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Roberto Sadovski

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Esqueça Thanos: o maior inimigo dos heróis Marvel é... a gravidade!

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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

13/07/2021 04h21Atualizada em 13/07/2021 16h06

O TEXTO A SEGUIR TRAZ SPOILERS DE ALGUNS FILMES MARVEL, "VIÚVA NEGRA" INCLUSO!!! SIGA POR SUA CONTA E RISCO!!!

Spoiler - Arte UOL - Arte UOL
Alerta de Spoiler Splash
Imagem: Arte UOL

Ainda aqui? Ok então...

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"Viúva Negra", que estreou semana passada, é uma aventura excelente que recolocou a Marvel nos cinemas depois de um ano na gaveta. Primeiro produto com a heroína/espiã/assassina interpretada por Scarlett Johansson como protagonista, o filme mistura elementos pescados dos quadrinhos em uma trama sobre redenção, que consegue se colocar à parte dos outros títulos do estúdio.

Ou quase isso...

Depois de reunir sua família postiça para confrontar um inimigo do passado, Natasha Romanoff entra em ação em uma plataforma flutuante, base secreta do vilão no melhor estilo James Bond. O clímax, como não poderia deixar de ser, mostra o colosso desabando do céu, uma sequência tão espetacular quanto familiar.

A Marvel, afinal, adora trazer ameaças que despencam do firmamento.

Existe uma explicação conceitual aí. Em um mundo de fantasia, em que super-heróis surgem um degrau acima de um ser humano comum, é necessário um antagonista "divino" para peitar a turma de roupas coloridas. Por outro lado, o motivo para tanta coisa vinda de cima pode ser mais mundano: é sempre visualmente espetacular.

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Natasha Romanoff (Scarlett Johansson) despenca do céu em 'Viúva Negra'
Imagem: Disney/Marvel

Enquanto a Marvel ainda testava o terreno para seu universo cinematográfico, seus heróis e vilões eram equivalentes simbólicos, sem maiores entrelinhas. O Homem de Ferro enfrentou dois homens com armaduras, Obadiah Stane e Ivan Vanko. O incrível Hulk saiu no braço com outro ser monstruoso, o Abominável. Thor combateu seu irmão, Loki.

O padrão não demorou a escalar.

Em "Capitão América: O Primeiro Vingador", o herói da Segunda Guerra Mundial saiu no braço com seu oposto ideológico, o Caveira Vermelha. O combate, porém, aconteceu a bordo de uma bomba voadora, uma ameaça à liberdade personificada em um pesadelo cruzando o céu. Para impedir uma tragédia, Steve Rogers tratou de derrubar o avião do mal em pleno oceano Ártico, prendendo-o - e a si mesmo - em uma tumba gelada.

Não demorou para virar regra. O primeiro fenômeno da Marvel chegou aos cinemas em 2012. "Os Vingadores", um sucesso de US$ 1 bilhão, promoveu o primeiro encontro dos "maiores heróis da Terra", unidos contra uma ameaça comum. De uma literal fenda no céu, hordas de invasores alienígenas desciam como predadores alados, destruindo Nova York como anjos furiosos. O firmamento se tornou sinônimo de perigo.

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Steve Rogers (Chris Evans) derruba um avião bomba no primeiro 'Capitão América'
Imagem: Disney/Marvel

Existe um termo em inglês, common tropes, que se refere a uma convenção, um tema usado em excesso. Como o sujeito anônimo coroado rei em filmes de fantasia, ou o thriller em que alguém retorna à sua cidade natal para resolver um mistério. Nos filmes da Marvel, common tropes são as engenhocas caindo do céu.

Não é uma constante, claro. Mas está sempre lá. É até possível argumentar que "Homem de Ferro 3" se manteve firme no chão. "Thor: O Mundo Sombrio", por outro lado, trouxe uma espaçonave alienígena mais uma vez rasgando o tecido do céu e cortando o mapa de Londres. Mesmo em mundos alienígenas, como em "Guardiões da Galáxia", a frota invasora não só vinha do alto mas também se travestia de pilotos kamikaze arremessando suas naves na população inocente.

A coisa ficou séria quando, mesmo em um filme mais "realista" dentro da lista da Marvel como "Capitão América: O Soldado Invernal", finaliza uma trama de espionagem e ação desenhada com um mistério de bastidores com um clímax em que não um, mas três porta aviões aéreos perdem a estabilidade para ameaçar a população de Washington.

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O Capitão nos limites de uma cidade acima das niuvens em 'Vingadores: Era de Ultron'
Imagem: Disney/Marvel

"Vingadores: Era de Ultron", por sua vez, transformou a convenção em narrativa quando uma cidade inteira, no país fictício da Sokovia, é arrancada do solo e, erguida em altura estratosférica, ameaça despencar sobre a Terra como uma bala de canhão cósmica, com intenção de exterminar toda a vida no planeta como a colisão de um asteroide.

Depois disso, porém, a Marvel desacelerou com suas coisas caindo do céu. O lugar comum dramático ganhou algumas variações (como o mundo paralelo absorvendo Hong Kong em "Doutor Estranho"), mas descansou em "Capitão América: Guerra Civil", "Guardiões da Galáxia Vol. 2", "Thor: Ragnarok" e "Pantera Negra". A exceção foi o avião caindo em uma praia vazia ao fim de "Homem-Aranha: Do Volta ao Lar".

Marvel, versão James Bond

A Marvel encerrou sua primeira grande história, a "Saga do Infinito", quando batalhões alienígenas comandados por Thanos desceram à Terra no clímax apocalíptico de "Vingadores: Ultimato". Nem foi o caso de encaixar o dispositivo narrativo da ameaça do céu, já que a equipe estendida de Vingadores enfrenta uma ameaça tão grande que ela parece surgir de todos os lados.

Não acredito que o clímax de "Viúva Negra" seja um retorno ao clichê das ameaças que despencam do alto. O filme de Cate Shortland tem uma leitura mais ancorada em aventuras de James Bond do que em eventos cataclísmicos que jogam sua sombra quase divina em semideuses agora habitando a Terra. Para o cidadão comum que habita o Universo Cinematográfico Marvel, portanto, fica o alerta: a melhor forma de se proteger de uma tragédia é olhar para cima.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL