isso fará com que ele necessite de muito mais energia para fornecer oxigênio suficiente para seu corpo.

Somando a esse fato, o volume do pulmão (64 vezes maior) e a sua superfície de captação (16 vezes maior) afetarão diretamente a capacidade humana de captar gás oxigênio de modo eficiente.

Velocidade fatal

Atingir altíssimas velocidades como o Flash e o Superman, da DC, e o Mercúrio, da Marvel, parece algo extremamente conveniente. É inegável que seria bacana poder viajar milhares de quilômetros em poucos segundos a hora que bem entender. Ou, simplesmente, não se atrasar para nenhum compromisso do outro lado da cidade mesmo saindo de casa de última hora.

Se acelerar não parece um grande problema — à exceção, claro, do efeito do atrito do ar com o corpo, que poderia nos queimar ou, até mesmo, nos esmagar —, uma situação provavelmente fatal aconteceria assim que você resolvesse parar.

Considerando que você esteja a uma velocidade próxima da do som (1224 km/h) e resolvesse parar de forma abrupta, seu cérebro acabaria esmagado contra o próprio crânio. E ele não seria o único afetado, uma vez que outros órgãos certamente sairiam danificados devido à desaceleração repentina.

Hulk sem Bruce

Afetado por raios gama, o cientista Bruce Banner acabou sofrendo uma mutação que o transforma no Hulk, um gigante verde que tem força proporcional ao seu temperamento explosivo. Mas o que aconteceria se um ser humano do mundo real fosse exposto a esse tipo de radiação?

Os raios gama são ondas eletromagnéticas de alta frequência emitidas geralmente pelo núcleo de isótopos radioativos. Quando células são expostas a esse tipo de radiação, seu DNA pode sofrer mutações que alteram o funcionamento celular.

Na prática, porém, o resultado do que aconteceu com Banner seria extremamente raro, pois a grande maioria das mutações gera perda de função ou não altera significativamente o metabolismo da célula mutada.

Para piorar, é impossível que todos os trilhões de células de um mesmo ser humano exposto à radiação tenham sofrido exatamente as mesmas mutações, já que isso ocorre de forma aleatória na informação genética.

Por fim, uma vez que uma célula sofre mutação, é impossível que ela seja retornada ao seu estado anterior. Ou seja: ainda que um humano ganhasse uma forma poderosa ao sofrer um bombardeio de radiação, essa seria a forma definitiva da pessoa. O mais provável seria a ocorrência de doenças como o câncer.

Sem soro especial

Um dos momentos mais impressionantes da história do Capitão América é quando o franzino Steve Rogers se submete à injeção do soro que cria um soldado que imediatamente fica musculoso e adquire capacidades sobre-humanas, como força gigantesca, sentidos mais aguçados, envelhecimento suspenso, imunidade à fadiga e capacidade de se curar de forma rápida.

Na vida real, um paralelo mais próximo do soro desse soldado resistente seriam os anabolizantes. Trata-se de hormônios sintéticos capazes de, dentre outras funções, estimular o crescimento de alguns tecidos do corpo como os músculos.

O problema aqui é que o consumo dessas substâncias trazem mais efeitos negativos do que positivos, já que eles podem desencadear adoecimento do fígado, hipertensão, problemas cardíacos e até mesmo alterações de humor. O único uso seguro dessa substância é em casos de recomendação médica para o tratamento de alguns tipos de câncer.

Voa, mas não muito alto

Um dos poderes mais encantadores quando falamos de super-heróis é a capacidade de voar. Mais do que qualquer outro poder, o voo é algo que encanta e certamente resolveria diversas situações nas quais precisamos nos locomover.

Pena que sair voando por aí poderia trazer uma série de problemas, especialmente se você fosse muito alto. Isso porque, quanto mais subimos, mais rarefeito e mais frio fica o ar, o que gera um impasse: é uma situação na qual o corpo precisa de mais energia para se manter aquecido, mas ao mesmo tempo há menos oxigênio disponível para ser consumido.

É importante lembrar, também, que o gás oxigênio é fundamental para a ocorrência da respiração celular e, uma vez que ele esteja menos disponível, as células do corpo teriam dificuldade em adquirir energia proveniente da quebra do alimento, tornando muito mais difícil os processos metabólicos que demandam energia.

Por fim, há a questão da pressão atmosférica, que é menor em altas altitudes. Isso tende a causar inchaço nos tecidos do corpo, sendo que a expressão mais grave desse fenômeno ocorre no caso do edema pulmonar, quando fluidos se acumulam no pulmão e atrapalham seu funcionamento adequado.

Caso haja uma variação muito rápida de pressão, como numa subida rápida, a pessoa pode estar sujeita à ocorrência de embolia gasosa, quando pequenas bolhas de gás se formam na corrente sanguínea e atrapalham a circulação. Tanto o edema pulmonar quanto a embolia podem levar a pessoa à morte.

Fontes consultadas:

  • Lydia Getschko, professora de biologia da Escola Móbile.
  • Emanueli Gama, professora de química da Escola Móbile.
  • João Mendes, professor de matemática da Escola Móbile.
  • Márcio Tamari, professor de matemática da Escola Móbile.
  • Hugo Reis, professor de física da Escola Móbile.