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Tardígrados são disparados de arma para testar resistência a queda na Lua

Fotografia mostra detalhes do tardígrado, espécie considerada por cientistas a mais resistente do planeta - Eye Of Science/SPL
Fotografia mostra detalhes do tardígrado, espécie considerada por cientistas a mais resistente do planeta Imagem: Eye Of Science/SPL

Nicole D'Almeida

Colaboração para Tilt

21/05/2021 11h03

Os incríveis tardígrados foram postos à prova mais uma vez. Para testar a capacidade destes animais microscópicos de sobreviver a "quase tudo", cientistas resolveram dispará-los de uma arma em alta velocidade.

Se você ainda não conhece essas criaturas, elas são as mais resistentes do mundo. Conhecidas também como ursos d'água e leitões musgo, têm oito patas, cerca de 0,5 milímetro de comprimento e vivem em ecossistemas terrestres e aquáticos em quase todos os lugares.

O mais incrível desses bichinhos é que eles conseguem sobreviver a condições verdadeiramente insanas —como temperaturas de -270°C até 150°C. Eles suportam o vácuo do espaço, radiação cósmica e podem viver 30 anos sem água e sem comida.

Quando as condições ficam ruins, eles podem secar, reconfigurar seus corpos e entrar em animação suspensa —chamada de dessecação— por anos.

Esses animais "indestrutíveis" ficaram conhecidos em 2019, quando uma espaçonave com alguns deles pousou na Lua, gerando especulações sobre a sobrevivência deles em nosso satélite.

Tardígrado

Mas, vamos ao estudo recente: existe uma teoria chamada panspermia, que diz que microrganismos encontrados na atmosfera seriam capazes de se desenvolver ao atingirem um planeta adequado.

Alejandra Traspas e Mark Burchell, cientistas da Universidade de Kent, no Reino Unido, fizeram então um experimento para descobrir se organismos semelhantes aos tardígrados poderiam sobreviver a certas condições no espaço —como na nossa Lua, na lua marciana de Fobos e na água salgada ejetada de mundos oceânicos gelados da lua Europa (de Júpiter) e da lua Enceladus (de Saturno).

Os pesquisadores usaram então, uma arma de gás leve de dois estágios. A pólvora e um gás leve, como hidrogênio ou hélio, sob pressurização rápida são usados para atingir velocidade de até 8 quilômetros por segundo.

Duas ou três cobaias de Hypsibius dujardini, uma espécie de tardígrado de água doce, foram congeladas para induzir o estado de hibernação, conhecido como tun.

As criaturas foram carregadas na arma e disparadas contra alvos de areia em uma câmara de vácuo em velocidades de 0,556 a 1 quilômetro por segundo.

O alvo de areia foi despejado em uma coluna de água para isolar os tardígrados. Eles foram separados e observados para determinar quanto tempo levariam para reviver do estado de tun. Como controle, 20 tardígrados foram congelados e não disparados de uma arma.

Os animais de controle se recuperaram após 8 ou 9 horas. Já os tardígrados que sofreram o impacto e sobreviveram à velocidade de 825 metros por segundo demoraram mais a se recuperar, sugerindo danos internos. "Nos tiros de alta velocidade, apenas fragmentos de tardígrados foram recuperados", escreveram os pesquisadores em artigo publicado na revista científica Astrobiology.

Os resultados sugerem que a velocidade interfere na capacidade de sobrevivência dos microorganismos, o que restringe a chance de sobrevivência a um impacto interplanetário.

O estudo não responde à pergunta se os bichinhos sobreviveriam após a queda na Lua, mas mostra que parte do material ejetado da Terra atingiria a Lua na faixa de sobrevivência tardígrada. Já nas luas geladas e em Marte, eles dificilmente sobreviveriam.

Os pesquisadores agora estudam mitigar as pressões de choque geradas, tentando reduzir as velocidades com um coletor de aerogel ou um orbitador. Tudo isso para simular viagens interplanetárias e quedas em outros planetas e luas.

"O fato de estruturas complexas sofrerem danos em eventos de choque não é uma surpresa", escreveram os pesquisadores. "A peculiaridade aqui pode ser que a recuperação e a sobrevivência ainda são possíveis até pouco antes dos eventos de impacto começarem a quebrar os tardígrados."