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Blog do Dunker

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Ciência brasileira vive polarização que vai além das diferenças políticas

Chokniti Khongchum/ Pexels
Imagem: Chokniti Khongchum/ Pexels
Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

04/06/2021 04h00

Nas recentes discussões levantadas no contexto da CPI sobre a condução sanitária da pandemia de covid-19, pode-se constatar o nível baixíssimo a que a consideração científica tem sido submetida no debate público. Professores renomados e dirigentes de órgãos de saúde revelando inseguranças e lacunas primárias quanto ao funcionamento "real" da ciência.

Este é um efeito globalmente reconhecido desde que a segmentação do fazer científico se tornou cada vez mais restrito, com a expansão, digitalização e capilarização das revistas.

Mais recentemente o problema do financiamento das revistas reverteu-se na prática de pagamento por artigo, ou por tradução "recomendada". O mesmo problema do financiamento, da utilidade e da justificação social redundou em uma apropriação das questões epistemológicas pela racionalidade tecnológica.

Isso acentuou a diferença clássica entre pesquisa básica, de natureza mais geral, que cumpre uma função de formação do pesquisador e de contato transdisciplinar, e a pesquisa aplicada ou focal, que responde a demandas específicas e interesses sociais ou econômicos bem delimitados.

Ou seja, bem antes da chamada polarização social, emergente a partir de 2013, a ciência já vivia suas próprias polarizações entre as ciências duras, as "verdadeiras" ciências como a física, a química e a biologia, e as ciências humanas, como a antropologia, a sociologia e a psicologia. Dentro destas áreas cresceu a percepção de que raça, gênero, classe e etnia atravessavam os próprios processos de justificação e reconhecimento dentro da ciência.

O terceiro nível de polarização pode ser encontrado dentro dos departamentos, com hierarquias draconianas, e competição ferina para aumentar notas na Capes (e com isso alcançar benefícios e mais bolsas) ou para estabelecer hegemonias temáticas, autorais, senão de tendências de pesquisa.

Deste modo podemos entender a emergência da polarização, baseada no desdém com relação a fatos e falta de rigor na interpretação das ideias, como parte de uma percepção social de que a ciência é mais múltipla e dividida do que as nossas vãs esperanças de autoridade unificada gostariam de admitir.

Desta forma infiltra-se a tentação, que no fundo é demanda de reconhecimento, de que se há divisão, por que eu mesmo não poderia pleitear a validade de minhas crenças metafísicas pessoais? Afinal se tudo pode ser customizado de acordo com a vontade do consumidor, por que a sanção e legitimidade maior das ideias e crenças não poderia se submeter a este mesmo procedimento?

Para enfrentar esta rede de problemas é interessante agregar os modelos propostos por Axelroad [1] para entender polarizações em geral. Para tanto, ele distingue nove tipos de polarização: espalhada, dispersa, por cobertura, regionalizada, em comunidades fraturadas, por distinção, por divergência, pelo consenso grupal e pelo tamanho da paridade.

Para enfrentar esta multiplicidade cruzou-se três modelos baseados, respectivamente, na difusão cultural, no consenso social e na estrutura de transmissão de crenças. Chega-se assim ao conceito de traços cardinal de polarização, que são as marcas materiais da fratura de uma comunidade.

Por exemplo, "defesa da família" é um traço cardinal pois ele hierarquiza pessoas. Ainda que sejamos todos em favor da proteção de nossos laços, a expressão nominal subentende aqueles "inimigos" que estão "ameaçando a família".

A polarização por demanda de paridade, por contraexemplo, racial ou de gênero, responde a outro modelo matemático e nenhum dos dois dá conta da polarização por regionalização.

Ainda assim há correlações regulares, por exemplo, um decréscimo na polarização como fratura comunitária, como a que escutamos cada vez mais entre famílias brasileiras, pode representar um acréscimo da polarização como consenso de grupo, como por exemplo, pró ou contra cloroquina.

Contudo, esta última forma de polarização possui um curioso efeito de decréscimo sobre outras polarizações como espalhamento, cobertura (superioridade) ou distinção (superioridade de hábitos culturais).

O modelo estrutural do balanço entre polarizações baseia-se na evolução dentro de um espectro cujo horizonte é a "extrema opinião absoluta". Ou seja, é como se o fenômeno da convicção fosse primário, daí que ele incite polarizações por divergência ou por consenso, mas não interferira nas polarizações por fratura na comunidade ou no tamanho da paridade.

Disso resulta uma conclusão de potencial interesse para o contexto do Brasil e a localização da polarização científica dentro dele.

A disputa em torno da polarização não é um confronto de teses, mas de luta entre modelos diferentes de polarização.

A direita tende a agrupar polarizações espalhadas (anticorrupção), dispersas (empobrecidos apolíticos) e comunidades fraturadas (família), criando um "eles" que justifica a força reativa do "nós".

A esquerda, por outro lado, cultiva polarizações por distinção (superioridade moral e cognitiva), por consenso grupal (partidos e movimentos sociais) e pelo tamanho da paridade (demandas identitárias). Mas aqui o vetor vai do "nós" para o "eles".

Por isso as equações recíprocas não fecham: a direita ataca os esquerdistas acusando-os de corrupção e arrogância. Inversamente a esquerda acusa a direita de violência e vulgaridade.

Mas quando se trata de ciência surge uma polarização diferente, pois as universidades serão vistas como impostoras e regionais (daí a negação sistemática de nossas boas posições em rankings internacionais).

Contudo, a pandemia de covid-19 fez progredir a polarização de modo a questionar a política sanitária internacional, representada pela Organização Mundial de Saúde. Assim como professores e cientistas, ao lado de artistas e jornalistas de esquerda, representam uma elite sem quilate econômico, os empresários de direita seriam ricos incultos.

Duas lógicas de polarização diferentes se opõem aqui: o regionalismo de direita e a distinção de esquerda. Tais lógicas são contraintuitivas na medida em que, para quase todos os outros tópicos, a esquerda tende a valorizar o local popular enquanto a direita cultiva a hierarquia da distinção e do mérito.

Isso nos ajuda a entender por que professores, intelectuais e pesquisadores colocam a prova suas reputações científicas, como se suas opiniões quando se trata de política ou de subsídio a políticas públicas e suas convicções tornam-se independentes e desimplicadas dos conceitos e consensos. A prática já estava na declaração de Fernando Henrique Cardoso, que teria dito: "esqueçam o que escrevi".

A profissionalização da pesquisa brasileira, feita à base de avaliacionismo e produtivismo, de condomínios departamentais e currais epistêmicos cultivou o embrião de polarizações epistêmicas, mas criou também este efeito colateral de punir quem participa do debate público, tentando traduzir ciência em práticas transformativas ou criticar políticas erráticas, regressivas e inconsequentes.

REFERÊNCIA

[1] Aaron Bramson, Patrick Grim, Daniel J. Singer, William J. Berger, Graham Sack, Steven Fisher, Carissa Flocken, and Bennett Holman (2017) Understanding Polarization: Meanings, Measures, and Model Evaluation Philosophy of Science, Volume 84, Number 1, January 2017.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL