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Roberto Sadovski

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Como Richard Donner transformou a filosofia da TV em cinema de verdade

O diretor Richard Donner - Reprodução
O diretor Richard Donner Imagem: Reprodução
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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

06/07/2021 05h08

Los Angeles, comecinho de 2003. Eu estava na cidade para cobrir o lançamento de um filme qualquer, quando recebi um e-mail da assistente da produtora Lauren Shuller-Donner, com quem mantinha contato desde que a conheci nas filmagens de "X-Men 2", e queria bater um papo sobre um projeto comigo.

Lá fui eu até um estúdio em Culver City, onde ela supervisionava a gravação da trilha sonora de "Linha do Tempo". Quando o papo engrenou, Richard Donner, o diretor da aventura - e marido de Lauren - entrou na sala onde conversávamos. "Dick, esse é o Roberto, um jornalista do Brasil", disse a produtora. Meus joelhos tremeram.

Trabalho com cobertura de cinema, entretenimento e cultura pop há mais de duas décadas. Mesmo tendo conversado com algumas das pessoas mais geniais dessa indústria - de George Lucas a James Cameron a Ridley Scott -, não é todo dia que conhecemos um de nossos heróis. E não poderia ter sido mais especial.

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'Os Goonies'
Imagem: Warner

Em 1979, aos 5 anos, fui ao cinema assistir a "Superman, o Filme". Foi um momento que definiu o resto de minha vida: começou ali meu fascínio por super-heróis dos quadrinhos, pelo dinamismo do jornalismo e pela força do cinema em nos transportar para um lugar mágico. Naquele dia, mais de quatro décadas atrás, Richard Donner me ensinou que o homem podia voar.

Minha reunião com Lauren Shuller-Donner logo se transformou em papo de fã. Richard, um sujeito extremamente agradável de risada sincera, foi generoso ao me dar seu tempo enquanto eu falava sobre "Superman", sobre a redescoberta dos contos de fadas em "O Feitiço de Áquila", sobre a força quase lúdica de "Máquina Mortífera", sobre a aventura infanto juvenil suprema, "Os Goonies".

Ao fim do papo, ele apertou minha mão e agradeceu pelas palavras - devolvi, agradecendo a ele por ter aberto portas em minha imaginação que determinaram o profissional e a pessoa que eu me tornaria. "Te vejo no jantar", disse se dirigindo à sua cara-metade, antes de se despedir mais uma vez. Foi a primeira e última vez que eu conversei com Richard Donner.

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William Shatner em 'Além da Imaginação'
Imagem: Reprodução

Os fãs contemporâneos de cinema muitas vezes não gostam de assistir a "filmes velhos". Muitas vezes, tudo lançado no século passado é história antiga, e a velocidade supersônica das aventuras modernas muitas vezes causam a impressão errada que produções mais antigas seriam mais "lentas".

É obrigação moral para qualquer um que diz gostar de cinema, entretanto, conhecer o trabalho de um gênio como Richard Donner. Seus filmes não possuíam uma assinatura forte, uma marca registrada. Mas eram, indiscutivelmente, pedaços de entretenimento precisos como um relógio. Mesmo sendo mais operário que autor, pretensão que ele jamais exibiu, Donner transformou ideias em imagens, histórias imaginativas em contos de fadas escapistas.

Conseguia, também, fazer com que o ofício parecesse fácil. Criado na televisão, Richard Donner começou a dirigir aos 30 anos na série "Zane Grey Theater", uma antologia que adaptava histórias do escritor (e dentista!) americano da virada do século 20. A velocidade da TV lapidou o talento de Donner, que contribuiu com episódios de programas de sucesso como "Combate!", "O Agente da U.N.C.L.E.", "O Fugitivo" e "Além da Imaginação" - inclusive o episódio em que William Shatner vê uma criatura destruindo a asa do avião em que ele viaja.

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'A Profecia'
Imagem: Fox

Mais do que trabalhar com TV, Donner mergulhou fundo na rotina industrial da produção de séries em Los Angeles. Depois de quinze anos, mais de uma centenas de episódios de séries (inclusive do programa infantil "Banana Split") e alguns filmes para a TV, Donner conhecia a engrenagem do audiovisual, e o modo como entregar bons produtos, com disposição de veterano.

Foi com essa bagagem que saltou para o cinema. "A Profecia", de 1976, levou o terror religioso para a tela grande com espírito de aventura. Ao contrário do clima opressor de "O Exorcista" ou "O Bebê de Rosemary", a história sobre a chegada do Anticristo misturou paranoia, política e religião em uma trama acelerada e pop, sem a assinatura de um artista mas com a eficiência de um operário. Foi um sucesso, ficando entre as dez maiores bilheterias do ano.

Foi ali que Donner, então com 45 anos, deixou claro seu estilo de trabalho, uma filosofia que o acompanharia ao longo de sua carreira. Primeiro, seu trabalho, assim como a TV, nunca seria inacessível para a massa que buscava entretenimento. Segundo, não importa o gênero, não importa o tema, não importa a história, ela precisa parecer real. "Verossimilhança" era seu lema, e por mais fantástica e absurda que fosse a trama, ela seria pautado por uma narrativa sólida, conduzida com personagens reais.

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Christopher Reeve em 'Superman, o Filme'
Imagem: Warner

Isso ficou claro em seu filme seguinte. "Superman, o Filme" foi a primeira grande adaptação de um super-herói dos quadrinhos. Donner não queria o mesmo clima de pastelão da série de TV do Batman, e tratou de garantir que o público acreditasse que a saga de Kal-El, o último filho de Krypton, se apresentasse como um drama épico, um romance impossível, uma história maior que a vida que, por acaso, era protagonizada por um sujeito que podia voar.

Escalar Marlon Brando e Gene Hackman foi o pontapé para ganhar essa credibilidade, consolidada com a escolha de Christopher Reeve, depois de um processo longo e exaustivo para achar o intérprete certo, para viver o papel duplo de Clark Kent e do Superman. Donner, ao lado de Tom Mankiewicz, tirou a gordura da história original de Mario Puzo (autor de "O Poderoso Chefão") e criou o filme que até hoje é a base de toda aventura de super-heróis no cinema.

"Superman II" seria seu trabalho seguinte, e ele já havia rodado mais ou menos 75 por cento do roteiro quando uma guerra estourou com os produtores Ilya e Alexander Salkind por causa de prazo e orçamento. Eles entregaram, então, a produção para Richard Lester.

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Michelle Pfeiffer em 'O Feitiço de Áquila'
Imagem: Warner

Para diminuir a pressão, o diretor encarou uma produção mais modesta, "Inside Moves", seguido da comédia "O Brinquedo", com Richard Pryor. Donner só voltou sua atenção para o Homem de Aço novamente em 2006, quando a Warner lhe deu carta branca para finalizar sua versão de "Superman II" - ou pelo menos o mais próximo possível de sua ideia original.

"O Feitiço de Áquila", de 1985, mostrou sua versatilidade ao trazer um conto de fadas bem no meio dos anos 1980, provavelmente a década mais cínica da humanidade. A trama trazia Mattew Broderick ajudando os amantes Rutger Hauer e Michelle Pfeiffer a quebrar uma maldição. Foi durante as filmagens que ele conheceu a jovem produtora Lauren Shuller, com quem terminou se casando e criando uma produtora para ter maior controle sobre seu trabalho.

No mesmo ano, Steven Spielberg, um admirador de Donner desde que ele dirigia para a TV americana, o chamou para comandar a aventura "Os Goonies". Foi o caso de raio engarrafado. A premissa, uma caça ao tesouro perpetrada por um grupo de adolescentes, ressoou forte no público. Talvez fossem os temas, de família e amizade, talvez fosse a ideia convidativa em partir numa aventura com os amigos.

O que Richard Donner fez, contudo, foi aplicar sua filosofia de verossimilhança em uma aventura lúdica. Mesmo com bandidos cruéis, um anti herói trágico (o inesquecível Sloth) e um navio do tesouro escondido em uma caverna secreta, não existe uma linha em "Os Goonies" que não pareça real. O público de pronto se identificou e hoje, décadas depois, o filme segue como uma aventura atemporal, destinada à eternidade.

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Mel Gibson e Danny Glover em 'Máquina Mortífera'
Imagem: Warner

Em 1987, Donner reescreveu mais uma vez a cartilha do cinemão americano com "Máquina Mortífera". De longe, o filme com Mel Gibson e Danny Glover parecia mais uma história de duplas policiais. Nas mãos de Donner, porém, a aventura ganhava tons hiper realistas, uma ode ao exagero com o bom humor - e a química absurda de seus protagonistas - pautando o ritmo da narrativa.

Sem as amarras da herança da ação policial crua e realista dos anos 1970, e longe da moda crescente do "exército de um homem só" que ganhava fôlego com Stallone e Schwarzenegger, "Máquina Mortífera" foi um sucesso inesperado, que cimentou o nome de Donner também como grande esteta da ação explosiva no cinema. Longe de efeitos digitais, tudo realizado com a habilidade dos artesãos do cinema. Ah, e batendo "Velozes & Furiosos" no tema "é tudo pela família" em mais de uma década.

"Máquina Mortífera" também marcou o encontro de Donner com Mel Gibson, que se tornaria seu ator assinatura, o rosto perfeito para seu estilo. Juntos eles fizeram mais três "Máquina Mortífera", além do delicioso "Maverick" e do subestimado "Teoria da Conspiração".

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Richard Donner dirige Bruce Willis em '16 Quadras'
Imagem: Imagem Filmes

O final dos anos 1980 viu Donner tirar o pé do acelerador como diretor. Ele assinou "Os Fantasmas Contra Atacam" (1988), "Radio Flyer" (1992) e "Assassinos" (1995), enquanto dedicava-se à produção. Sua influência em Hollywood foi fundamental para a criação de "Os Garotos Perdidos", a série "Contos da Cripta" e a aventura "Free Willy".

Depois da virada do século, Donner assinou mais dois filmes, "Linha do Tempo" (2003) e seu derradeiro trabalho como diretor, o filme de ação discreto e eficiente "16 Quadras" (2006), com Bruce Willis. Nos bastidores, porém, ele estava ajudando a lapidar o estilo que determinaria o cinema hollywoodiano moderno.

Em 1999 a Fox queria tirar "X-Men" da gaveta, e buscaram Donner por conta da referência óbvia: "Superman, o Filme". Em vez de dirigir, ele tomou um lugar nos bastidores, ajudando um jovem talento, Bryan Singer, a segurar uma produção daquele porte. A história é que Donner, caso o trabalho provasse ser avassalador para Singer, então com apenas dois filmes no currículo, assumiria a condução da produção, o que deixou o estúdio mais aliviado.

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Hugh Jackman em 'X-Men'
Imagem: Fox

Não foi necessário, e Donner agiu como mentor do projeto sem assumir um papel ativo - "Superman", ao lado de "Tubarão", são os filmes de cabeceira de Singer. Enxergar uma aventura de super-heróis como um gênero distinto - no caso de "X-Men", a ficção científica - mostrou ser a lição mais acertada que Donner podia passar.

Vestir o manto de mentor foi algo que Richard Donner fez inúmeras vezes ao longo de sua carreira. Ele apostou em um roteirista iniciante, Shane Black, com o texto de "Máquina Mortífera". As irmãs Wachowski também tiveram sua primeira grande chance com Donner ao escrever o roteiro de "Assassinos". Kevin Feige, hoje presidente da Marvel, começou sua carreira como assistente da produtora de Donner.

Sua história mais bacana, porém, vem de Jeff Cohen. Um dos principais advogados de entretenimento de Los Angeles, ele tornou-se conhecido do público ainda criança, quando interpretou Chunk, o garoto gordinho de "Os Goonies", e provavelmente sua peça mais emblemática.

"JÁ TE LIGO DE VOLTA, GAROTO"

Depois de "Goonies", porém, Jeff aos poucos deixava de ser o "garoto gordinho", e depois de trabalhar em algumas séries de TV o telefone já não tocava mais. Tudo bem, já que ele estava determinado a seguir uma carreira na indústria, só que não como ator.

De origem modesta, Jeff morava com sua mãe e nunca perdera contato com Richard Donner ao longo dos anos. Quando a época de cursar uma universidade se aproximou, ele ligou para o amigo em busca de uma carta de referência, prática comum para conseguir uma vaga e, quem sabe, pleitear uma bolsa de estudos.

"Hmm, deixa eu falar com a Lauren e já já te ligo de volta, garoto", foi o que ele ouviu. Minutos depois, Donner retornou a ligação. "Conversei com Lauren e tomamos uma decisão, Jeff", disse Donner. "E nós vamos custear sua faculdade do começo ao fim. Queremos que você se torne a pessoa que você quer ser."

Richard Donner, o cineasta que pegou a cultura pop, embaralhou suas regras e devolveu ao mundo cinema de verdade, partiu aos 91 anos como um dos grandes arquitetos do blockbuster moderno. Um tremendo artista e uma pessoa gigante, que deixou um legado maior do que podemos enxergar. Em suas mãos, o demônio virou pop, uma bela mulher foi transformada em um falcão, um grupo de adolescentes seguiu um mapa do tesouro, e um homem, um super-homem, ganhou os céus. Nós, do lado de cá, acreditamos!