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OPINIÃO

Richarlyson é bissexual e nós fomos cúmplices da violência por décadas

Richarlyson, comentarista da Globo: violência por anos Imagem: Bruno Freitas / EC Noroeste
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Luciana Bugni

Colunista do UOL

25/06/2022 21h49

Richarlyson é boleiro. Quem escuta seus comentários no SporTV e Premiere sabe: o cara manja de táticas, faz comentários pertinentes sobre futebol, fala bem e é inteligente em suas observações. O ex-volante estaria facilmente em uma das tantas mesas de bar que frequentei nessa vida em que o assunto era um só: futebol. E nesse universo, ser homossexual sempre foi xingamento.

Se ali estivesse, ele diria o que pensa, seria escutado, tomaria umas bordoadas, teria seu copo cheio de cerveja e seu cigarro aceso pelos meus tantos amigos que fazem isso semanalmente em cadeiras de plástico. Há décadas o ritual é o mesmo. Mas raramente houve alguém como Richarlyson entre nós. Sabemos o por quê.

Quando o ex-jogador assume ser bissexual, vêm imediatamente à mente as agruras que qualquer um que acompanhou o futebol brasileiro nos últimos 20 anos o viu viver. No São Paulo, os torcedores não diziam seu nome - um misto de quinta série com burrice. Onde já se viu humilhar um dos bons jogadores de seu clube minutos antes de partidas que vão decidir o destino desse mesmo time? No Palmeiras, a faixa que fazia apologia à homofobia. Crime.

Todo mundo foi conivente

Mas mesmo quem não se calou diante do silêncio do Morumbi antes dos jogos, ou quem não empunhou essa faixa asquerosa do Palmeiras... todo mundo que passou algumas horas discutindo o esporte nas mesas de lata ou de plástico dos bares foi conivente de alguma forma com essa violência.

Quantas vezes você fez coro com os risinhos citando Richarlyson? Eu me calei muitas vezes. Na homofobia legalizada onde eu fui criada, era ok zoar bicha. Nunca participei da chacota, porque vivia em um universo em que desprezar gays e lésbicas parecia ilógico. Porém, estranhamente, passei minha juventude em um universo boleiro, frequentando estádios — e nunca dividi mesa de bar com gay nessas situações.

Eram duas Lucianas: a que dançava com gay e a que discutia futebol com macho de igual para igual. Era raríssimo que os caras deixassem uma mulher opinar — ainda hoje é. E eu, me sentindo prestigiada por ser ouvida e bem tratada, deixava passar o machismo e a homofobia. Chamam de pertencimento, eu acho hoje idiotice. Sou cúmplice de certa forma do que Richarlyson passou nos últimos 20 anos.

Ricky é bom comentarista. Sair do armário não deve afetar em nada o teor de seu trabalho no grupo Globo. Para a geração homofóbica que cresceu silenciando seu nome, a saída do armário deve render uns risinhos escrotos. A quinta série nunca sai dos caras, você sabe como é. Talvez incomode mesmo ver Richarlyson ganhando dinheiro na TV para fazer os mesmos comentários que você faz de graça no bar - e ninguém ouve. Ou, quem sabe, irrite mesmo o fato de um cara que tem relações sexuais com homens ter jogado bola bem melhor que você.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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