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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Apostas Oscar 2021: Quem pode ganhar e quem deve ganhar no festão do cinema

Reprodução
Imagem: Reprodução
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

25/04/2021 05h52

Hoje à noite 2020 encerra-se oficialmente para o cinema com a entrega do Oscar. A cerimônia da Academia acontece com cerca de dois meses de atraso devido ao caos instaurado na indústria por conta da pandemia do coronavírus.

Foi, portanto, um ano atípico. O streaming consolidou seu lugar de direito como força no cinema, acelerando um movimento já ensaiado. Muitos filmes foram vistos ao redor do mundo no conforto do lar, em vez de em uma sala escura.

Prepare o bolão!

E tudo bem. Com o mundo lentamente voltando aos eixos com a aceleração das vacinas (menos aqui em nosso quintal, já que ostentamos um nada glorioso fim de fila negacionista), a experiência de assistir a filmes será em definitivo multi plataforma.

O Oscar 2021 chega com alguns favoritos, algumas barbadas e muitas dúvidas que só serão saciadas quando a festa se desenrolar - simultaneamente em varias locações, e não somente no Dolby Theater em Los Angeles. Não tenho bola de cristal, mas você pode conhecer meus chutes para o destinatário das estatuetas no textão a seguir.

FILME

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'Nomadland'
Imagem: Disney/Searchlight

Gabaritei minha lista com os oito indicados a Melhor Filme algumas horas atrás, quando terminei de assistir a "Bela Vingança" - os filmes que não pude ver no cinema ou em streaming, conferi em casa com screeners enviados pelos estúdios. Nada de links corsários aqui! "Os 7 de Chicago", apesar do tema dolorosamente atual, sofre pela direção pouco inspirada de Aaron Sorkin. "O Som do Silêncio" é um absoluto triunfo em sua engenhosidade e emoção. Adoro "Mank", como apontei quando escrevi meus destaques de 2020, mas talvez seja um filme hermético demais em seu mergulho na história do cinema.

"Judas e o Messias Negro" entrega seu relato da história americana contemporânea com fúria, assim como o próprio "Bela Vingança", que crava suas garras na atmosfera do movimento #MeToo. Existe muita simpatia pelo belíssimo "Minari - Em Busca da Felicidade", e uma torcida genuína pelo devastador "Meu Pai". Se não der zebra, e eu acredito que este ano ela não vai aparecer, a estatueta vai mesmo para o poético "NOMADLAND", o filme que redescobriu a América.

DIREÇÃO

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Chloé Zhao, diretora de 'Nomadland'
Imagem: Disney/Searchlight

Aqui não há espaço para dúvida. Mesmo que todas as previsões não se concretizem para o Melhor Filme, a estatueta de Melhor Direção já deve estar com o nome de CHLOÉ ZHAO ("Nomadland") gravada em sua base. Admiro sempre a precisão cirúrgica de David Fincher ("Mank") e a sensibilidade de Lee Isaac Chung ("Minari") é uma bem-vinda renovação. O mesmo pode ser dito de Emerald Fennell ("Bela Vingança"). Neste grupo talvez Thumas Vinterberg ("Druk - Mais Uma Rodada") tenha a mesma excelência de Zhao. Mesmo assim é pouco para lhe tirar o pódio.

ATOR

oscar  - Netflix - Netflix
Chadwick Boseman em 'A Voz Suprema do Blues'
Imagem: Netflix

Eu falei sobre isso, o coração fica dividido, por isso serei breve. Obrigado Riz Ahmed ("O Som do Silêncio"), Gary Oldman ("Mank") e Steve Yeun ("Minari") por aparecerem! Mas muitas premiações, em especial o Oscar, confundem homenagem com excelência. No caso de CHADWICK BOSEMAN, uma estatueta celebraria ambos por seu trabalho irretocável em "A Voz Suprema do Blues". Mas não existe ninguém, nem mesmo nos últimos anos, que tenha chegado perto do nível de Anthony Hopkins e pela perfeição absoluta de seu trabalho em "Meu Pai". Ainda posso sonhar...

ATRIZ

oscar carey - Universal - Universal
Carey Mulligan em 'Bela Vingança'
Imagem: Universal

De longe, a categoria mais complicada do ano. Primeiro quem pode agradecer por estar na lista é Vanessa Kirby, que fez um trabalho absurdo em "Pieces of a Woman", e certamente deve voltar à disputa futuramente. Andra Day venceu o Globo de Ouro, mas peca aqui por estar em um filme modorrento como "Estados Unidos vs. Billie Holiday". Daí a coisa pega. Viola Davis ganhou o SAG, o prêmio do sindicato dos atores, e por isso sai na frente como favorita. Minha teimosia, porém, insiste em ver CAREY MULLIGAN recebendo o Oscar por seu desdém imortalizado como obra de arte em "Bela Vingança"! Dito isso, nunca descarte o poder de Frances McDormand. Ou seja, boa sorte em seu bolão!

ATOR COADJUVANTE

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Daniel Kaluuya em 'Judas e o Messias Negro'
Imagem: Warner

DANIEL KALUUYA crava aqui sua segunda indicação ao Oscar (seguindo uma na categoria principal pro "Corra!"), e já pode reservar o lugar da estatueta na estante. Ele está eletrizante como Fred Hampton, o jovem ativista dos Panteras Negras morto pelo FBI em 1968, como mostrado em "Judas e o Messias Negro". Ele tem a vantagem inclusive de seu companheiro de cena, Lakeith Stanfield, que curiosamente aterrizou na mesma categoria. Se o voto dos dois se anular, a zebra será Paul Raci, excepcional como o mentor de Riz Ahmed em "O Som do Silêncio". Mas não acho que chegará a tanto.

ATRIZ COADJUVANTE

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Yuh-Jung Youn em 'Minari - Em Busca da Felicidade'
Imagem: Diamond

Não vou lamentar por Glenn Close, que faz de tudo para emprestar dignidade ao equivocado "Era Uma Vez Um Sonho", mas está perdida em meio ao desastre. Amanda Seyfried é uma luz em "Mank", e Olivia Colman dá o apoio necessário para Anthony Hopkins transcender em "Meu Pai". A Academia podia ser ousada e premiar o trabalho corajoso e impressionante de Maria Bakalova em "Borat: Fita de Cinema Seguinte". Mas não tem como competir com YUH-JUNG YOUN. Tesouro nacional em sua Coréia natal, a atriz moda todo o jogo de "Minari" no segundo que entra em cena, trazendo charme, humor e um golpe emocional inesperado que eleva o filme e pode lhe dar sua única estatueta.

ROTEIRO ORIGINAL

oscar vinganca - Universal - Universal
'Doce Vingança'
Imagem: Universal

O texto de Aaron Sorkin para "Os 7 de Chicago" é uma verdadeira aula de precisão e ritmo em um roteiro, mas o próprio autor desacelerou sua obra quando assumiu a direção do filme. Mesmo com o profissionalismo e a experiência de Sorkin, a Academia costuma elevar a ousadia bem traduzida como sangue nos olhos nessa categoria. É por isso que Emerald Fennell deve levar por "BELA VINGANÇA" - e com louvor!

ROTEIRO ADAPTADO

oscar pai - California Filmes - California Filmes
'Meu Pai'
Imagem: California Filmes

O senso comum indicaria aqui uma vitória fácil de Chloé Zhao, que adaptou em "Nomadland" o livro de Jessica Bruder. Muitos votantes, porém, podem interpetar que o texto do filme nasceu mais do improviso, mesmo com o desafio de amarrar todas as histórias em torno da personagem de Frances McDormand. Se a vontade de dividir os louros prevalecer (e ela sempre prevalece), quem já votou em Zhao duas vezes pode mirar no trabalho complexo do veterano Christopher Hampton (vencedor por "Ligações Perigosas"), que adaptou "MEU PAI" do teatro a quatro mãos com seu co-roteirista e diretor Florian Zeller.

ANIMAÇÃO

oscar soul - Disney/Pixar - Disney/Pixar
'Soul'
Imagem: Disney/Pixar

Até dava para construir alguma narrativa para aumentar as chances do divertido "Wolfwalkers". Mas nem vou tentar: a Pixar vai garfar mais um Oscar por "SOUL".

DIREÇÃO DE ARTE

oscar mank - Netflix - Netflix
'Mank'
Imagem: Netflix

Mesmo com a construção complexa do espaço físico como narrativa em "Meu Pai" e o futuro imperfeito de "Tenet" no páreo, aqui a barbada é para a reconstrução da Era de Ouro de Hollywood em "MANK" - que, vale lembrar, chega à festa com dez indicações! Existe amor por "A Voz Suprema do Blues" nessa categoria, mas o pêndulo aqui inclina-se mais para o teatro do que para o cinema.

FOTOGRAFIA

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'Nomadland'
Imagem: Disney/Searchlight

Aqui é uma briga de cabeça a cabeça entre um trabalho surpreendente para reproduzir o estilo em preto e branco do cinema hollywoodiano dos anos 1940 e a captura da vastidão de uma América ao mesmo tempo acolhedora e sufocante. Se fosse em outro ano, Erik Messerschmidt levaria a estatueta por "Mank". Mas o apuro técnico de Joshua James Richards em "NOMADLAND" traduz a visão artística de Chloé Zhao em um casamento perfeito como poucos.

FIGURINO

oscar voz - Netflix - Netflix
'A Voz Suprema do Blues'
Imagem: Netflix

Ok, ok, já é um clichê dizer que a Academia gosta de premiar roupas de época. Mas a combinação de pesquisa com execução invariavelmente captura o olhar dos votantes - e do mundo. "Emma" é lindo, embora levemente artificial - o mesmo pode ser dito de "Mulan". "Mank" impressiona pela reprodução de tecidos e texturas, mas nada que salte aos olhos. Por isso que Ann Roth deve, aos 89 anos, ganhar seu segundo Oscar por "A VOZ SUPREMA DO BLUES". Além de trazer um certo brio, são roupas que parecem de fato usadas, que pertencem a seus personagens.

EDIÇÃO

oscar sommetal - Amazon Prime - Amazon Prime
'O Som do Metal'
Imagem: Amazon Prime

Em "Meu Pai" a montagem ajuda a nos colocar no ponto de vista de alguém que aos poucos perde o controle de sua mente, e o estilo de "Os 7 de Chicago" amarra diferentes momentos cronológicos em uma narrativa compreensível - este chega à festa ainda como favorito. Mesmo assim, ainda aposto no corte sutil e no crescendo emocional de "O SOM DO SILÊNCIO", que deve boa parte de sua progressão emocional ao modo como o filme é montado.

MAQUIAGEM E CABELO

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'A Voz Suprema do Blues'
Imagem: Netflix

Muitas vezes apostamos em filmes com trabalho de maquiagem mais espalhafatoso e evidente. Não será o caso este ano. O envelhecimento de Glenn Close em "Era Uma Vez Um Sonho" é eficiente, mas o filme advoga contra qualquer vitória. Mas em nenhum dos outros indicados a sutileza de uma transformação fala tão alto quanto o visual suado e decadente, arrogante e combativo de Viola Davis em "A VOZ SUPREMA DO BLUES".

SOM

oscar metal - Amazon Prime - Amazon Prime
'O Som do Silêncio'
Imagem: Amazon Prime

Aqui não há absolutamente nenhum espaço para dúvidas. "O SOM DO SILÊNCIO" é justamente sobre o relacionamento dilacerado de seu protagonista com a própria audição, um conceito traduzido em ruídos que reverberam como um tambor distante e vibrações ora delicadas, ora estrondosas como metal. É um trabalho meticuloso que a concorrência, por mais talentosa, sequer chega a arranhar.

EFEITOS VISUAIS

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'Tenet'
Imagem: Warner

Nos últimos anos os vencedores nessa categoria prezaram pela sutileza em seus efeitos. Não será o caso agora. Claro, "O Grande Ivan" e "Amor e Monstros" tem belas criaturas em CGI. "Mulan" e "O Céu da Meia-Noite" criam, à sua maneira, novos mundos perfeitos. "TENET", por sua vez, usa a tecnologia como motor de sua narrativa. Mesmo confusa - e nesse filme de Christopher Nolan TUDO é muito confuso! -, a ação aqui exige apuro técnico considerável para ser executada.

TRILHA SONORA

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'Soul'
Imagem: Disney/Pixar

As composições de Emile Mosseri para "Minari" são essenciais para a dimensão de sua história, um trabalho complexo de traduzir intimismo com peso e grandiosidade. Mas o prêmio aqui vai para Trent Reznor e Atticus Ross. Não por meu trabalho favorito com sua assinatura, aqui a trilha que evoca Bernard Hermann com perfeição em "Mank". Mas pela fluidez do jazz ajudando a contar a história de "SOUL", na qual eles ganham o reforço do músico Jon Batiste.

CANÇÃO

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Leslie Odom Jr. em 'Uma Noite em Miami'
Imagem: Amazon Prime

Existe muito amor por "Io Si (Seen)", que Diane Warren e Lausa Pausini compuseram para o delicado "Rosa e Momo", com Sophia Loren. E seria divertidíssimo ver a estatueta entregue para "Húsavik", fazendo de "Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars", com Will Ferrell e Rachel McAdams, um filme vencedor do Oscar. A aposta segura, contudo, é "Speak Now", de "UMA NOITE EM MIAMI", interpretada por Leslie Odom Jr., que a compôs com Sam Ashworth.

FILME INTERNACIONAL

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'Druk - Mais Uma Rodada'
Imagem: Vitrine

A categoria traz filmes poderosos como o documentário "Collective", "O Homem Que Vendeu Sua Pele" e o espetacular "Quo Vadis, Aida?" - que, em outros anos, dispararia como o franco favorito e pode surgir como zebra. Mas é difícil competir com "DRUK - MAIS UMA RODADA", que retrata a experiência de quatro professores, cada um lidando com sua vida em frangalhos, que decidem elevar o nível de álcool em seu sangue para buscar "maior equilíbrio" e, como consequência, mais felicidade. É um trabalho notável de Thomas Vinterberg (repetindo com Madds Mikkelsen a parceria de "A Caça") que, honestamente, deveria também estar entre os indicados a Melhor Filme.

DOCUMENTÁRIO

oscar polvo - Netflix - Netflix
'Professor Polvo'
Imagem: Netflix

"Time" surpreende com a luta de uma mulher em libertar seu marido, preso com uma sentença de 60 anos. "Collective" é uma paulada que mostra a investigação de um jornal romeno que revela uma fraude no sistema de saúde do país, resultando em dezenas de mortes. Mas o clima pesado de 2020 deve contribuir para a vitória de "PROFESSOR POLVO", que traz a leveza da amizade de um cineasta com... um polvo!

DOCUMENTÁRIO CURTA-METRAGEM

oscar collete - Reprodução - Reprodução
'Collete'
Imagem: Reprodução

A disputa aqui está por um fio de cabelo. Existe uma certa vantagem para "A Concerto Is a Conversation", que traz com execução brilhante a relação do compositor Kris Bowers e seu avô. "A Love Song for Natasha" e "Hunger Ward" são angustiantes em seu choque de realidade. Embora Do Not Split", sobre os protestos recentes em Hong Kong, seja o mais estimulante, eu vou de "COLETTE", sobre uma sobrevivente do Holocausto que visita o campo de concentração onde seu irmão morreu.

CURTA-METRAGEM

oscar estranhos - Netflix - Netflix
'Dois Estranhos'
Imagem: Netflix

Talvez nenhum filme em nenhuma categoria fale tanto sobre a tapeçaria social do novo século como "DOIS ESTRANHOS". Ao caminhar para casa (onde deixou seu cachorro) depois de passar a noite com a namorada, um desenhista (negro) é abordado e morto por um policial (branco). Ele acorda vivo, o dia se repete e ele é morto novamente, de formas diferentes, em um ciclo temporal que se repete como em "O Feitiço do Tempo". Escrito após o assassinato de George Floyd, o que resultou na condenação do policial Derek Chauvin, o filme reflete o racismo estrutural na sociedade americana, e certamente não passará batido no Oscar.

CURTA EM ANIMAÇÃO

oscar amo - Netflix - Netflix
'Se Algo Acontecer... Te Amo'
Imagem: Netflix

"Burrows", da Pixar, é um absurdo de fofo. "Opera" peca pela falta de conexão humana, mas é um assombro técnico de visual estonteante. Entre um e outro, porém, ainda aposto em "SE ALGO ACONTECER... TE AMO", uma paulada (disponível na Netflix, o que certamente aumentou sua circulação entre os votantes) que mostra o luto de dois pais por sua filha, morta em um tiroteio em sua escola.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL