'Damasco': A vida que perde o brilho na máquina de moer gente
Dei sorte. Logo nos meus primeiros empregos saquei o que não queria para vida. Nada de sapato e gravata, ainda mais para ficar enfurnado num escritório. Nada de sorrisinhos para quem não desejava encontrar logo pela manhã —em nenhum momento do dia, na verdade— nem de fingir interesse nos papos furados da copa.
Ser puxa saco de chefe, daqueles que batem palminha para qualquer coisa? Tô fora. Dei sorte de perceber o que não queria. E tive o privilégio de, por volta dos 20 anos, tentar encaminhar a vida para vender meu trabalho, não meu tempo ou meu tapinha nas costas.
Tenho meus perrengues, claro, mas, pelo menos, evitei que a parvalhice de certos empregos amargasse a vida toda. É capaz de minguar qualquer pessoa um trabalho que exige a maior parte do nosso tempo e que, ao final de cada jornada, aparenta só fazer sentido devido às contas.
Em certo momento Saulo ouve alguém falar sobre "karoshi", palavra japonesa para designar quem morre por exaustão de tanto trabalhar. É uma morte literal. Há quem morra aos poucos, definhado conforme é massacrado pela rotina. Aqui o sentido é figurado. O sujeito segue existindo, mas talvez seja demais olhar para ele e dizer que ali há vida.
Saulo é o protagonista de "Damasco", HQ com roteiro de Lielson Zeni e desenhos de Alexandre S. Lourenço publicada pela Brasa. É um dos grandes quadrinhos brasileiros dos últimos anos, tanto que em 2024 venceu o Prêmio Biblioteca Nacional e foi finalista do Jabuti —vencido pelo ótimo "Como Pedra", de Luckas Iohanathan (Comix Zone)—, em ambos na categoria Histórias em Quadrinhos.
Estar esgotado assim que o dia começa. O blá-blá-blá dos colegas. Ser mais um numa engrenagem cheia de pessoas descartáveis, quase anônimas. Chegar em casa e ver tudo se repetir, repetir, repetir. E isso enquanto a vida pessoal desanda.
Há a música, o videogame, o jogo de tabuleiro. Mas são apenas bem-vindas exceções numa rotina que esmaga Saulo. Assim, qualquer notícia entreouvida soa atraente, seja a vida virando de ponta-cabeça do outro lado do mundo ou o vislumbre de sumir e recomeçar do zero.
Não é só a história que faz com que o leitor sinta como o personagem vai sendo acuado pelo inabalável cotidiano. Tem contribuição fundamental para isso como diversas cenas são construídas em "Damasco", o ótimo aproveitamento das páginas, a repetição bem cadenciada, o uso de amplos espaços em branco por um lado e de sequências mais frenéticas de quadrinhos, por outro. Tem até o convite para que o leitor tope um joguinho.
Como escreve o jornalista Eduardo Nasi no posfácio, "'Damasco' tem que ser lida como uma HQ que é fruto do mundo contemporâneo e está imersa nele. E é nos seus elementos gráficos que se relaciona com uma gama de analistas que dissecam a máquina de moer gente do nosso tempo".
6 comentários
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Gabriela Campedelli
Mais uma interpretação forçada a la integrantes do PT que nunca fizeram nada.
Dario Martins Palhares de Melo
Todo jovem em um país capitalista, de livre mercado, de livre iniciativa, de impostos baixos, posto que justos, possui o mesmo ideal: conseguir ser dono do próprio negócio. Mas com ladrões concentrando as pequenas propriedades mediante bilhões dos impostos, com o impedimento irracional ao serviço de mototáxi (mais barato e eficiente) nas maiores cidades brasileiras, com a taxação de pequenas transações comerciais (vide pix), com uma Previdência que a toda hora muda as regras e que remunera a todos, menos ao trabalhador que quer se aposentar, realmente, o cidadão que conseguir uma CLTzinha as custas de bajular o chefe e aguentar papo abobrinha já deve se considerar um privilegiado.