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Leonardo Rodrigues

REPORTAGEM

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Fim do vinil? Bob Dylan ajuda a criar disco de alumínio 'superior a tudo'

T Bone Burnett e Bob Dylan - Getty Images
T Bone Burnett e Bob Dylan
Imagem: Getty Images
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Leonardo Rodrigues

Leonardo Rodrigues é jornalista do UOL, com passagem pela Folha de S.Paulo. Também é colecionador de LPs e luta para que, um dia, toca-disco deixe de ser confundido com vitrola.

Colunista do UOL

04/05/2022 14h48

De tempos em tempos, nos deparamos com notícias insólitas. A última: T Bone Burnett, produtor e guitarrista americano multivencedor do Grammy, anunciou que está desenvolvendo uma nova mídia musical, em parceria com ninguém menos que Bob Dylan, com quem tocou e excursionou nos anos 1970.

A novidade é um disco de alumínio envernizado que contém uma ranhura em espiral, cuja trilha parte de fora para o centro da peça. Em outras palavras, uma suposta evolução na tecnologia do vinil, com qualidade sonora superior ao LP e a qualquer outra mídia existente, transmissão digital incluída.

Na foto de divulgação que você vê abaixo, Burnett está segurando uma espécie de CD gigante com sulcos visíveis na superfície, o que indica que a leitura da peça será feita analogicamente.

T Bone Burnett apresenta seu Ionic Originals - Jason Myers - Jason Myers
Imagem: Jason Myers

O nome patenteado do projeto é Ionic Originals. Ou, segundo comunicado oficial, "discos que avançam na arte do som gravado e marcam o primeira evolução na reprodução analógica em mais de 70 anos".

Não, isso não é verdade. O disco de vinil, lançado em 1948, recebeu tecnologia stereo dez anos depois e passou por mudanças no processo de prensagem ao longo das décadas, que aprimoraram sua qualidade.

Talvez a melhor parte da empreitada, os primeiros Ionics trarão clássicos de Bob Dylan, que foram regravados pelo cantor ao lado de Burnett especialmente para a chegada do suporte.

A nota de apresentação, marqueteira como qualquer outra do gênero, joga as expectativas na estratosfera ao tentar vender uma ideia incrível e quase "poética" a investidores.

Um Ionic Original é o auge do som gravado. É qualidade de arquivo. É à prova de futuro. É único. Não é apenas o equivalente a uma pintura, é uma pintura. É laca pintada em um disco de alumínio, com uma espiral gravada por música. Esta pintura, no entanto, tem ainda a qualidade de conter aquela música, que pode ser ouvida colocando uma agulha na espiral e girando-a.

O disco Ionic - Jason Myers - Jason Myers
Imagem: Jason Myers

Conforme observamos na foto ampliada, o disco se assemelha mais a uma engrenagem industrial brilhosa do que exatamente a uma obra de arte. Mas essa pode ser só a percepção costumeiramente contida do colunista, que não se empolgou muito.

Burnett prossegue.

Ao descrever a qualidade que eleva o som analógico acima do digital, a palavra 'calor' é frequentemente usada. O som analógico tem mais profundidade, mais complexidade harmônica, mais ressonância, melhor imagem. O analógico tem mais sensação, mais personalidade, mais toque. O som digital está congelado. O som analógico está vivo.

Mais problemas nesse discurso. Por conter limites de definição, o som analógico do vinil como existe hoje, apesar de suas atrativas qualidades sonoras, não possui mais "profundidade" que o digital, embora tenha de fato mais ressonância, que na prática significa distorção. E isso não é exatamente algo desejável a todos os ouvidos.

Continuando, a ideia do músico e agora inventor é comercializar o formato via sua nova empresa, a NeoFidelity Inc, cuja missão é "gravar artistas em uma ampla gama de gêneros musicais e fornecer uma plataforma de distribuição para os Ionic Originals". Burnett quer "redefinir a avaliação da música gravada".

Mas qual é o problema de tudo isso?

A indústria do vinil vive uma crise decorrente da alta demanda e atualmente precisa lidar com preocupações ambientais crescentes. Toda ideia é bem-vinda, mas todo esse discurso edulcorado deixou colecionadores e especialistas ainda mais céticos sobre a viabilidade dos Ionic.

Não bastasse o histórico de projetos do gênero que naufragaram ou não conseguiram nem sair do papel, a falta de informação é gritante.

Agumas questões mais que básicas

Os discos poderão ser reproduzidos em um toca-discos comum? Quantos minutos de música caberão neles? Como serão gravados? Qual é a vantagem prática em relação ao vinil tradicional e a projetos de alta-definição, como o HD Vinyl, além da prometida qualidade sonora?

Mais: quando o público poderá colocar as mãos em uma dessas coisas? Quanto elas custarão? Quem são os parceiros da NeoFidelity e, talvez o mais importante, que varejista irá se aventurar a vender a novidade? Que garantias ele terá?

Nada disso foi respondido por Burnett até o momento

Sendo assim, é muito difícil não vislumbrar que os Ionic Originals estão fadados ao cemitério de formatos musicais e dispositivos, como o Pono, o player criado por Neil Young que prometia alta definição digital, mas não entregava isso e fracassou retumbantemente.

Infelizmente, não temos informações para julgar nada além da apresentação do invento, que não se mostrou lá muito auspiciosa. Mas cá estaremos para acompanhar o desenrolar dos próximos capítulos.

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E até a próxima datilografada!