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Leonardo Rodrigues

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Comprei vinil no iMusic, site da moda, e amei. Mas é bem fácil ser enganado

Edição limitada do álbum "Sabbath Bloody Sabbath", do Black Sabbath - Fernando Ferreira
Edição limitada do álbum "Sabbath Bloody Sabbath", do Black Sabbath
Imagem: Fernando Ferreira
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Leonardo Rodrigues

Leonardo Rodrigues é jornalista do UOL, com passagem pela Folha de S.Paulo. Também é colecionador de LPs e luta para que, um dia, toca-disco deixe de ser confundido com vitrola.

Colunista do UOL

18/04/2022 15h13

Frequentadores de grupos colecionistas conhecem uma rotina tão recorrente quanto o nascer do sol: alguém, em algum momento, mais de uma vez, perguntará sobre como funciona e se vale a pena gastar seus suados tostões no imusic.dk.

O site dinamarquês, que não é o único do gênero, virou moda nos últimos anos por dispor de um nababesco catálogo de LPs e CDs novos, mas principalmente por praticar preços bem abaixo da média do mercado, atualmente tão inflacionado.

Você chegou até aqui querendo saber se é mesmo bom negócio, certo? Responderei. Mas, antes, vamos a algumas questões.

Primeiro de onde vêm os discos da iMusic, que apesar da grafia não tem nada a ver com a Apple?

A empresa existe desde 2005, com sede na cidade de Risskov, e desde 2021 vem se expandindo globalmente. Segundo o site oficial, a loja atua física e presencialmente com "milhões de produtos", em um sistema baseado em fornecedores terceirizados, semelhante ao de e-commerces como a Amazon.

Mas por que e quanto é mais barato?

Por serem originalmente cotados em coroa dinamarquesa, moeda que nos últimos anos passou por um processo depreciação, os mesmos LPs vendidos na iMusic saem no Brasil, importados, por cerca de 200% a 300% do preço.

O que por aqui passa de R$ 200, R$ 300, lá pode ser facilmente encontrado por não muito mais que R$ 100.

Em caso de disco comprado individualmente, o frete, claro, encarece a operação, em até 60%. Mas a comparação ainda se mantém vantajosa, e o mesmo vale para CDs.

Os discos são vendidos lacrados e a página dispõe de traduções em cinco idiomas, incluindo o português (brasileiro), com valores convertidos automaticamente para o real. A cobrança é feita via cartão de crédito internacional ou PayPal, sem parcelamento.

Quanto tempo a encomenda demora?

Como há muitos títulos terceirizados, o prazo depende de disponibilidade. Fiz minha primeira compra na iMusic recentemente e recebi a encomenda após 20 dias corridos. Mas já li relatos de que isso pode ocorrer entre 9 e 30 dias.

Gastei R$ 311,60 em três LPs com frente incluso, sem cobrança de IOF que posteriormente será debitada em fatura. Meu pedido foi registrado em 19 de março e encomenda despachada em 28 de março.

O pacote chegou em minha casa, na cidade de São Paulo, em 8 de abril. Os discos vieram sem avarias em uma embalagem aparentemente segura.

É possível cancelar a compra em até 14 dias com reembolso. Em caso de problemas com fornecedores ou se você adquirir múltiplos itens em um só pedido e a iMusic não conseguir entregá-los simultaneamente, o cancelamento também funciona.

E a taxação na Receita Federal? Como fica?

A pergunta de milhões que respondo em uma palavrinha, talvez um tanto decepcionante: varia.

Sabemos que a taxa de produtos importados (também conhecida como alíquota) praticada pela Alfândega é de 60% do valor total de compras de até US$ 3.000, com uma segunda taxa de R$ 15 reais cobrada pelos Correios na retirada. E tudo isso pode incidir nos discos da imusic.dk.

Dois pontos geradores de dúvidas

  • Existe um famoso limite de isenção em compras internacionais declaradas em até US$ 50 (frete e eventual seguro incluídos), mas a Receita só o considera em transações entre pessoas físicas, o que não é o caso.
  • Não é cobrado imposto de importação sobre livros, jornais e revistas, o que teoricamente também não seria o caso. Mas a prática evidencia que discos (em qualquer formato) podem entrar nessa categoria durante o desembaraço alfandegário,

Minha compra de pouco mais de US$ 60, por exemplo, não foi taxada. E a maioria dos relatos de clientes brasileiros da iMusic indica que pedidos pequenos —todos são rastreados—, de até 3 itens, tem chance reduzida de taxação.

A própria loja, que utiliza os serviços do correio público da Escandinávia, recomenda a brasileiros não optar por compras que resultem em pacotes de mais de 2 kg (equivalente ao peso de 3 ou 4 LPs), devido ao alto risco de serem tributadas.

Importante: fique de olho no seu carrinho de compras. O peso final já é fornecido ali.

Vale a pena comprar na iMusic?

Opinião estritamente pessoal e intransferível: apesar de a cotação do real já ter sido mais favorável, vale certamente. Pelo supercatálogo, com dezenas de estilos musicais e edições limitadas, algumas em vinil colorido, pela agilidade no envio e principalmente pelos preços.

É uma das melhores e mais seguras formas de adquirir aquele disco difícil de se encontrar por aqui sem precisar oferecer em troca um pedaço do seu rim.

Os que os clientes dizem

No site Trustpilot, a imusic.dk é cotada com média de 4,6 em 5 estrelas, com mais de 7.000 avaliações registradas por usuários. No Google, a nota bate 4.5 a partir de 150 reviews. Bons números.

Mas é preciso ter cuidado se você coleciona discos clássicos para não comprar gato por lebre

A imusic.dk trabalha com LPs originais, mas muitas prensagens à venda são fabricadas por pequenos selos europeus que foram criados para tirar proveito de uma antiga legislação da região que inseriu em domínio público obras com 50 anos ou mais de lançamento.

Capa de "Lady in Satin", de Billie Holiday - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Ou seja, durante um certo período na Europa, de forma absolutamente legal, empresários inundaram o mercado com LPs sem pagar por licenciamento ou permissão dos detentores de direitos autorais. E muitos desses álbuns estão na iMusic.

São edições mais simples, baratas, feitas sem grande esmero gráfico e nos processos de masterização e prensagem do disco. Geralmente, foram criadas a partir de fontes exclusivamente digitais, como o CD, não a partir das fitas masters originais.

Sem puritanismo audiófilo, prática que sempre combati, mas, em se tratando de álbuns clássicos, esse "jeitinho" compromete bastante a experiência analógica que é um dos maiores atrativos do vinil. Você adquire um "LP digital", não exatamente o que imaginava —se é que imaginava alguma coisa.

Um pouco de contexto

Hoje a situação é diferente. Em 2011, com a proximidade da expiração da obra dos Beatles, a indústria fonográfica americana empreendeu um intenso lobby na Europa e conseguiu alterar a lei estendendo a proteção autoral, sem efeito retroativo.

Em suma: encontrou um LP bonitinho lançado originalmente entre os anos 1950 e início dos anos 1960, era dos monólitos do jazz e do alvorecer do rock, e o preço está bem abaixo do de outras edições similares? Desconfie.

Dica valiosa: jamais compre às cegas

Adquira o bom hábito de checar no ato da compra a gravadora responsável pelo lançamento e conferir a procedência dela —dá para fazer essa segunda parte no campo de busca do site Discogs, sempre ele.

Se no lugar das históricas gravadoras Blue Note, Prestige, Riverside, Columbia e Verve o disco da iMusic trouxer nomes como DOL, Doxy, Vinyl Passion, Jazz Wax, PanAm, Vinyl Lovers, talvez seja melhor gastar um pouco mais em outra edição.

Você já comprou na iMusic ou em outros sites estrangeiros? Então divida sua experiência comigo nos comentários deste texto ou via Instagram (@hrleo) e Twitter (@hrleo_). Quer ler mais textos do colunista? Clique aqui.

E até a próxima datilografada!