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Entregadores fazem 2ª greve nacional em meio a pequenas vitórias e divisões

Gabriel Francisco Ribeiro

De Tilt, em São Paulo

25/07/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Entregadores de apps fazem nova paralisação nacional neste sábado
  • É o 2º ato da categoria neste mês - em 1º de julho, diversas capitais tiveram atos
  • Pauta continua a mesma: melhores remuneração e condições de trabalho
  • Novo ato ocorre em meio a pequenas vitórias dos entregadores e divisões com sindicato

Os entregadores de aplicativos fazem neste sábado (25) a segunda paralisação nacional em julho contra as plataformas. O movimento, que tem pautas como melhores condições de trabalho e remuneração para a categoria, começa a ganhar algumas vitórias, ainda que pequenas, e também passa por divisões.

A primeira manifestação ocorreu no dia 1º de julho e contou com adesão em vários Estados brasileiros. Na época, o movimento rendeu protestos físicos grandes em capitais, como São Paulo, e afetou a dinâmica dos pedidos em restaurantes e nas plataformas.

A dúvida sobre a manifestação deste sábado é se conseguirá atrair tantos entregadores quanto no ato anterior, quando o movimento repercutiu tanto na imprensa quanto em grupos de WhatsApp de entregadores, por onde é feita a comunicação e onde são tomadas decisões sobre a paralisação.

A exemplo do primeiro ato, a manifestação rejeita dizer que tem "lideranças", e por isso não fala em nome de associações, sindicatos, partidos e afins. As decisões são tomadas em grupo por meio de votações. Foi assim que a data deste sábado foi escolhida.

"A expectativa é bem grande. Sinto um pouco de desmotivação de alguns, mas promete ser grande. Estou vendo alguns Estados mais ativos por causa do oportunismo de sindicatos. A categoria optou pela não ajuda de sindicatos porque foram oportunistas no primeiro breque. É um movimento sem partidos, da categoria", afirma a Tilt Alessandro da Conceição, conhecido como "Sorriso", um dos organizadores em Brasília e que tenta tirar do papel a AmaeDF (Associação dos Motofretistas Autônomos e Entregadores do Distrito Federal).

Para Edgar Silva, presidente da Amabr (Associação dos Motofretistas de Aplicativos e Autônomos do Brasil), a escolha por sábado pode ser pela data ser mais movimentada no delivery e assim afetar mais os apps.

"Minha expectativa é que seja o dobro do dia 1º. Mas existem muitas variáveis que podem atrapalhar. Uma delas é ser sábado. Foi feita uma eleição entre entregadores e acharam que sábado era o melhor dia. Pode ter a ver com ser o dia com mais entregas. Geralmente é um dia ruim para administrativo, mas delivery sai muita entrega", diz "Gringo", como é conhecido Silva.

Os entregadores planejam atos físicos em algumas cidades. Em Brasília, eles sairam às 9h da torre digital de TV em Brasília em um percurso até o Congresso. Já em São Paulo, há a previsão de um encontro às 15h no Pacaembu.

Confusão de datas e divisão

Inicialmente, o segundo "breque dos apps" havia sido marcado para o último dia 12 de julho, data escolhida em votação que circulou nos grupos. Após saberem que haveria protesto contra ou a favor do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no mesmo dia, decidiram mudar a data.

Enquanto isso, o SindimotoSP (Sindicato dos Mensageiros Motociclistas, Ciclistas e Mototaxistas Intermunicipal do Estado de São Paulo) fez uma manifestação própria no dia 14 de julho. Em menor número do que em 1º de julho, motoboys circularam pela cidade e fizeram atos em frente à Câmara dos Vereadores e ao TRT (Tribunal Regional do Trabalho).

Para o sábado, o sindicato diz apoiar as manifestações, mas que não realizará nenhum ato físico, já que julga ter feito seu movimento no último dia 14 de julho. A "divisão" entre o sindicato e a organização da greve, que já ocorria antes do primeiro protesto, ficou mais escancarada neste novo ato, já que não haverá unificação do movimento.

"O sindicato ajudou a organizar a manifestação do dia 1º. No dia 14 fizemos a segunda paralisação. Sobre o evento do dia 25, o sindicato sempre apoiará o trabalhador em suas reivindicações, mas não participará por ver neste momento pessoas tentando usar a categoria para fazer politica contra governos", afirma à reportagem Gerson Cunha, presidente interino do SindimotoSP.

Cunha está atualmente no cargo no lugar de Gilberto dos Santos, conhecido como Gil. A Tilt, alega que o movimento dos entregadores tem influências de partidos como Psol e PSTU. No entanto, ele atualmente está licenciado do seu cargo para entrar na política: é pré-candidato a vereador em São Paulo pelo PSD.

Em meio a isso, uma pesquisa Ibope contratada pelo iFood, que ouviu 1.000 entregadores das principais plataformas por SMS e telefone entre os dias 17 e 18 de julho, gerou estes resultados em relação à greve:

  • 70% preferem o modelo de trabalho atual, e 30% preferem CLT
  • 40% apoiaram a greve de 1º de julho, 18% foram indiferentes, 23% não apoiaram, 8% não souberam do movimento e 18% preferiram não responder
  • 31% não fizeram entregas no dia 1ª em apoio à greve, 27% trabalharam normalmente, 18% não fizeram entregas por medo de retaliação dos grevistas, 24% não fizeram entregas porque não podiam trabalhar no dia, e 11% preferiram não responder
  • 53% acham negativa a participação de partidos/sindicatos, 24% consideram positiva e 23% são indiferentes

A margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais.

Pauta se mantém

Os entregadores mantiveram as pautas exigidas aos apps na primeira paralisação, que são:

  • Reajuste de preços: os entregadores recebem entre R$ 4,50 e R$ 7,50, valor que varia por aplicativo e distância percorrida --mais R$ 0,50 a R$ 1 por quilômetro rodado, em média;
  • Reajuste anual: pedem que haja um reajuste anual programado para o serviço;
  • Tabela de preços: citado por alguns entregadores, seria uma tabela não ditada pelo governo ou reguladores, mas construída entre profissionais e aplicativos;
  • Fim de bloqueios indevidos: reclamação constante dos entregadores, que questionam as políticas das empresas que os punem com bloqueios;
  • Entrega de EPIs: pedem equipamentos de proteção para trabalhar com mais segurança durante a pandemia;
  • Apoio contra acidentes: se o entregador sofrer acidentes enquanto usa a plataforma, a ideia é ter algum tipo de auxílio;
  • Programa de pontos: alguns entregadores questionam sistemas que fazem ranking de entregadores. Gringo cita o da Rappi que, segundo ele, exigiria que a pessoa trabalhasse "de domingo a domingo para pegar os melhores pedidos".

No dia 1º, o movimento gerou repercussão e ganhou apoio de nomes importantes da política nacional. Candidatos na eleição presidencial de 2018, como Fernando Haddad (PT), Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede) e Guilherme Boulos (Psol) deram apoio ao ato e citaram a necessidade de se discutir leis para os entregadores.

A cidade de São Paulo tem duas leis em tramitação na Câmara sobre o assunto:

  • PL 578/2019: apresentado pela Comissão de Trânsito e Transportes da Câmara, define responsabilidades para empresas que contratam motociclistas para entregas, prevendo pagamento de adicional de periculosidade e responsabilidade solidária em caso de acidentes com o trabalhador
  • PL 130/2019: apresentado pelo vereador Camilo Cristófaro (PSB), adequa os apps a leis já existentes de motofretistas para garantir, em teoria, mais proteção aos trabalhadores. Ele exige, inclusive, placa vermelha para que entregadores trabalhem nos apps --atualmente, 8 mil dos 50 mil entregadores de apps têm essa placa.

Pequenas vitórias

O ato do dia 1º de julho gerou atenção para a categoria, mas até agora rendeu apenas algumas poucas vitórias aos entregadores. A maior delas, por enquanto, foi o poder de mobilização que a categoria conseguiu. Uma delas foi um encontro da classe com o presidente da Câmara, o deputado Rodrigo Maia (DEM).

Propostas envolvendo aplicativos de delivery e entregadores circulam na Câmara. Uma delas, de Tabata Amaral (PDT), pretende "regrar" a relação de apps com trabalhadores ao criar uma classe entre a CLT e o autônomo. No encontro com Maia, entregadores pediram para que fossem unidos os melhores trechos das leis em um mesmo texto.

Além disso, em São Paulo o sindicato conseguiu um encontro no TRT (Tribunal Regional do Trabalho) entre a categoria e representantes dos aplicativos. A audiência estava marcada para o dia 14 de julho, mas foi adiada por falha técnica no sistema de videoconferência.

Ainda na cidade, a Câmara dos Vereadores criou um comitê para analisar demandas dos entregadores. O presidente da Câmara, Eduardo Tuma (PSDB), chegou a se encontrar com o presidente do sindicato e outros representantes da categorias como a Amabr.

Em grupos de WhatsApp, entregadores ainda relatam supostas mudanças no modelo de ranking e pontuação da Rappi, uma das reivindicações dos atos. Os entregadores, contudo, afirmam que as empresas fingem não ver o movimento.

"O app finge não ver, tapa os olhos. Faz de tudo para o movimento não ser notado. Não querem dar força e legitimidade, aí não dão atenção", critica Gringo.

O que os apps dizem

Em contato com Tilt, o iFood afirmou que "respeita os direitos democráticos, à manifestação e à livre expressão", além de se dizer aberto ao diálogo. Além disso, apontou que já atende à maioria das reivindicações feitas pelo movimento, entre elas o valor mínimo de R$ 5 por entrega, distribuição de equipamentos de proteção e oferecimento de seguro de vida e contra acidentes.

Já a Rappi também disse respeitar as manifestações e se mostrou disposta a melhorias operacionais. A empresa esclarece que o valor do frete varia em diversos fatores (clima, dia da semana, horário, entrega, distância, complexidade) e relata já ter as seguintes práticas:

  • Seguro de vida e contra acidente desde o ano passado;
  • Parcerias para oferecer descontos aos entregadores, como em 80 restaurantes, e planos de saúde, troca de óleo, aulas de inglês etc;
  • Programa de pontos para trazer "reconhecimento, preferência aos melhores prestadores de serviço para que tenhamos uma melhor entrega de experiência aos clientes finais". Depois de protestos, o programa de pontos mudou para ser mensal e não mais semanal;
  • Distribuição de EPIs como máscara e álcool em gel;
  • Criação de um fundo para apoiar financeiramente entregadores com sintomas ou confirmação de covid-19;
  • Disponibilização de um canal para questionar bloqueios.

A Uber Eats afirmou que não irá se posicionar sobre a paralisação.

Contatada, a Loggi não se manifestou até o fechamento da reportagem.