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Blog do Dunker

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonarista agarrado ao caminhão é o delírio coletivo diante da realidade

Manifestante de verde e amarelo andou preso a capô de caminhão e viralizou nas redes sociais - Reprodução/Twitter
Manifestante de verde e amarelo andou preso a capô de caminhão e viralizou nas redes sociais Imagem: Reprodução/Twitter

09/11/2022 04h00

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O que acontece quando uma formação delirante confronta-se com a realidade? Esta antiga questão da psicopatologia assumiu uma dimensão prática e política depois da vitória de Lula no segundo turno das eleições de 2022.

Uma leitura possível do caso encontra sua síntese simbólica na cena em que um manifestante que obstruía uma estrada em Pernambuco é desafiado pelo motorista de um caminhão. O motorista avança o veículo e o manifestante agarra-se ao vidro, e assim seguem durante alguns quilômetros, até que a pergunta é feita novamente: vai descer agora?

Finda a aventura, emerge a voz do capitão Nascimento, ícone do filme "Tropa de Elite", dizendo: pede para sair!

Teríamos chegado desta maneira ao fim da série de golpes dentro de golpes que nos governaram desde 2016?

A expressão "formação delirante" não se refere a nenhum diagnóstico individual do sujeito que segue pendurado no bólido enfrentando sozinho e heroicamente um destino que o supera em força e realidade.

O delírio é um sintoma que acontece em várias situações clínicas, desde estados crônicos de dor e infecções agudas, até demências neurológicas, efeito de uso de substâncias e transtornos psicóticos.

Principiantes podem achar que a indicação de um sintoma é por si só um diagnóstico, assim como maledicentes podem ver nisso indevida psicopatologização de processos sociais.

Contudo, além destas formas "naturais" do delírio, poderíamos falar em formações delirantes "artificiais", promovidas pelo estado de adesão identificatória a grupos, instituições e massas humanas. O modelo aqui é um quadro historicamente conhecido como folie a deux (loucura a dois), onde um indivíduo, geralmente colocado em posição de autoridade, exerce sua ascendência sobre outros induzindo-os a partilhar, gradualmente, as ideias de seu próprio delírio.

Gralnick [1] descreveu quatro subtipos:

  1. Loucura imposta, quando as ideias delirantes cessam quando o seu causador é afastado;
  2. Loucura comunicante, quando as ideias são aceitas após um longo período de resistência dos filhos, da família ou do agrupamento que o cerca;
  3. Loucura simultânea, na qual o delírio é compartilhado por diferentes indivíduos ditos "primários" e;
  4. Loucura induzida, quando o afetado tem poucas condições de resistência, em função de debilidades psíquicas ou vulnerabilidades sociais.

Felizmente, para este que é um dos poucos quadros psicopatológicos coletivos (ao lado da Síndrome de Münchausen por Procuração), tem uma cura rápida relativamente eficaz: afastar o sujeito da pessoa ou da fonte de irradiação delirante.

Neste caso sobrevém um período de transição onde, pela ausência de contato com a confirmação coletiva do delírio, começa a reaparecer a verdadeira posição subjetiva daquele indivíduo. Como se antes estivéssemos funcionando em estado de massa, como tentei descrever, em outro lugar, a situação para a modalidade digital [2].

Nos primeiros momentos da separação e da queda, o delírio tende a aumentar seu poder de convicção, justamente porque ele é formado e fortalecido pela negação conjunta.

É esta a cena que nos serve de ilustração: um homem, agarrado a suas crenças, munido de uma coragem sobre-humana, coloca-se contra um caminhão, desafiando sua força, sua presença e toda a extensão de sua realidade, por quilômetros a fio.

O processo subsequente pode apresentar complicações.

Pensemos naquelas pessoas que aderem a uma crença apocalíptica de que o fim do mundo vai acontecer, digamos no próximo dia primeiro de janeiro de 2023. Muitas seitas messiânicas e escatológicas cresceram em torno desta ideia de que o livro de João, que encerra a Bíblia, está a se realizar.

Alguns psicólogos estudaram o que acontece com as pessoas quando a data prevista e ... nada acontece.

Nesta situação a dissonância cognitiva entre crenças e realidade é frequentemente corrigida por uma crença auxiliar, por exemplo: o fim do mundo não aconteceu justamente porque nós conseguimos mobilizar as pessoas e a pureza das suas orações, mudaram o curso do que estava previsto.

O ensaio geral do golpe, anunciado por Bolsonaro nos últimos meses, criava assim as condições delirantes para sua própria realização como um golpe... rodoviário.

Paralisar o sistema logístico do Brasil poderia criar a confusão necessária para que o apocalipse se tornasse possível, sem que ao mesmo tempo percebêssemos que somos nós mesmos que estamos criando a tal realidade paralela.

Mas a realidade aparece como um caminhão mais forte do que isso, levando consigo o heroísmo por água abaixo.

Na verdade, a realidade é muito chata e desinteressante, ela segue seu fluxo sem empolgar muita gente.

Por isso, a realidade paralela não é só um problema de distorção cognitiva, ignorância ou lapso de informação, mas uma fonte permanente de satisfação. Ela intensifica e engrandece o simples encamisado amarelo, investindo-o de superpoderes.

Ao final, nosso modesto entregador de pizza se sentirá participando de uma epopeia mundial, na qual ele tem seu papel de protagonista, derrotando o vilão, as forças trevosas e sua organização secreta.

Perceba-se que nesta epopeia delirante, Alexandre de Moraes e o Supremo Tribunal Federal surgem como aqueles antigos filmes do 007, tipo "Goldfinger" ou "Dr. No". Eles tiveram uma atuação bem mais pé no chão do que a dupla subdinâmica: Fogo Moro, o da incrível "capa desaparecedora de justiça", e Água Aras com sua máquina "engavetadora geral de processos".

Não fosse isso, Mancha Verde e Gaviões da Fiel, teríamos que aguentar a miséria ridícula de um golpe rodoviário.

Mas há casos reversos e mais graves nos quais a loucura coletiva não funciona apenas a partir de um ou mais núcleos irradiadores. São as situações nas quais aquele que está em posição mais frágil acaba criando ou escolhendo seu super-herói delirante.

Este é o caso da Síndrome de Estocolmo, quadro descrito a partir de um caso real no qual as vítimas de um sequestro, ocorrido por ocasião a um assalto a banco na Suécia, desenvolveram uma curiosa forma de amor pelos sequestradores.

A identificação com o agressor foi descrita por Ana Freud como um mecanismo de defesa contra a angústia por meio do qual aquele que sofre violência ou opressão, particularmente de forma continuada, começa a resolver o conflito, por meio de uma formação protodelirante que diz mas ou menos o seguinte: este outro é tão poderoso a ponto de me dominar tão amplamente, de me fazer sentir inteiramente em suas mãos, em dependência radical tão extrema. Uma vez que ele me ama deste jeito (porque não me mata ... ainda, ou porque não me bate ... tanto assim), eu passo a sentir uma espécie de piedade, gratidão, proteção e admiração ... que bem misturado aparece como amor ao ídolo.

Quando a loucura coletiva se reúne com sua forma reversa da identificação com o agressor temos um casamento que demora um pouco mais para ser desfeito.

Não bastará mais o simples afastamento da causa irradiante. Será preciso entender que não serão alguns quilômetros que temos para caminhar, juntos e misturados.

Gradualmente virá o cansaço, pois não é fácil se apoiar tanto tempo no parachoque de contrarrealidade. A ausência de palco e plateia, as contas da vida, sem falar em mulher e filhos esperando o motorista chegar em casa, farão a sua parte.

Poderemos entender então que não precisamos ficar de cara contra o vidro do celular ou do caminhão, agarrados em nossas crenças, porque elas se tornarão dispensáveis. Nisso a realidade, ainda que dura e complexa, com toda sua força se tornará um pouco mais interessante.

Daí, em vez de sermos atropelados por esta realidade, que tanto negamos, poderemos enxergar o longo caminho que temos pela frente. Ele não é só um caminho, mas um verdadeiro caminhão.

REFERÊNCIAS

[1] Teixeira PJR, Araújo GC, Rocha FL. Folie à deux revisão crítica da literatura. J Bras Psiq. 1992;41(2):61-5.

[2] Dunker, C.I.L. (2022) Lacan e a Democracia. São Paulo: Boitempo.