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Como fake news se tornaram um problema sério no Brasil? Saiba evitá-las

tommy/Getty Images
Imagem: tommy/Getty Images

Fausto Fagioli Fonseca

Colaboração para Tilt

09/11/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Uma fofoca mal contada e uma fake news não são a mesma coisa
  • Fake news simulam notícias, por vezes com estilo jornalístico, para enganar
  • Se cheira a notícia falsa, por que mesmo assim as pessoas compartilham?
  • Basicamente porque as pessoas tendem a acreditar no que reforça suas crenças
  • Existe hoje uma cruzada em várias frentes para lutar contra o fenômeno

Fake news é um termo que caiu na boca do povo, mas pouca gente sabe direito o que ele significa. E isso pode ser muito ruim em momentos como o atual, em que a informação de qualidade ficou mais valiosa, em meio a uma pandemia de coronavírus e as eleições brasileiras para prefeito e vereador. Por isso, é importante entender como o problema cresceu tanto no Brasil e como podemos fazer nossa parte para evitá-lo.

Definir o que é ou não uma fake news é um pouco problemático para alguns. A ONG Coalizão Direitos na Rede, que reúne ativistas dos direitos digitais conseguiu chegar a uma boa resposta.

São conteúdos que viralizam nas redes sociais simulando uma notícia, com estilo jornalístico, mas divulgando informações comprovadamente falsas, muitas vezes com discursos de ódio e sem autoria
Coalizão Direitos na Rede, em um guia para proteção de direitos nas campanhas eleitorais

Com essa definição em mente, você certamente consegue se lembrar alguma fake news recebida ou compartilhada nas redes sociais. Casos recentes não faltam.

Em 2018, só nos dois meses que antecederam o primeiro turno das eleições majoritárias que elegeram o presidente Jair Bolsonaro, o projeto Comprova checou e desmentiu 106 fake news. Algumas delas já fazem parte do imaginário do eleitor (vai dizer que você nunca ouviu falar na tal da mamadeira?).

As fake news também marcaram 2016, ano das eleições dos EUA vencidas por Donald Trump e o referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia (o Brexit). Chegamos a este ano e as fake news sobre coronavírus foram tantas que a OMS (Organização Mundial de Saúde) cunhou até um novo termo: infodemia.

"Essas campanhas digitais baseadas na desinformação já ocorrem desde a primeira década do século. O marco zero do uso maciço de dados e algoritmos para distribuir notícias falsas talvez seja o Brexit, no Reino Unido", explica Hartmut Glaser, secretário executivo do CGI.br (Comitê Gestor da Internet), órgão que cria diretrizes sobre o uso da internet no Brasil.

No ano do referendo britânico, um artigo da revista The Economist citava como exemplo de "pós-verdade" —outro sinônimo de fake news— a informação falsa de que a permanência da Grã-Bretanha na União Europa "custava 350 milhões de libras por semana aos cofres públicos" e que o dinheiro —após a eventual saída do bloco— seria destinado ao serviço público de saúde.

Quanto às eleições dos EUA em 2016, Donald Trump afirmava na época que o certificado de nascimento de Barack Obama seria falso, ou que o pai de seu rival republicano Ted Cruz teria estado com Lee Harvey Oswald antes do assassinato de John Kennedy, replicando uma história não comprovada publicada por um tabloide americano. Nesta semana, Trump ainda declarou várias vezes que venceu a eleição contra Joe Biden mesmo que a apuração dos votos não tenha sido encerrada.

Afinal, por que tanta gente compartilha fake news?

Três em cada quatro brasileiros têm acesso à internet no país. São 134 milhões de pessoas, de acordo com uma pesquisa deste ano do Centro Regional para o Desenvolvimento de Estudos sobre a Sociedade da Informação. Em outras palavras, 74% da população brasileira está exposta a notícias falsas e aos danos que elas podem causar.

A maioria das fake news chega às nossas redes sociais e serviços de mensagem em forma de áudios, vídeos, fotos, memes e textos simples, e isso não é por acaso. Tais formatos oferecem um entendimento simples e superficial sobre determinado tema, por vezes complexo.

Esse material consegue atingir mais pessoas a uma velocidade muito maior do que uma notícia verdadeira. Uma pesquisa feita em 2018 pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), nos EUA, analisou 126 mil fake news espalhadas no Twitter por 3 milhões de pessoas de 2006 a 2017 e viram que as notícias falsas alcançaram muito mais pessoas do que a verdadeira.

A mentira se espalhou significativamente mais longe, mais rápido, mais profundamente e mais amplamente do que a verdade em todas as categorias de informação, e os efeitos foram mais pronunciados para notícias políticas falsas do que para notícias sobre terrorismo, desastres naturais, ciência, lendas urbanas ou informações financeiras
Soroush Vosoughi, Deb Roy e Sinan Aral, pesquisadores do MIT em artigo científico

Especialistas têm apontado causas para o fenômeno das fake news, como:

  • Viés de confirmação

O termo se refere a uma tendência de as pessoas aceitarem informações que confirmem o que elas acreditam ser a verdade e ignorar informações que desafiem suas crenças. Esse viés, segundo os pesquisadores, é formado no início da vida, quando a criança aprende a distinguir entre fantasia e realidade.

Além disso, quando se trabalha em um universo ambíguo, as pessoas tendem a preencher os vazios com a própria lógica, segundo Gabi Juns, coordenadora de programa do Instituto Update, organização civil que pesquisa e fomenta a inovação política na América. "Mas histórias que produzem lógica não são as mesmas para todos —nem o método de checagem e os cuidados ao compartilhá-las", diz.

Assim as fake news podem se tornar um grande telefone sem-fio. E se engana quem pensa que esse é um fenômeno novo. Em 1944, o psicólogo Robert H. Knapp escreveu um artigo em que tratava dessa "Psicologia do Rumor" e dos seus efeitos na produção de histórias falsas na Segunda Guerra Mundial.

  • Robôs e algoritmos

Há, ainda, a questão dos conteúdos automatizados, ou seja, aqueles que são compartilhados não por pessoas de carne e osso mas por robôs (os famosos "bots"). Dotados de inteligência artificial, eles são softwares que simulam ações humanas nas redes sociais e aplicativos de mensagens como o WhatsApp, compartilhando conteúdo falso.

Tais ações são muitas vezes contratadas com intenções políticas e eleitorais, e o WhatsApp tem processado os responsáveis. Mas ainda é um começo, pois as empresas continuam operando por baixo dos panos.

Já as redes sociais até pouco tempo eram uma terra sem lei para fake news. Seus algoritmos criam o que os estudiosos chamam de bolhas de opinião, onde o leitor consome apenas aquilo que oferece maior afinidade e ignora dados e opiniões que não o interessam. Ainda que as bolhas ainda existam, recentemente ações mais incisivas foram tomadas, como desmontar redes de fake news da direita no Brasil.

  • Pacote ilimitado para redes sociais

Outra questão que, segundo especialistas, tem contribuído para a consolidação das fake news no Brasil é o fato de que o celular é o principal meio de acesso à internet no país e muita gente contrata apenas pacotes de dados com acesso ilimitado a apps como WhatsApp, Twitter, Facebook e Messenger.

Nesses casos, terminado o pacote de dados, a pessoa só consegue acessar esses aplicativos. Assim não é possível abrir links, pesquisar na internet ou ler notícias em portais jornalísticos ou de outras fontes.

Nesse cenário, fica mais difícil conseguir comprovar se aquela notícia que a tia enviou do grupo da família no WhatsApp é verdadeira ou falsa.

Bia Barbosa, mestra em políticas públicas e integrante da Coalizão, explica que esses pacotes, por mais que ampliem o acesso às redes, acabam gerando distorções quanto ao acesso à informação.

"Se você tem um chip pré-pago, tem acesso ilimitado ao WhatsApp, mas não pode clicar nos links. Recebe a manchete, mas não tem acesso à notícia completa. Isso favorece o compartilhamento de notícias falsas. (...) É por isso que diversas organizações e especialistas têm denunciado à Justiça que esses acordos violam a neutralidade de rede prevista no Marco Civil da Internet", afirma.

A quem cabe combater as fake news?

Existe hoje uma cruzada para lutar contra as fake news e seus efeitos. Além das agências de checagem de notícias e projetos como o Comprova —do qual o UOL faz parte com o UOL Confere—, as próprias gigantes de tecnologia têm se movimentado para coibir o compartilhamento de notícias falsas.

O WhatsApp —que pertence ao Facebook— ganhou esse ano um chatbot para checar se notícias sobre coronavírus são falsas ou enganosas, e o Twitter têm colocado alertas de desinformação em postagens do presidente dos EUA, Donald Trump.

Do outro lado, o governo têm legislado sobre o tema. Aqui no Brasil, o projeto de lei 2630/2020, mais conhecido como o PL das Fake News, foi aprovado no Senado e tramita na Câmara dos Deputados. Pretende combater e penalizar o envio de notícias falsas em redes sociais e serviços de mensagem. Mas temas como rastreabilidade, penas, transparência e participação das ferramentas de busca na lei têm causado idas e vindas.

Por parte da sociedade civil organizada, grupos trabalham para pressionar o poder público a fiscalizar e punir quem dispara notícias eleitorais falsas. "Cabe à Justiça Eleitoral identificar e punir as empresas que disparam mensagens em massa a partir de sistemas automatizados, efetivando processos de investigação e responsabilização das fábricas de desinformação", afirma Bia Barbosa.

Segundo ela, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) precisa empregar a legislação existente para enfrentar a desinformação. Desde 2017 uma alteração na lei federal 9.504/1997 e a resolução 23.610 do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) regulam a propaganda na internet.

A Coalizão Direitos na Rede também chama as operadoras de telefonia à responsabilidade. A entidade afirma que Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) precisa garantir espaços de acesso público à internet, sobretudo em localidades onde ele é precário ou inexistente, principalmente durante o processo eleitoral.

Entidades que lutam contra a desinformação também reivindicam que, durante as eleições, as empresas de telecomunicações não bloqueiem a navegação dos usuários após o fim das franquias de dados, apenas reduzindo a velocidade da navegação.

Além disso, também cabe a nós usuários de redes sociais e serviços de mensagens tomarmos para nós a responsabilidade de combater notícias falsas e desinformação.

Para isso, o CGI.br publicou um guia intitulado "Internet, Democracia e Eleições" para gestores públicos e usuários, com diretrizes para "orientar a construção de políticas públicas e ações de combate à desinformação, além de dicas sobre conduta responsável na internet.

Oito dicas para não cair como um patinho

Mariana Fernandes, coordenadora de comunicação e conteúdo do Politize! —organização que informa usuários sobre política institucional e social—, deu oito dicas do que nós, usuários, podemos fazer para não se deixar enganar por notícias falsas.

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