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Histeria x descaso: quem é você na polarização do coronavírus no WhatsApp

Nada une o brasileiro no WhatsApp, nem mesmo o coronavírus - Getty Images
Nada une o brasileiro no WhatsApp, nem mesmo o coronavírus Imagem: Getty Images

Bruna Souza Cruz

De Tilt, em São Paulo

18/03/2020 04h00Atualizada em 19/03/2020 10h20

A pandemia do coronavírus está aí e, claro, chegou com tudo aos grupos do WhatsApp. Mais uma vez, o que se vê nas conversas de família, amigos, colegas de trabalho e grupos variados é a polarização, agora entre os extremos: descrentes versus desesperados. No meio, a parcela que se prepara conscientemente para enfrentar a situação (prefira) —mas não totalmente sem ansiedade, medo e angústia.

O mundo já registrou mais de 190 mil infectados e 7.894 mortes*. No Brasil, são 291 casos confirmados e duas mortes, até o momento. Um prato cheio para as fake news e tretas no WhatsApp, não?

A economista Eduarda Ferreira passou por isso há alguns dias. Recebeu um vídeo de um conhecido que defendia que o medo do coronavírus era exagerado. Outra pessoa do grupo então encaminhou uma longa mensagem com frases alarmistas para dizer que a "histeria do corona vírus [note o erro na palavra coronavírus] é perfeita para restringir ou abolir direitos civis". "A mesma mensagem informava até que o vírus foi gerado pelo 5G", lembra Ferreira. O texto se referia a uma teoria da conspiração que associa a doença a mortes por radiação supostamente emitidas por antenas de telefonia —Tilt já explicou que isso é mentira.

"Tem gente achando a maior bobagem, seguem preocupados com festa. Cansei", desabafa a veterinária Raquel Viotti. Ela conta que tudo isso tem sido motivo de estresse. Algumas pessoas, conta, estão bem pouco preocupadas com a pandemia, mesmo com tantas informações sendo divulgadas pela internet, jornais, TV e rádio.

"É gente que só vê o próprio umbigo, não pensa no todo. Desculpe o desabafo", falou Viotti.

Professora de português e inglês, Ana Paola Di Bartolomeo Thomé também está vendo seus grupos divididos. O que a incomoda são os argumentos que excluem os procedimentos de higiene recomendados pelos órgãos mundiais de saúde, como achar que só a fé resolve.

"O que eu vejo muito são frases como 'Deus vai proteger a gente'. Não falam nada de ter responsabilidade, sabe? De se proteger para proteger os outros. Jogar para Deus a responsabilidade é egoísmo", acredita. "Vejo muito as pessoas dizerem 'ah, isso não é nada' ou 'imagina que eu vou pegar'", acrescentou.

Se você ainda tem alguma dúvida, saiba que o novo coronavírus existe, causa uma doença respiratória e se espalha rapidamente pelo mundo, por isso foi decretada uma pandemia. A Covid-19 requer cuidados redobrados, pois costuma ser mais agressiva em pacientes do grupo de risco (idosos e pessoas com asma, bronquite, diabetes ou doenças auto-imunes, por exemplo). Parte importante dos cuidados envolve adotar medidas restritivas (como isolamento social e quarentena) para diminuir o poder de contágio.

Segundo pesquisadores, o grau de contágio do coronavírus é moderado (em toro de 2 e 3) e a letalidade é baixa estatisticamente, mas se trata de um vírus novo, com consequências não completamente claras. Outro agravante é que o pico de contaminação sobrecarrega o sistema de saúde, o que dificulta muito o atendimento a quem precisa. Existem relatos de pessoas sem sintomas que transmitem a doença.

Histeria vira meme

A polarização também vem acompanhada de muitos memes e figurinhas. Afinal, somos brasileiros. Os desesperados que estocam papel higiênico e acabam com o estoque de produtos básicos no supermercado não foram perdoados pela internet. Muito menos os que superfaturam em cima de álcool gel. O pânico e a histeria são o outro lado da discussão, porque costumam vir acompanhados de ações bem pouco coletivas.


Há ainda quem tema mais as consequências do isolamento social. A economista Ariene Salgueiro até o momento só recebeu vídeos e textos com conteúdos que condiziam com o que está sendo divulgado pelos órgãos oficiais de saúde e noticiados pela imprensa, mas nota uma preocupação entre seus conhecidos com o impacto econômico. "Já está afetando vários setores. É preocupante também", disse.

Quem é você na polarização do coronavírus no WhatsApp?

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Segundo os especialistas, o nosso comportamento social fora da internet é potencializado no ambiente online. Ou seja, nos sentimos mais corajosos para expor uma opinião, por mais equivocada que esteja, diz o psicanalista e professor da USP (Universidade de São Paulo) Christian Dunker.

"As pessoas se sentem mais bravas e mais corajosas, e isso acontece muito pelo fator distanciamento. A partir do momento que você não está em contato direto, todo mundo é um pouco mais corajoso... no WhatsApp, no email", acrescenta o especialista em tecnologia e inovação Arthur Igreja.

Igreja concorda que vivemos tempos de uma nova polarização, combinada com teorias da conspiração e de medidas de proteção que não têm qualquer aval científico ou médico.

Dunker explica que isso passa pela forma com que o ser humano lida com o novo e o desconhecido —segundo ele, nosso discernimento fica prejudicado. São 4 grandes grupos que debatem a pandemia no WhatsApp:

Negacionistas: são os que desacreditam na existência do vírus ou minimizam o impacto da doença no mundo. Alguns podem atribuir a pandemia a uma grande conspiração. "É uma maneira, lá no fundo, de dizer para ele mesmo algo como 'eu não tenho como me defender disso. Então vou dizer que não existe. É um processo psíquico da negação", explicou Dunker.

Divididos entre medo e angústia: são as pessoas que estão tomando as devidas medidas de segurança por temerem serem contaminadas e/ou contaminar pessoas próximas. Ao mesmo tempo, o receio se mistura com as próprias emoções e causa sofrimento. "Aquela pessoa que é hipocondríaca vai ver os seus piores fantasmas. Aquela que se sente desamparada vai acrescentar um elemento de insegurança. É a mistura entre o medo que vem de fora e a angústia que vem de dentro", afirmou.

Dentro deste cenário, ainda existem os sedentos por informações, os hiperinformados sobre a pandemia, que seguem a risca as recomendações de proteção. O excesso de informações, no entanto, pode ser prejudicial. "Essa tentativa de tratar a angústia e a ansiedade com o conhecimento não funciona. Quanto mais ansiosos eles ficam, mais querem informações. As pessoas entram em uma espiral ansiogênica. Aquilo que deveria acalmar prejudica."

Algo maior vai me salvar: são pessoas que acreditam que algo superior irá salvar o mundo do novo coronavírus. Neste caso, nem todos irão seguir os procedimentos de segurança pelo fato de acreditarem em uma possibilidade maior e geral de salvação.

Solidário: pessoa que foca em atos de solidariedade diante da preocupação com a pandemia. São as que reforçam a seriedade da situação, pedem calma e pensam em soluções novas para enfrentar a crise e ajudar quem precisa— mantendo a própria segurança.

"A responsabilidade sobre o que influencia uma pessoa é sempre dela. A responsabilidade em buscar as melhores fontes e sempre ter o fator crítico condiz com cada um. Mas essa hiperdisponibilidade de informação e essa polarização em relação a tudo certamente confunde", reforçou Igreja.

Os especialistas ressaltam a importância do filtro de cada um, isso quer dizer, refletir e lidar com as informações que recebe e encaminha nos grupos do WhatsApp.

"O impacto das fake news é terrível. E isso levará muitas pessoas a fazerem coisas estúpidas, como aconteceu no Irã, onde mais de 20 pessoas morreram por ingerir uma substância que pretensamente curava. É muito triste ver isso. No auge da tecnologia, da informação e do avanço da humanidade, na verdade tudo isso leva a decisões tão primitivas e frágeis", acrescentou.

* Os dados estão sendo compilados pela plataforma da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, e são de 17 de março de 2020, às 19h50.

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