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'Salvamos pessoas do tráfico e querem nos associar a ele', diz MC Hariel

MC Hariel
MC Hariel
Divulgação

Guilherme Lucio da Rocha

De Splash, em São Paulo

11/04/2021 04h00

MC Hariel é uma das principais vozes da música brasileira na atualidade. O funkeiro chegou ao topo das paradas com a música "Cracolândia" e se manteve um bom tempo no top 50 do Spotify com "Maçã Verde". Somados, os dois trabalhos têm mais de 250 milhões de visualizações no YouTube.

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Mas, para o Estado, ele é só mais um funkeiro.

Hariel foi um dos artistas investigados pela polícia por suposto crime de associação ao tráfico de drogas. O motivo seria a ligação com o dono de uma adega, que realizaria o pagamento do cachê de artistas com dinheiro do tráfico.

Em entrevista para Splash, se disse tranquilo com a investigação, que ainda está em curso. O cantor reclama dos constantes casos que não provam nada de ilícito contra os MCs, que segundo eles demonstram um preconceito com a cultura do funk.

Salvamos pessoas do tráfico e querem nos associar a ele. Existe um desejo de ligar o funk com coisas ruins, talvez seja pelo que a gente canta. E não é de hoje.
MC Hariel

Hariel diz que é "impossível" não sentir medo de possíveis represálias, mas isso não o impede de continuar trabalhando e colocando o dedo na ferida.

Eles me veem falando sobre temas que acham ruim, talvez isso incomode. Não trato ninguém mal, fui muito respeitoso no dia que vieram na minha casa. Não devo nada, sou artista.
MC Hariel
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Covid-19 e exemplo de Marielle Franco

Antes de começar a entrevista, Hariel fez uma live para o seus fãs no Instagram. Em certo momento da transmissão, ele disse:

Sei que ficar em casa na semana é foda, temos que arrumar nosso dinheiro. Mas sexta-feira e fim de semana não é dia de baile, de aglomerar. É ficar na goma, de boa.
MC Hariel

O MC conta que é importante artistas se posicionarem, ajudando a passar informações. Porém, o "governo tinha que estar na frente disso e está cagando para situação", segundo ele.

O cantor destaca a falta de um auxílio financeiro para que as pessoas não precisem "sair desesperadas pelo prato do dia".

Mesmo afirmando "não manjar muito" de política, Hariel diz que é fundamental que as periferias tratem o assunto com seriedade. E o recado fica nas suas letras, como nessa referência a dois pesos e duas medidas durante a pandemia do novo coronavírus:

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Se tem baile funk ao vivo é foco de bandido e contaminação. Se tem milhares na rua, só se for para votação.
Trecho da música "2020"

Hariel se revelou "puto" com a classe política. Criticou Bolsonaro, a quem chamou de "o pior que pode existir", desceu a lenha também em Michel Temer e Lula. Mas acredita que a única saída está na política.

Sua referência positiva foi a vereadora Marielle Franco, assassinada a tiros no Rio, em 2018,

Precisamos dar atenção para quem é da gente, quem tem um discurso de avanço para periferia. Não adianta, tudo é política. Não podemos virar massa de manobra para uma elite.
MC Hariel
Arquivo/Câmara do Rio - Arquivo/Câmara do Rio
A vereadora Marielle Franco
Imagem: Arquivo/Câmara do Rio
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Racismo e machismo

O funk é fruto das periferias do Brasil, do povo negro. Porém, há um debate sobre a subrepresentação de artistas negros como protagonistas da cena. Hariel, um artista branco, reconhece ser fruto de uma estrutura racista.

Ele comenta que, mesmo de forma não intencional, se privilegia dessa estrutura. No entanto, faz questão de abrir a discussão e debater com outros artistas sobre.

Tenho vergonha da história branca no Brasil e falo que temos que bater de frente. Não tem como vencer uma guerra sem guerrear.

Eu não preciso ter vivido o racismo para saber como ele é foda, que cria barreiras. Não quero quero ser modelo, não pago de bonitinho, mas sei que tenho meus privilégios.
MC Hariel

Com relação ao machismo, Hariel explica que perdeu o pai ainda na infância e foi criado numa casa com três mulheres -=duas irmãs mais novas e sua mãe.

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O cantor admite ter atitudes machistas, mas diz querer procurar melhorar, gerando também discussão sobre comportamentos abusivos. Ele diz que o problema das letras que desrespeitam mulheres não está só no mundo do funk e que o debate deve ser refletido na vida real.

Vejo como um processo e estou mudando isso. Não tem que ficar só nas letras ou textão na internet. Tenho que praticar isso com a minha família, minha vizinha, no dia a dia mesmo.
MC Hariel

Futuro independente

MC Hariel é artista da produtora GR6, uma das maiores do ramo no país e que rivaliza com a KondZilla. No entanto, o artista cogita cumprir os três anos de contrato que ainda tem com a empresa e seguir carreira independente.

Ele diz que a GR6 foi fundamental na sua formação e no seu crescimento de carreira. Porém, exemplos de outros artistas como Anitta e Matuê mostram que existe um outro caminho —e é isso que ele quer experimentar.

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É um pensamento ultrapassado achar que só é possível ter uma carreira de sucesso no funk com uma produtora por trás. Estou estudando um pouco de tudo para me estruturar.
MC Hariel