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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Nomadland' traz Frances McDormand em uma jornada por um país invisível

Frances McDormand em "Nomadland" - Disney
Frances McDormand em 'Nomadland' Imagem: Disney
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

22/04/2021 04h00

A certa altura em "Nomadland", terceiro longa da diretora chinesa Chloé Zhao (leia entrevista com a diretora em Splash), sua protagonista considera deixar a vida errante e fincar raízes. Não é uma ideia duradoura. Uma vez na estrada, voltar a fincar raízes pode significar segurança e estabilidade, mas também traria o encerramento de um ciclo.

A trajetória de Fern, interpretada magnificamente por Frances McDormand, passa longe de fechar uma etapa em sua vida. Sob seu olhar, Zhao busca o registro de um paradoxo: a liberdade oferecida pela vastidão de uma América apresentada não só como espaço físico, mas também simbólico, saboreada por pessoas que ocupam, esquecidos e invisíveis, seus cantos menos festejados. Não é uma jornada, e sim um recorte.

Baseado no livro publicado em 2017 por Jessica Bruder, Chloé Zhao traça uma narrativa carregada em simbolismo, misturando realidade e ficção em uma trama que aborda, com sensibilidade, a necessidade em todos nós de criar conexões.

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A diretora Chloé Zhao no set de 'Nomadland'
Imagem: Disney

O ponto de partida é o esfacelamento das raízes da própria Fern. Ela e o marido moravam em Empire, cidadezinha no estado de Nevada, quando ele morreu pouco antes de a fábrica em que ambos trabalhavam fechar as portas. Na crise do fim da primeira década do século 21, isso significou literalmente a extinção da cidade. A vida humana e sua história não têm nenhuma chance ante a devastação promovida pelo capitalismo.

A vida na estrada, por outro lado, conta uma outra história. Ao colocar Fern desbravando esse território em sua van, "Nomadland" descortina pessoas que criaram seu próprio sistema de sobrevivência à margem da sociedade tradicional. Sua casa não é mais um lugar, e sim o momento. E nesse momento, um viajante só pode contar com seus pares.

Com esses elementos em mãos, Chloé Zhao explora um mundo quase alienígena, utópico em sua ideia de liberdade, incrustado nas entranhas do país mais rico e poderoso do planeta. Para isso, ela coloca McDormand interagindo com nômades reais, com pessoas que interpretam versões romantizadas de si mesmas.

É o caso de Bob Wells, nômade, autor e youtuber (século 21, claro), que organiza anualmente no deserto do Arizona um encontro de vandwellers, as pessoas que optaram por um estilo de vida minimalista e compactam suas vidas em RVs e fazem da estrada seu lar.

Ao romper a barreira do real e da ficção, Zhao confere a seu filme um verniz perturbadoramente realista, o que torna a costura de sua narrativa ainda mais brilhante. Mesmo com a interferência do mundo do lado de cá, a diretora nunca perde o foco de sua protagonista e da história sendo contada: de ponta a ponta, ainda estamos com Fern.

E é com ela que "Nomadland" conduz um estudo de personagem profundo, amarrado por memórias e fragmentos, à medida que Fern faz de seu passado uma lembrança distante como as cidades que foram varridas do mapa pela depressão.

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A vastidão da América em 'Nomadland'
Imagem: Disney

O filme torna-se ainda mais urgente quando visto sob a sombra da pandemia que fechou boa parte da população global em suas casas. Afinal, vemos uma "tribo" socialmente distante por opção, ao mesmo tempo em que suas relações provam que a necessidade humana de fincar raízes não diz respeito a lugares, e sim a pessoas.

São temas e ideias conectadas de forma agridoce em um filme que mostra os Estados Unidos como um país de beleza sufocante e relações humanas intrincadas. O talento de Chloé Zhao em amarrar esses caminhos narrativos mostram uma diretora tecnicamente impecável, com um olhar preciso e devastador sobre a complexidade do homem comum.

Um olhar já presente em seu primeiro longa, "Songs My Brother Taught Me", lapidado em seu segundo filme, "Domando o Destino". É curioso imaginar o que ela enxergou em "Eternos", da Marvel, que estreia ainda esse ano. Inquieto em sua beleza, "Nomadland" é cinema de gente grande.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL