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De Netflix a fake news: brasileira conta como está a quarentena na Itália

Pedestres caminham no centro de Milão, na Itália, usando máscaras devido à epidemia do novo coronavírus - Miguel Medina/AFP
Pedestres caminham no centro de Milão, na Itália, usando máscaras devido à epidemia do novo coronavírus Imagem: Miguel Medina/AFP

Bruna Souza Cruz

De Tilt, em São Paulo

13/03/2020 04h00Atualizada em 13/03/2020 11h03

Sem tempo, irmão

  • Há 18 dias em casa, brasileira na Itália conta como tem sido o dia a dia na quarentena
  • Últimas semanas foram tomadas por novos hábitos, apps de compras online e muita Netflix
  • Internet tem ajudado, mas também dissemina fake news e amplia sentimento de pânico

A Itália passa por um de seus períodos mais difíceis após o novo coronavírus (Sars-cov-2) se espalhar rapidamente pelo país. A região norte é a mais afetada em número de infecções e mortes, e uma série de medidas restritivas foram impostas à população, que segue em estado de quarentena temporária.

Impedidos de saírem de suas casas —o deslocamento entre cidades está proibido sem justificativas convincentes— os moradores da Itália se viram obrigados a repensar a sua rotina e muitos têm encontrado na tecnologia uma aliada para combater o tédio e ajudar a entender o que está acontecendo do lado de fora.

É o que relata a brasileira Márcia Chiozo, 50, que mora na Itália há 14 anos. Há 18 dias ela e o marido, que é italiano, passam a maior parte do tempo dentro de casa, na comuna Busto Arsizio, região da Lombardia.

As últimas semanas para a brasileira foram tomadas por mudanças de hábitos, descoberta de aplicativos de compras online em supermercados, mais tempo na Netflix e cuidado redobrado ao ler notícias que circulam na internet.

"O clima está muito tenso. É mais ou menos uma sensação de como se a gente estivesse vivendo uma guerra. Só que não vê o inimigo. É um inimigo invisível, que faz um estrago danado. Então, é uma sensação muito estranha, de impotência total", contou a brasileira, que trabalhou por muitos anos no aeroporto Internacional de Malpensa, o maior da região.

"E o que que a gente faz? Faz o que está ao nosso alcance de proteção. É mudança total de hábitos. Não existe mais abraços. Não existe mais aperto de mão. Não existe beijo. Tudo é feito à distância ou por telefone. Lavar as mãos começou a ser mais do que hábito", acrescentou.

Em meio ao crescimento de pessoas infectadas pela Covid-19, doença respiratória causada pelo novo coronavírus, a empresa em que o marido de Chiozo trabalha determinou que os profissionais fizessem home office. A companhia disponibilizou um computador e um celular para cada funcionário manter suas atividades dentro de casa.

"Na infelicidade de estar desempregada eu tenho a felicidade de estar fechada em casa. E meu marido está trabalhando em casa, seguro", destacou.

A compra do mercado agora é pela internet

A expressão "tecnologia a seu favor" nunca fez tanto sentido na nova rotina Chiozo. Acostumada a ir até o supermercado fazer as compras para casa, a brasileira começou a criar perfis em vários aplicativos de mercados locais para testá-los. Nem o aplicativo da farmácia passou despercebido.

Ela explica que existem duas modalidades comuns por lá. A primeira é a que você faz tudo pela internet e os produtos chegam na porta da sua casa. Na porta mesmo, porque os entregadores não entram nas casas. Na segunda, o comprador faz todo o processo e deve ir até o estabelecimento pegar o que comprou.

"Esse tipo de serviço aumentou muito. E eu comecei a fazer nossas compras normais [pela internet]. De uma certa forma, a gente está tentando nos resguardar. Se sai de casa, tem que sair com luva, máscara. Depois que chega em casa, joga tudo fora, coloca a roupa na máquina de lavar", complementou.

E como vencer o tédio?

Na realidade, Chiozo conta que não sentiu nada de tédio durante a quarentena. Pelo contrário. Coisa para fazer é o que não falta. "A rotina dentro de casa é praticamente a mesma. Limpeza, tomar cuidado com o preparo dos alimentos. Para distração, tem a televisão, filme, Netflix, Sky [TV a cabo], livros, estudos. Graças a Deus, a internet é uma grande aliada. Ela tem ajudado a gente nesse momento de crise."

"A gente não poder tocar, não poder abraçar, beijar. Muita gente se sente isolada, principalmente as pessoas mais velhinhas. Então, para para tentar não deixá-los cair em depressão ou ficar isolados, é importante a gente ligar, fazer videochamada para aqueles que sabem, para que eles sintam que tem gente que se preocupe com eles", complementou.

Fake news não deixam ninguém em paz

Se de um lado Chiozo tem tido boas experiências com a tecnologia em meio ao caos em que está vivendo, as fake news continuam mandando lembranças do outro.

Ela e seu marido têm usado a internet e a televisão para se manter informados do que está acontecendo do lado de fora. Mas a atenção passou a ficar redobrada.

"A internet distrai bastante, mas tem que filtrar porque chega muita porcaria, muita notícia falsa, muito alarmismo. É preciso fazer o filtro. É um momento em que o ser humano também se aproveita para colocar o pânico, para jogar lenha no fogo, para fazer mal às pessoas. A situação [da pandemia] é muito séria, perigosa, mas precisamos filtrar tudo aquilo que chega", desabafou.

Perguntada se ela concorda com as restrições impostas pelo governo italiano, Chiozo diz que apoia por ser uma estratégia para tentar diminuir o número de contágios. Não tem jeito.

"É um momento que é preciso fechar tudo. Nós precisamos ficar em nossas casas, em quarentena. O sistema sanitário do país, principalmente aqui do norte da Lombardia, está saturado", concluiu.

O coronavírus pelo mundo

Na quarta-feira (11), a OMS (Organização Mundial da Saúde) decretou pandemia do novo coronavírus. Até o último balanço, a Covid-19, doença respiratória causada por ele, infectou mais de 118 mil pessoas no mundo e 4.291 mortes. O maior número de infecções aconteceu na China, país onde os primeiros casos surgiram.

A Itália é o segundo país com o maior índice de infectados. Até terça, ela havia registrado mais de 10,1 mil casos. Na segunda-feira (9), o governo italiano decretou estado de quarentena para todo o país e passou a restringir a entrada e saída de pessoas na região pelo menos até 3 de abril.

A recomendação e de que a população fique em casa. O deslocamento entre cidades está proibido, salvo exceções, que precisam ser justificadas mediante a apresentação de documento oficial que explique a necessidade. Quem não cumprir, pode levar multa.

Veja algumas das restrições impostas com o novo decreto italiano:

  • Reuniões públicas ficam proibidas;
  • Escolas, universidades e museus ficam fechados;
  • Discotecas e bingos não podem abrir;
  • Lojas, supermercados e outros estabelecimentos comerciais podem abrir, mas os frequentadores devem respeitar a distância mínima de um metro de distância entre eles;
  • Missas, casamentos e funerais estão proibidos;
  • Bares e restaurantes deverão fechar após 18h.

O Brasil tem mais de 70 casos confirmados, mais de 1.400 suspeitos e mais de 1.100 descartados.

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