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Na pandemia, entregadores e Ubers viram soldados no front, mas sem direitos

Getty Images
Imagem: Getty Images

Matheus Pichonelli

Colaboração para Tilt

19/03/2020 04h00Atualizada em 19/03/2020 12h40

Sem tempo, irmão

  • Com cidades paradas, produtos e serviços deverão circular mais via "economia de bico"
  • Para sociólogia, trabalhadores de apps são mão de obra "precarizada e sem direitos"
  • Modelo de Uber, iFood e afins monitora pouco segurança sanitária e custos extras na crise
  • Apps mitigam impacto com assistência, suspensão de doentes e entregas sem contato

A crise do coronavírus criou uma oportunidade —e esta não é, necessariamente, uma boa notícia. Com o desemprego em alta e um mercado de trabalho baseado na informalidade, aplicativos como Uber, iFood, Rappi e afins criaram um exército de mão de obra que cuida da demanda por produtos e serviços. Esse contexto deve crescer nas próximas semanas em razão da quarentena e do isolamento social.

Com as cidades paradas, produtos, alimentos, documentos, medicamentos e até exames de laboratório deverão circular cada vez mais na chamada "gig economy" ou "economia de bico", na qual atividades temporárias ou "freelancer" vira o trabalho principal.

Em tempos de pandemia, esses trabalhadores poderão ser uma versão contemporânea do soldado do filme "1917", que arrisca a vida atravessando uma área hostil para entregar uma carta a um general.

Quando a gente pensa em produção, circulação e consumo, os trabalhadores de aplicativos dessa 'gig economy' são os trabalhadores da esfera da circulação. São também as pessoas mais precarizadas, mais sem direitos, que mais se matam de trabalhar, que ganham cada vez menos num cenário de desemprego em que quanto mais gente nas plataformas, mais cai o preço da remuneração
Bárbara Castro, socióloga, professora da Unicamp [Universidade Estadual de Campinas] e especialista em estudos sobre a organização flexível do trabalho

O show deve continuar?

Castro lembra que, apesar da recomendação por quarentena, o mundo não para. E esse mundo ainda é muito dependente de papel e assinatura, que referendam a veracidade das informações que circulam no meio digital.

"As pessoas estão procurando bico. (...) A gente está num mundo dependente de carimbo e da assinatura. Muita coisa não é aceita online. Precisam de termos de segurança. O motoboy nasceu para isso, para circular documento pela cidade. A tendência é que essa figura esteja ali, dando conta da circulação desse trabalho home office", diz Castro.

As perguntas centrais dessa situação, segundo a socióloga, são quem pode parar ou não e quem estará mais exposto à pandemia.

"Não é todo trabalho que permite ficar em casa. Quem serão os trabalhadores mais atingidos nessa história toda? Vamos expor esses trabalhadores de aplicativo ao contato com outras pessoas em quarentena, porque o amigo do amigo [delas] teve coronavírus? Quais limites de segurança sanitária essas pessoas têm? Quem a gente protege?"

A tendência é que a demanda por entregas de alimentos aumente e os deslocamentos de motoristas por aplicativos, por exemplo, se concentrem em áreas com hospitais.

Quem cuida dos entregadores?

"Esses profissionais estão sendo muito mais expostos do que o restante da população. Eles assumem esse risco, porque tem conta para pagar em casa. Mais gente deve entrar na plataforma. E isso envolve várias questões éticas. Da mesma forma que o motorista deve ter seu próprio carro, é ele quem vai ter de se preocupar em comprar os equipamentos de segurança, como o álcool gel?", argumenta Castro.

A professora afirma que as empresas podem até lançar protocolos para os profissionais sem vínculo de trabalho reconhecido na Justiça, mas se questiona como plataformas que estimulam profissionais a trabalhar cada vez mais vão se responsabilizar também pelas condições de segurança deles para evitar a transmissão do vírus.

Por exemplo: como o motorista vai saber se o passageiro contraiu ou não o vírus? Quem poderá exigir testes? "Nem o Estado nem o mercado está regulando a gig economy. É uma zona mista."

O que as empresas estão fazendo?

Diante da pandemia, as empresas estão reforçando a opção de serviço de entrega sem contato e separando dinheiro para lidar com as consequências econômicas da quarenta.

iFood

É o caso do iFood, que possui 131,2 mil restaurantes cadastrados em 912 cidades brasileiras. Para os entregadores, a empresa anunciou a criação de um fundo de R$ 1 milhão para dar suporte aos profissionais que estejam em quarentena por conta da doença. O entregador receberá do fundo um valor baseado na média dos seus repasses nos últimos 30 dias, proporcional aos 14 dias de quarentena.

A plataforma diz ter disponibilizado também aos usuários do app a opção 'Entrega sem Contato', em que os pagamentos deverão ser efetuados online pelo aplicativo e o usuário pode combinar com o entregador via chat onde deixar o seu pedido.

A empresa anunciou um fundo de R$ 50 milhões para assistência a restaurantes, com foco nos pequenos estabelecimentos, e irá antecipar os recebimentos dos parceiros sem custo adicional. A ideia é injetar até R$ 600 milhões no mercado brasileiro. A empresa prevê que, nos próximos dias, muitos restaurantes tenham de fechar seus salões ou sintam a diminuição de clientes. Por esta razão, o valor arrecadado pelo iFood em taxas do serviço 'Pra Retirar', no qual os usuários fazem o pedido via app e retiram diretamente no restaurante, será devolvido integralmente aos parceiros.

O iFood diz que ainda é cedo para dimensionar o impacto do COVID-19 no mercado de food delivery brasileiro.

99

Dona da 99 e da 99Food no Brasil, a Didi Chuxing anunciou a criação de um fundo especial de US$ 10 milhões para apoiar os motoristas e entregadores parceiros que forem diagnosticados com a doença nos mercados onde atua — não apenas o brasileiro, portanto. A opção de corrida compartilhada, que funcionava em Campinas e Belo Horizonte, serão suspensas a partir de sexta-feira (20).

A plataforma criou uma página com orientações para os motoristas andarem com os vidros do carro abertos, evitem aglomerações e o contato físico, como um aperto de mãos. Há também alertas sobre notícias falsas e sessões informativas online para prevenção e educação dos entregadores parceiros. Eles poderão retirar, nas próximas semanas, kits contendo máscaras da categoria N95/FFP2 e álcool em gel 70% para higienização de mãos, bolsas e guidão.

Os restaurantes parceiros também poderão retirar lacres de segurança com o objetivo de embalar adequadamente os alimentos e protegê-los das partículas do ambiente. A 99Food está implementando também a opção de entregas de comida sem contato direto, na qual o consumidor que optar pelo pagamento online deverá informar no chat como prefere receber a entrega.

A empresa vai bloquear temporariamente a conta do usuário que tiver diagnóstico positivo do novo coronavírus ou estiver em quarentena por recomendação médica. A empresa informou ainda que os entregadores parceiros estão segurados contra acidentes e que os restaurantes parceiros receberão pagamentos semanais para auxiliar o fluxo de caixa.

Uber

Em seu site, a Uber informa ter uma equipe disponível 24 horas por dia para ajudar as autoridades de saúde pública e que contas de usuários ou motoristas parceiros diagnosticados com o coronavírus serão suspensas temporariamente. A Uber diz ainda ter a consultoria de um epidemiologista e que dá assistência financeira por 14 dias aos parceiros suspensos.

Sobre o Uber Eats, app de entregas da empresa, o usuário pode deixar uma instrução no app para pedir ao seu entregador que deixe o pedido na porta.

Rappi

O Rappi, em email aos usuários, informa que busca garantir o abastecimento de itens de primeira necessidade e pede compreensão em casos de indisponibilidade. A empresa diz que está entregando álcool gel, desinfetantes e máscaras para serem usadas pelos "personal shoppers" [aqueles que separam as compras] durante a entrega e promete habilitar a opção de entrega em domicílio sem contato físico.

Segurança questionada

Segundo Bárbara Castro, a situação lança luz sobre a pouca cobrança por segurança do trabalho nesse tipo de serviço. Em uma construção, lembra ela, é possível visualizar as condições de segurança de um operário, como cintos e capacetes.

No trabalho por app, não há adicional de insalubridade e não há pressão para regular as horas trabalhadas para não agravar os riscos de acidente por cansaço. Só recentemente o Uber, por exemplo, estabeleceu até 12 horas diárias de uso para motoristas.

"Estamos vendo agora os limites da flexibilização do trabalho. [...] O coronavírus está expondo os limites desse Estado mínimo para a sociedade, que agora se pergunta que modelo de intervenção quer. O da China, com agente de Estado tirando temperatura das pessoas? [...] Ou vamos privatizar a escolha de alguém estar exposto ou não a uma economia como esta, sem treinamento adequado, para se precaver e evitar a transmissão?", questiona Castro.

As perguntas levam a outras. "Quem está preparado para viver essa crise? [...] A tecnologia não dá conta de tudo. Para a economia circular, tem gente operando. [...] Não se pode pensar em uma sociedade sem pessoas. A indústria 4.0 não se concretizou dessa maneira."

Mudança de postura à vista?

Segundo o economista Fábio Araújo Tadeu, sócio-diretor da Brain, empresa de pesquisa e estudo de mercado, a crise do coronavírus deve fazer com que muitas empresas antes refratárias ao home office passem a adotar esse modo de trabalho.

Isso as aproximará da "economia de bico", com o uso cada vez mais recorrente de profissionais que disponibilizam seus serviços em plataformas online. A expectativa é que, durante a quarentena, que pode levar meses, as empresas "mudem o mindset" e criem estruturas que conversem melhor com estas plataformas.

Mas, ele afirma que a tendência atual é haver um aprofundamento da distância entre trabalhadores de primeira, segunda e outras categorias. O valor dos serviços será variável de acordo com o nível de especialização do trabalho e o número de profissionais disponíveis para freelancers. "Vai ser ainda mais difícil [entrar no mercado] do que era antes", diz.

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