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Borderlands 3: série continua explosiva, mas já mostra sinais da idade

Bruno Izidro

Do START, em São Paulo

28/09/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Game de tiro dobra a aposta no tiroteio caótico: armas absurdas, raios, explosões e gritaria por todos os lados
  • História sem graça acaba soterrada pela dinâmica do "loot and shoot": sempre em busca de uma arma melhor
  • Série repete a receita de sucesso, mas não traz grandes inovações frente aos concorrentes atuais

Quando "Borderlands 2" foi lançado, em 2012, estabeleceu de vez a fórmula de "looter shooter" nos games: jogadores embarcam em uma infinita coleta de itens, buscando sempre as armas mais raras. Mas eram outros tempos. O game da Gearbox nadava (e saqueava) praticamente sozinho no oceano azul cheio de loots para coletar, e não à toa foi um sucesso.

Sete anos depois, o mundo mudou. Os maiores representantes de "looter shooter" são jogos online que se assemelham a MMOs, nomes como "Destiny 2" e "The Division 2". Nesse cenário, o que restou para "Borderlands 3" (PS4, Xbox One e PC) saquear?

O mundo mudou, e os games também

Antes de mais nada, é bom deixar claro: "Borderlands 3" está longe de ser um jogo ruim. Toda a produção milionária pode ser vista em sua escala, nos mundos com mapas enormes, ambientes bem trabalhados e uma ação mais ligeira que dos jogos anteriores. O jogo também combina sistemas complexos, com elementos de tiro, RPG e mecânicas de corrida. Ainda assim, é difícil não ficar decepcionado.

No período em que a série principal de "Borderlands" ficou em hiato, jogos como "Destiny" e "The Division" surgiram. Ambos ao seu jeito, e não sem alguns tropeços, pegaram muitos dos conceitos estabelecidos pelo game da Gearbox, deram aquela sacudida na fórmula, adaptando-a em uma estrutura online e permanente, que incentiva os jogadores a criarem uma rotina de jogo ou pelo menos voltar de vez em quando para conferir as novidades, novas raids ou eventos temporários.

Deu muito certo. Afinal, a experiência de looter shooter precisa de repetições em busca de armas ou itens melhores.

"Destiny 2" é hoje referência em Looter Shooter - Divulgação
"Destiny 2" é hoje referência em Looter Shooter
Imagem: Divulgação

Mas então "Borderlands 3" chega, e em um momento bem peculiar: meses depois do lançamento de "The Division 2", que aprendeu com os erros do primeiro jogo para se tornar um looter shooter bem robusto, e poucas semanas antes da chegada da nova expansão de "Destiny 2", "Fortaleza das Sombras", que promete um game ainda mais cheio de atividades e itens raros para conquistar.

Nesse sanduíche cheio de armas de cores vibrantes, "Borderlands 3" parece não se esforçar o suficiente para trazer um tempero a mais para o subgênero que a própria série ajudou a estabelecer.

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Repetindo o que deu certo

"Borderlands 3", pelo menos, vai contra a moda de ser MMO de tiro, e foca a experiência em uma campanha tradicional com missões de história e atividades paralelas, bem como era o jogo anterior.

Ele também poderia ter seguido o caminho mais fácil de implementar sistemas de microtransações, o que é um alívio. Até existem armas mais fortes e itens cosméticos para comprar, mas tudo é feito gastando o material especial Eridium, que é adquirido ao matar chefes ou explorando os cenários. Nada é adquirido pagando dinheiro de verdade.

Gêmeos Calypso são os vilões (sem graça) do game - Reprodução
Gêmeos Calypso são os vilões (sem graça) do game
Imagem: Reprodução

O foco em uma campanha de história também não chega a surpreender: "Borderlands 2" tinha uma narrativa minimamente interessante para fazer muitos fãs se importarem com personagens como Claptrap, Lilith e, principalmente, o vilão Handsome Jack, além de terminar em um gancho que deixava óbvio que um terceiro game aconteceria. Inclusive, pouco antes do lançamento, a Gearbox lançou uma expansão para "Borderlands 2" que faz a ponte entre os dois games.

Enquanto em "Destiny 2", por exemplo, a campanha serve mais como uma grande preparação para as atividades pós-jogo (o famoso endgame), quase toda a experiência de "Borderlands 3" está concentrada nessa campanha, que dura facilmente mais de 20 horas. Isso poderia ser um ponto até positivo e que diferenciasse o jogo dos concorrentes. Pena que a nova história é, no máximo, sem graça. É um humor que varia entre o adolescente e o inconsequente, com trechos narrativos e diálogos que tentam chamar sua atenção, mas acabam soterrados pelo tiroteio.

Nave Sanctuary III é a base do jogador - Reprodução
Nave Sanctuary III é a base do jogador
Imagem: Reprodução

É possível fazer muitos paralelos com "Mass Effect", desde a estrutura de descobrir e explorar novos planetas pela galáxia até a nave Sanctuary III, que serve de base para o jogador e hub de interação com os personagens da narrativa. Sanctuary III está mais para Normandy do que para a base na Casa Branca de "The Division 2", por exemplo, já que não é possível dar de cara com outros jogadores online aleatórios pela nave, a não quem estiver jogando junto no modo cooperativo.

O que se salva na campanha de "Borderlands 3" são as variedades de cenário e inimigos em cada novo mundo: dos Psychos velhos de guerra em Pandora, passando pelos soldados tecnológicos e robôs da metrópole em Promethea até a vida selvagem dos pântanos da lua Eden-6.

Nesse aspecto, "Borderlands 3" realmente se sobressai, até mesmo se compararmos com os planetas e inimigos de "Destiny 2".

Cidades futuristas como Promethea é novidade em Borderlands - Reprodução
Cidades futuristas como Promethea é novidade em Borderlands
Imagem: Reprodução

O básico bem feito

Atirar nunca foi tão bom em um Borderlands como é neste terceiro jogo. Em vez de olhar para o que os outros looter shooter estavam fazendo, os desenvolvedores preferiram gastar um tempo jogando "Titanfall 2", porque a jogabilidade está tão ágil e vertical como o jogo de tiro de Respawn, com direito a deslizadas no chão e até uma das classes, a Atiradora, que entra em um robozão como habilidade especial.

Essa mecânica de tiro mais rápida, que lembra também os avanços de "Doom" (2016), aliada ao sistema de habilidades de cada classe, que incentiva o jogador a brincar mais com diferentes tipos de poderes e técnicas, faz todo o combate de "Borderlands 3" ser realmente divertido.

Como Amara, a Ninfa, não foram poucas as vezes em que mudei completamente a configurações dos meus poderes, seja porque já estava cansado de jogar com um estilo ou para enfrentar algum chefe mais forte que era imune às minhas técnicas de eletricidade, mas não às de ácido, por exemplo.

Ninfa é a classe com poderes elementais  - Reprodução
Ninfa é a classe com poderes elementais
Imagem: Reprodução

Falando em aspectos puramente de gameplay, "Borderlands 3" é realmente um ótimo shooter, e esse pode ser o fator que vai que prender muita gente. Foi o que aconteceu comigo.

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Uma interface caótica

"Borderlands 3" também é recheado de decisões, no mínimo, estranhas. São detalhes que demonstram como o game parece preso a conceitos antigos.

A começar pela interface de usuário, que parece ter incorporado o conceito de "caos" que o jogo propõe. Vender armas e itens que você não quer, classificar os tipos de armas ou mesmo localizar desafios no mapa são atividades exaustivas. É como se os game designers tivessem desistido de encontrar uma boa solução, deixando o trabalho sujo para o jogador.

A experiência é ainda pior porque você vai passar muito tempo gerenciando seu inventário, o que geralmente significa menus travando ou demorando para carregar.

Outro problema é não poder evoluir ou melhorar aquela arma lendária que brotou e que você adora usar. No meu caso, aconteceu com a lança-foguetes Boosted Freeman, uma das várias armas que fazem referências a outros jogos e séries. Nesse caso, era de "Half-Life 2". Eu fui forçado a deixar essa lindeza de lado, porque mesmo sendo uma arma lendária, ela continuava sendo nível 22 e não fazia muita diferença para os inimigos nível 30 que eu já estava enfrentando.

"O homem certo no lugar errado pode fazer toda a diferença do mundo" - Reprodução
"O homem certo no lugar errado pode fazer toda a diferença do mundo"
Imagem: Reprodução

De "Destiny 2", por exemplo, "Borderlands 3" poderia ter pegado emprestado o sistema de infusão de armas, que sacrifica um item para melhorar outro de sua preferência.

Endgame

Pode perguntar para jogadores de "Destiny 2" ou "The Division 2" quais são os melhores momentos desses jogos, e muitos vão dizer que é quando a campanha termina. É no conteúdo pós-jogo que está a verdadeira experiência de um loot shooter atual.

No caso de "Borderlands 3", chega a ser curioso como ele lida de forma tão tímida e nem um pouco criativa com esse conteúdo, pelo menos no lançamento.

O pós-jogo está presente em "Borderlands 3" por meio do Modo Caos que, quando ativado, coloca os inimigos um pouco acima do seu nível e com probabilidade de gerar recompensas também melhores. Sendo curto e grosso: é um modo Hard disfarçado.

O mesmo pode ser dito do True Vault Mode, que nada mais é que um "New Game Plus".

Até mesmo o sistema extra de evolução de personagem, chamado "Patente de Guardião", não chama lá tanta atenção. O que esse novo ranking faz é liberar espécies de subclasses para o seu boneco, cada uma focada em aspectos de dano (Executor), saúde (Sobrevivente) e estratégia (Caçador).

Novo sistema de nível é liberado após o fim da campanha - Reprodução
Novo sistema de nível é liberado após o fim da campanha
Imagem: Reprodução

Para completar, as duas atividades multiplayer do jogo se resumem a arenas de inimigos. O Círculo de Carnificina é um modo Horda de "Gears of War" bem simplificado. Enquanto os Campos de Provação podem ser o equivalente aos Assaltos de "Destiny", com um chefe ao final que precisa ser derrotado em menos de 30 minutos. Não chega a ser ruim, mas também não empolga tanto.

Saindo da Bolha

Assim como aconteceu com "Destiny" e "The Division", "Borderlands 3" pode evoluir bastante com o tempo. Mesmo que de forma ainda tímida, ele deve seguir o modelo de jogo como serviço com atualizações constantes. Já há até novidades em breve e elas, pelo menos, parecem ser mais animadoras.

A Gearbox já anunciou, por exemplo, o primeiro grande evento pós-lançamento do jogo, Bloody Harvest, que é temático de Halloween e que vai oferecer armas e atividades exclusivas por tempo limitado e de forma gratuita aos jogadores.

Eventos especiais temporários vão começar a acontecer no game - Divulgação
Eventos especiais temporários vão começar a acontecer no game
Imagem: Divulgação

Como um RPG de ação e tiro, "Borderlands 3" entrega uma das melhores experiências de gameplay nos videogames atuais, uma evolução já esperada de um jogo que demorou sete anos para chegar.

Só que o lançamento de um jogo não está confinado a uma bolha, e no contexto de como os jogos evoluíram, "Borderlands 3" parece um meio-termo mal resolvido de looter shooter e jogo online que precisa se atualizar. A sorte é que o jogo tem potencial para ser mais atrativo no futuro do que ele é agora.

Divulgação
Imagem: Divulgação
"Borderlands 3" repete a receita de sucesso da série, mas depois de tanto tempo parece um meio-termo mal resolvido de looter shooter e jogo online que precisa se atualizar. Por mais que ele seja a melhor experiência da série, é difícil não sentir aquela decepção diante de um jogo que poderia ter feito muito mais.

Lançamento: 13/09/2019
Plataformas: PS4, Xbox One e PC (Epic Games Store)
Preço sugerido: R$ 122 (PC) e R$ 250 (consoles)
Classificação indicativa: 16 anos (Violência)
Desenvolvimento: Gearbox Software
Produtora: 2K Games

*O review foi feito com uma cópia cedida pela 2K games

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